Estar preparado para enfrentar situações de emergência só é possível quando medidas de prevenção são uma regra. No Japão, o histórico de terremotos de grande escala faz com que a população e os serviços públicos saibam o que pode acontecer e como agir quando acontecer. Mas, no Brasil, é diferente. A mãe natureza poupou-nos de grandes catástrofes e o resultado é que, quando uma chuva mais intensa cai sobre a cidade e alaga as ruas, fica evidente que não sabemos o que fazer. Todos — governo, estados, município e população em geral — são pegos de surpresa.
A síndica Paula Oliveira da Cunha, do Condomínio Estácio de Sá, na Praça da Bandeira, conta que no dia da enchente que parou o Rio de Janeiro o condomínio ficou ilhado. “Ninguém saía, ninguém entrava. Se alguém tivesse precisado de socorro médico, teria morrido”, lembra. A Praça da Bandeira foi um dos locais mais afetados, e a situação de isolamento do edifício se estendeu por dois dias inteiros.
E a ocasião nem precisa ser a de catástrofe. No Carnaval ou em megaeventos, como shows e reuniões religiosas, condomínios são obrigados a estabelecer toda uma ação diferenciada para enfrentar condições novas e adversas. No Centro, por exemplo, na época dos desfiles de blocos de Carnaval, é possível ver prédios cercados por tapumes para proteger as fachadas de vidro.
No Condomínio Double Service, no Leblon, esquina com a Conde de Bernadote, as festas do rei Momo e mesmo os finais de semana exigem paciência e trabalho redobrado. “Por causa dos desfiles de blocos, este ano até interditaram a rua”, conta o síndico José Leandro Dantas.
O condomínio precisa manter um funcionário na área externa orientando e pedindo para não estacionar ou se aglomerar no portão, pois a turma que vai aos bares parece querer parar o carro o mais próximo possível das mesas, segundo o síndico. “Mesmo a pé, param em grupo na entrada e fazem algazarra madrugada a dentro na calçada em frente ao prédio. É preciso um cuidado especial”, diz.
E já foi pior. Dantas conta que as coisas melhoraram depois das batidas realizadas pela operação Lei Seca. Mas os canteiros, colocados no passado a fim de garantir alguma barreira, foram mantidos, assim como as regras estabelecidas junto a moradores e empregados. Ninguém entra ou sai enquanto há alguém sendo identificado na área entre grades. O profissional que fica na portaria está com todo o circuito interno de TV aberto, atento a toda a movimentação. Quando o movimento de transeuntes é maior, outro profissional é deslocado para dar maior atenção ao controle de entrada e saída do prédio. “Quando um morador se impacienta porque tem que esperar todo o trâmite de segurança, falamos que entendemos que é uma situação de desconforto, mas explicamos que as regras servem à sua própria segurança”, conta.
Plano de Contingência
Um conjunto de regras estabelecido e seguido por todos é o que recomendam os especialistas, como Daniel Leite. O melhor sempre é agir com prevenção. É fundamental ter um plano para responder às situações “inesperadas”. As aspas servem para demonstrar que muito do que acontece pode ser previsto. A recomendação é para que o síndico, juntamente com os moradores, estabeleça um plano de contingência. Um conjunto de procedimentos que são utilizados quando surge alguma emergência.
“Todo condomínio deve ter preparado um plano de contingência, mesmo que simples. Basicamente, este plano consiste em descrever quem vai fazer o quê, no caso de um evento que pode ser um incêndio, um roubo, uma enchente, falta de luz ou de água, entre outros pequenos ou grandes problemas que possam atrapalhar a rotina”, explica Leite.
Em prédios menores, o próprio porteiro pode ser o responsável por buscar soluções, no tempo e na necessidade que a situação exige.
Um plano de contingência básico pode ser, por exemplo:
• Em caso de incêndio: comunicar ao síndico, acionar os bombeiros e os demais condôminos para evacuar a edificação, desligar a chave geral de energia e, em seguida, efetuar o primeiro combate ao foco do incêndio com os recursos do condomínio (extintores e mangueiras). Quando a situação for normalizada, comunicar aos condôminos.
• Em caso de enchente: além da comunicação ao síndico, alertar os condôminos sobre a situação para que evitem utilizar os elevadores e saiam do prédio, alertando ainda para o desligamento da energia. É preciso também acionar as bombas de recalque e, se houver risco de alagamento na área dos elevadores, desligá-los. É imprescindível deixar a iluminação de emergência em condições de utilização.
• No caso de invasão (roubo): comunicar a polícia, ao síndico e aos demais condôminos para não abrirem a porta até a normalização da situação (quando ocorrerá novo contato), desligar os elevadores, trancar os portões e aguardar a chegada da polícia em local seguro, evitando ser rendido pelos bandidos (caso não exista local seguro na edificação, deve ser no prédio vizinho ou mesmo na rua).
“Quando o condomínio é de porte médio ou grande, deve ter pessoal capacitado para enfrentar as diversas situações. Neste caso, o plano de contingência especifica de forma detalhada a função de cada empregado e/ou equipe na abordagem da situação de emergência. Porém, em qualquer condição, o acionamento das instituições apropriadas (Polícia, Bombeiros, Defesa Civil e Concessionárias de Luz, Água ou Gás) é obrigatório”, orienta.
Segurança para grandes eventos
Todo evento de grandes proporções, com centenas ou milhares de pessoas, causa um desequilí-brio no meio urbano. São inúmeros os transtornos para os que residem ou trabalham na área ou nas proximidades do acontecimento, como as restrições de locomoção, seja a pé, seja por veí-culo próprio ou coletivo, recebimento de serviços que ocorrem imediatamente antes, durante e logo após a realização do evento.
A desordem urbana impera com pessoas utilizando os muros como banheiros, calçadas como estacionamento, e com isso dificultando e, as vezes, até impedindo o acesso as garagens.
O pior é que além destes transtornos, devido a aglomeração de pessoas, o ambiente torna-se favorável a prática de crimes, como furtos, roubos e agressões.
Para evitar ou minorar os transtornos, é recomendável o estabelecimento de medidas de precaução, que vão variar com o porte e a duração do evento, ressalta Leite.
Entre as orientações do especialista estão:
• Sugerir para que, se possí-vel, pessoas com doenças graves ou que possam necessitar de uma internação de urgência se hospedem em outro local no perí-odo do evento;
• Sugerir que as pessoas que necessitam de livre e rápido acesso estacionem os veí-culos fora do condomí-nio em local próximo, para o caso de emergências;
• Programar os serviços de entrega para dia e horário anterior ao evento;
• Aumentar o efetivo da portaria visando atender a demanda de visitantes ou pessoas que desejem utilizar os equipamentos do condomí-nio (banheiro, água, abrigo);
• Isolar o perí-metro do condomí-nio;
• Discutir a adoção de regras e procedimentos mais rí-gidos relacionados ao acesso de visitantes e moradores acompanhados (evitar possí-vel entrada como refém);
• Estabelecer regras para a permanência e utilização das áreas comuns por visitantes;
• Manter um “kit” de primeiros socorros com medicamentos mais comuns e necessários, tais como remédios para pressão, que são indispensáveis para algumas pessoas;
• Com a retomada do Carnaval de rua no Rio de Janeiro, é importante ainda que o sí-ndico se conscientize para a adoção dos procedimentos sugeridos, bem como a discussão de regras especí-ficas para o período, inclusive, com relação ao acesso e frequência dos empregados.
DICAS E TELEFONES ÚTEIS
Em uma lista fixada em local de fácil acesso ao síndico, aos empregados e moradores deve constar o seguinte:
– O número da Polícia (190) e o do Batalhão da área.
– O número do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência): 192.
– O número do Corpo de Bombeiros (para incêndios, vazamento de gás e resgate em caso de traumas e de passageiros presos em elevador): 193.
Devem estar nesta lista também os números de emergência da empresa de manutenção dos elevadores e da seguradora do condomínio, assim como o número dos profissionais autônomos que costumam atender ao prédio, como chaveiros, eletricistas, bombeiros hidráulicos, desentupidores.
O síndico deve, ainda, ter o contato, o telefone e o endereço de todos os empregados. Deve ter também um telefone direto dos moradores e, se possível, de um parente ou pessoa próxima, a quem possa comunicar situações de emergência. |
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