|
“Limites sem Trauma” e “Educar sem Culpa” são apenas duas das 18 publicações, além das muitas palestras, conferências e cursos da professora da UFRJ, filósofa e mestre em educação Tania Zagury. Seu tema é a criança, a partir de uma abordagem comportamental. Os mais de mil eventos realizados e a tradução de seus livros para países dos três continentes, inclusive a coleção ecológica recentemente lançada, são provas de que a educação dos pequenos em está em alta. Nos condomínios, eles são um dos Cs (criança, cachorro, carro) que representam confusão na certa. Para ajudar os síndicos a melhor lidar com estas ferinhas, buscamos a orientação da especialista que nos dá dicas preciosas de como converter comportamentos inadequados em participação positiva na coletividade.
Lowndes Report – O que é próprio do comportamento da criança e o que pode ser considerado indisciplina?
Tania Zagury – Primeiro, precisamos diferenciar indisciplina, erro e vandalismo. Errar, como diz o velho ditado popular, é humano. Uma criança, no processo de aprender, pode errar, e, às vezes, mais de uma vez até que tenha aprendido realmente. Faz parte do processo de aprendizagem. Então, se num condomínio alguém comete uma infração ou um ato inadequado porque não conhecia o regulamento, o ideal seria informar-se sobre as regras. De preferência também do porquê da proibição. Em geral, as crianças são bastante cooptáveis, desde que saibamos falar com elas. Adolescentes e pré-adolescentes costumam ser mais rebeldes, mas isso também depende muito do ambiente e da forma como as pessoas convivem. Indisciplina é o comportamento daqueles que, embora cientes da existência de uma regra, por uma série de razões resolvem não cumpri-las. Já o vandalismo é uma atitude de indisciplina, porém mais destrutiva, porque inclui a destruição de algum ou vários bens, comuns ou não, propositalmente. São, portanto, três situações diversas que demandam ações também diversas por parte dos responsáveis.
LR – O que é disciplina, afinal?
Tania Zagury – É a capacidade de obedecer ordens, aceitar limites e regras dos seus superiores ou de autoridades em geral. A disciplina é importante na medida em que assegura bem-estar, igualdade e tranqüilidade a toda a comunidade. Esses regulamentos são geralmente mais bem aceitos quando sua elaboração tem a participação de todos os que serão diretamente envolvidos em sua execução.
LR – Há quem diga que o problema é de falta de limites em casa, mas há também quem considere que atos de indisciplina e até de agressividade e vandalismo seriam um pedido de atenção de crianças "abandonadas" pelos pais, mais ocupados com o sustento e as demandas da sociedade de consumo que com seus filhos. O que há de fato no comportamento atual das crianças?
Tania Zagury – Não há dúvida de que muitos comportamentos humanos inadequados e antissociais têm origem na falta de limites e de amor. Quando, além disso, há também agressões constantes, físicas ou emocionais, a possibilidade de surgirem problemas de conduta torna-se maior. Por outro lado, hoje, os pais ficam ausentes da vida diária dos filhos – e ambos, não apenas um deles. Isso dá às crianças mais espaço para indisciplina, especialmente porque sabem que não há autoridade parental imediata. Por sua vez, a culpa que os pais sentem por essa ausência é muito frequente e, por isso, muitos ficam na defensiva quando surge qualquer queixa sobre o filho. Os pais sentem que a conduta inadequada ocorreu devido a essa ausência e têm dificuldade em recriminar a criança. E, assim, impune, ela tende a repetir o comportamento indesejado, e não a corrigi-lo. Para o administrador do prédio, saber disso é bom porque, compreendendo, provavelmente poderá agir de forma a alcançar resultados mais positivos. Agora, o que não é possível é deixar sem algum tipo de sanção os que danificam ou prejudicam a comunidade. O gestor tem que atuar pensando no todo e não nas especificidades da cada um dos moradores. Isso significa zelar para que o regulamento interno seja cumprido por todos, até porque, em última instância, ele é o responsável pela preservação do bem comum.
LR – O síndico fica entre condôminos que não têm filhos e aqueles que passam a mão na cabeça de seus rebentos. É por isto que o pequeno condômino é um problema dos mais recorrentes no condomínio. O que o síndico pode fazer para conquistar a participação positiva das crianças, amenizando assim o conflito entre os adultos?
Tania Zagury – Acho que vale a pena tentar conquistá-las para a preservação do bem comum. As escolas costumam utilizar com bons resultados estratégias desse tipo. No início pode ser útil propor uma espécie de gincana. Por exemplo: o hall mais limpo (por andar), o lixo mais bem embalado etc. Pode também instituir a “Semana da Limpeza”: cada morador e seus filhos ficariam, por exemplo, encarregados de repintar a porta do elevador do seu hall. Na época do Natal ou da Páscoa, poderia haver uma gincana para ver qual seria o corredor mais bem decorado. O júri seria composto por crianças do prédio, de preferência as mais difíceis porque isso faria elas se perceberem com potencial positivo. Se o regulamento permitir, pode até instituir um prêmio, como uma redução de 5 ou 10% na taxa de um mês do condomínio. Isso faz a criança perceber concretamente que pode colaborar com a poupança familiar. Sempre haverá alguns para discordar, mas creio que, uma breve reunião ou mesmo uma carta-circular para explicar os ganhos que a comunidade teria, convenceria a todos.
LR – Qual deve ser o procedimento quando a criança causa um dano no condomínio?
Tania Zagury – Primeiramente, verificar quem cometeu o dano, se foi intencional, se tinha conhecimento de que o que estava fazendo era contra as regras e, também, se foi a primeira vez. A sanção deve variar de acordo com esses aspectos – ou nem ser aplicada. Se uma criança educada, respeitosa e colaboradora causou um estrago pela primeira vez (e desde que seja de pouca monta), seria produtivo apenas uma espécie de “pena alternativa”, como ler o regulamento, por exemplo. Já se for um morador sabidamente destrutivo, é preciso agir com mais rigor. A impunidade é talvez a maior responsável pela reincidência e até pela adesão ao malfeito por pessoas que não o fariam em outras circunstâncias, mas que se revoltam por serem, como costumam afirmar, “as bobocas”.
LR – Que sugestões daria para um programa de atividades infanto-juvenis nos condomínios?
Tania Zagury – Atividades comunitárias me parecem excelentes porque criam ou fortalecem laços e tornam as pessoas mais felizes. Ter o sentimento de “pertencer” é fundamental para o homem. Para tanto, funciona muito bem estimular moradores que gostam e têm prazer em organizar atividades (sempre há algum em cada prédio) a fazê-lo para as crianças do condomínio. No Dia das Crianças, pode-se organizar um Amigo Oculto; na Páscoa, uma Caça ao Tesouro; em dezembro, um Bazar da Solidariedade para coletar e levar roupas e presentes para um asilo idôneo. Coisas desse tipo podem até começar com poucas adesões, mas ganham espaço porque tornam as pessoas mais felizes. E, sentindo-se melhores, generosas e produtivas, a tendência é querer mais, tipo “endorfina do bem”, como gosto de chamar. Os adolescentes e pré-adolescentes do condomínio podem ir recebendo funções de mais responsabilidade, o que os deixará orgulhosos e colaborativos. Em síntese, ações como investir no positivo, ser um síndico justo e presente e trabalhar para que os condôminos se sintam seguros e atendidos fazem com que todos, e, em especial, os jovens passem a perceber o seu prédio como uma escola de vida. É preciso saber, porém, que tudo isso não acontece de uma vez e nem rapidamente. Tem que persistir e saber que educar é um processo longo e lento. Mas vale a pena, com certeza!
|