Antônio Alves Ferreira é porteiro do Condomínio Solar Princesa Isabella, no Leblon, há 39 anos. Sua história começa como a de muitos colegas de profissão. Nascido no Ceará, em uma cidadezinha sem luz nem asfalto, distante 360 km de Fortaleza, começou a trabalhar aos nove anos na roça. Aos 18 anos, sem perspectivas, mudou-se para o Rio em busca de um futuro melhor. Trabalhou em padaria e na construção civil. Neste segundo emprego, ajudou a erguer e cuidou da segurança do edifício onde, logo após o lançamento do empreendimento, viria a ser o porteiro por tantos anos. Lugar de onde não pretende sair tão cedo.
Contar sua história o fez lembrar-se dos momentos difíceis da infância, como a perda da mãe com oito anos, o fato de ser criado pela única irmã, hoje já falecida, a vinda para o Rio sozinho e o momento em que a Cidade o deixou zonzo no início. Tudo superado, com muito trabalho e determinação. Foi no Solar que encontrou condições de se estabelecer. Constituiu família, viu o filho crescer e se formar, tudo isso acompanhando de perto a história do prédio da década de 60.
Reconhecido por sua conduta correta, o porteiro foi sempre o braço direito do síndico, o primeiro por 22 anos, e o segundo e atual, há 16 anos. Marcos Vinício é só elogio a Antônio: “Mais que um profissional extraordinário, é uma pessoa de uma classe e de uma nobreza invejáveis. Crio meu filho sozinho e, sempre que preciso, venho buscar seus conselhos, pois é um exemplo de sucesso”, afirma o síndico. Ele valoriza o fato de o filho único do porteiro ser um advogado competente, com 7 anos de atividade, família e imóvel próprio. “Filho de uma pessoa com pouco estudo, mas de visão e, acima de tudo, correção moral, avançou socialmente com a ajuda do pai. Cresceu com os benefícios de morar no Leblon, mas com o rigor e o sentido de família”, valoriza.
Memória viva do prédio
A subsíndica, Lúcia Sereno, reforça a admiração por Antônio, pelo profissional que é e por sua personalidade íntegra. “Além de ser a memória viva da edificação, capaz de orientar em obras nas unidades ou nas partes comuns, é uma pessoa do bem, o que hoje não é fácil encontrar. É um amigo que temos”, afirma. Antônio foi peça fundamental em muitas obras ao longo de todos estes anos no Solar Princesa Isabella.
Antônio estabeleceu a rotina de trabalho desde cedo e a mantém, sempre estando voltado para a máxima tranquilidade dos moradores. “Morar no prédio permite ajudar em um momento de sufoco, como já aconteceu. Um idoso que caiu, uma infiltração que, se não cuidada a tempo, inundaria tudo”, exemplifica. Por outro lado, a possibilidade de ter a assistência necessária quando preciso. “Tive uma hemorragia digestiva certa vez e foi o socorro rápido que impediu o pior. Uma moradora, a atual subsíndica, me levou para o hospital”, recorda.
O ótimo relacionamento com os moradores, assim como o conhecimento do prédio, são destacados pela administração e pelo porteiro como as principais qualidades para se exercer a atividade de portaria. No mais, Antônio valoriza a possibilidade de ver a vida seguir seu curso, agradecendo sempre a Deus por tudo. “Venho envelhecendo no prédio, vendo as crianças crescerem, uma delas hoje é um ministro”, conta orgulhoso, acrescentado que não consegue se ver parando de trabalhar para ir para a praça jogar, como outros idosos. “Se a gente pára, a morte vem mais rápido”, considera.
Conselhos de quem soube construir seu lugar no mundo
A outros porteiros, especialmente para os mais jovens que começam agora, Antônio aconselha ter humildade, bem como ser honesto e respeitador. Além destas qualidades, ainda inclui a necessidade de um conhecimento específico sobre as instalações de um prédio, como saber sobre o funcionamento de bombas, sobre instalações hidráulicas e elétricas, elevadores, etc.
Ter uma vida regrada também é valorizado pelo porteiro. Torcedor do Botafogo, ele diz que brigar por causa de time, por exemplo, é coisa de gente que não tem o que fazer.
O porteiro não fuma, nem bebe e garante que isto não faz falta a ninguém. É um verdadeiro defensor de um lazer saudável. “Gosto de andar na praia, levar meu neto para passear. Nos dias livres, vou para a minha casa, em São Gonçalo, visitar o tio que me abrigou quando cheguei ao Rio. Vou também à Lapa, no apartamento de meu filho”, conta.
O fato de o filho ter um imóvel próprio é motivo de satisfação para o porteiro. “Não me conformava de vê-lo morar de aluguel. O sujeito pode ter uma limusine, mas, se não tiver um endereço, não tem nada. A pessoa tem que pensar que ela trabalha para construir alguma coisa para si nesta vida. Quem está começando agora deve ter uma meta”, ensina. |