DEU CERTO
Escuta transformadora

  

Seu lema é o de que de nada valem conhecimentos de engenharia, direito e economia, tradicionalmente considerados os mais importantes na administração de um condomínio, sem que se considere, acima de tudo, o ser humano. E é com ele que Elisabeth Freitas tornou-se uma síndica de destaque dentro do Condomínio Village São Conrado, em São Conrado. Há cinco anos, ela é síndica do edifício Rotondo (100 apartamentos), há três do Lote I (300 apartamentos) e foi reeleita presidente da Sociedade Civil Village São Conrado (nove prédios).

“Quem faz a obra é o empregado, quem paga por ela é o morador, quem coordena é o síndico; logo são as pessoas que fazem acontecer”, afirma. No final do ano passado, a exemplo do que fez nos últimos anos, reuniu os empregados das três áreas que administra – mais de 50 funcionários – em uma festa memorável de confraternização. Em datas como estas, eles recebem presentes que melhoram os ambientes que utilizam no condomínio: uma TV de plasma (em 2008) e um microondas (em 2009), ambos para o refeitório, adquiridos com recursos da reciclagem do lixo implantada no Rotondo: “São melhorias, mas também formas de conscientização”, diz. O reconhecimento e o comprometimento das equipes, resultante de um relacionamento de respeito e confiança com a síndica, está na base de sua atuação bem-sucedida.

Tudo começou em 2004, em um momento crítico para o prédio em que até então Elisabeth era apenas uma moradora, sem nenhuma experiência com administração de condomínios. O síndico contratado havia falecido, os conselheiros dividiam-se no comando e, em meio a tudo isto, aconteceu um assalto. A comunidade sentia falta de uma liderança e a experiência profissional de Elisabeth falou mais alto. Psicanalista, com passagens por seleção em empresas, hospital psiquiátrico internacional, asilo, escolas e comunidade carente, aliado ao atendimento clínico, ela percebeu que era preciso alguém para lidar com pessoas.

Eleita, privilegiou o trabalho em equipe e passou a realizar reuniões com os funcionários, primeiramente semanais, depois quinzenais e, em seguida, mensais. Na psicologia, é uma estratégia conhecida como grupos operativos, uma escuta profissional que percebe pontos os quais precisam ser trabalhados. A dinâmica entre os funcionários aponta caminhos a seguir, a partir dos quais são realizadas intervenções que apresentam resultados.

Demissões, ajustamento de empregado à função, seleção de novos profissionais adequados às necessidades. Tudo isso passou a ser o indicador do rumo a seguir como síndica. “Já disseram que as atribuições de um bom administrador são honestidade, dinamismo e disponibilidade, mas há muito mais e aos poucos fui aprendendo, inclusive com as falhas”, conta, acrescentando que se sua experiência profissional ajudou, mas foi na prática como síndica que mais aprendeu.

“A escuta sinaliza para o que precisa ser ajustado. Mas não é porque paro para ouvir que trato as questões com parcialidade. Trabalho com demandas votadas, com livro de reclamações, a partir de regimento interno e convenção, e, principalmente, com a supervisão de conselheiros eficazes. Exerço uma função, nada é pessoal. Por exemplo, se há desentendimentos entre vizinhos, não fico de um ou de outro lado, a minha postura é de mediadora”, explica.

A vez do Lote I

Para trabalhar desta forma, a síndica investe no treinamento dos funcionários que a representam (inspetores) para que tenham a sua filosofia de trabalho, ou melhor, para que “falem a sua língua”, como diz. “Há uma seletividade de problemas que me chegam e isto me protege. Assim, posso manter uma distância profissional entre a síndica e os moradores para estar sempre reivindicando pelo Condomínio e não pelo particular. Antes as pessoas perguntavam: Não vai quebrar este galho para mim? Mas o papel do síndico não é o de quebra-galho”, diz.

Depois de dois anos à frente do Rotondo, com ações já reconhecidas, Elisabeth foi eleita síndica do Lote I, após uma breve contribuição como conselheira. O Lote é a parte que administra jardins, piscina, quadra polivalente, parque infantil, guaritas e estacionamentos. São mais de 20 empregados e um perfil de demandas diferente dos prédios. Um dos maiores desafios deste o início foi o enfrentamento dos focos de uso de maconha que ocorriam em algumas destas áreas comuns.

“Sem nunca chamar a polícia, somente com a preparação dos empregados para ocupar estes locais, ficou claro que não havia espaço para o uso de drogas nas áreas do Lote I”, conta a síndica que, ao contrário do que se possa pensar, é extremamente exigente. “Trabalho com equipes de 12 por 36 horas. Se algo acontece é a equipe do turno que é chamada a responder”, diz Elisabeth.

Este lidar com pessoas buscando o seu melhor é fator primordial para a síndica. Por outro lado, respeitar os funcionários garante o sentimento de que eles têm em Elisabeth uma representante. “Chamo a atenção, advirto, cobro com severidade, mas, ao mesmo tempo, treino e dou novas chances. É uma via de mão dupla, ninguém pode desrespeitá-los, mas eles também precisam respeitar a todos e cumprir as suas funções com excelência”. A síndica mantém um rádio aberto 24 horas e os empregados são orientados a não deixar nenhum problema crescer. “É preciso manter o controle e a comunicação entre eles, entre eles e eu, e, em conseqüência, com os moradores. Logo o rádio é uma peça fundamental nesta tarefa”.

Sociedade congrega equipe de síndicos

Trabalhando com o sentido de equipe e com um padrão único de atuação, os próprios colegas cobram uns dos outros. A fórmula já utilizada no Rotondo e, de certa forma, também no Lote I é comprovadamente bem-sucedida e a síndica a está utilizando também na Sociedade Civil. “No início tivemos muitas demissões e os moradores não entendiam o que se pretendia fazer. Mas agora não há tantas demissões e eles funcionam de forma eficaz”, defende.

Este funcionamento é comprovado pelas assembléias que, para a síndica, representa o retrato dos prédios e da atuação do síndico. Se ninguém se entende, algo vai mal. Mas se tudo vai bem, as reuniões são tranquilas, e é o que acontece. “É preciso ler os sinais antes, trabalhar com prevenção. Podemos, a partir das assembléias, diagnosticar onde estão os focos dos problemas e agir rápido, antes de a febre subir”.

Sob administração da Sociedade está o espaço comunitário, onde são realizadas missas e aulas de ginástica, de yoga, de pilates etc., além de reuniões diversas com os síndicos.

A configuração é diferente e há um rodízio entre os síndicos dos lotes, que assim podem ajudar a quem está ocupando o cargo de presidente. “Há uma comunhão. O título de presidente é pomposo, mas não há este poder todo porque na prática o importante é conjugar com os síndicos pelo bem comum”.

Obras buscam renovação

Sem maiores alardes, a cada ano Elisabeth realiza uma grande obra em suas administrações. São sempre benfeitorias significativas em um condomínio com 30 anos. Mais que manutenção, a atenção da síndica foca na modernização da estrutura e dos ambientes. “Em 2007 reestruturamos a piscina do Lote I com uma arquitetura moderna. Em 2009 foi montada uma academia no Rotondo e este ano será a modernização dos elevadores. Uma a uma, fazemos o que é preciso. Muitas obras são urgentes: no prédio, são as trocas de tubulações; no Lote, as infiltrações do jardim para as garagens; na Sociedade, a reforma das cinco quadras de tênis (uma já foi feita)”, cita.

Mas tudo é feito a partir de planejamento, respeitando o momento dos moradores e contando com o apoio da comissão de obras. A preocupação com os condôminos ela justifica lembrando um dos principais problemas dos síndicos: a inadimplência. “É delicado: a obra precisa ser feita e, se há quem não possa pagar, não quer fazer. Mas quem vê a necessidade de sua execução, reclama que seja providenciada logo, e o síndico fica no meio. É preciso ter tranqüilidade e não se deixar influenciar”, diz, acrescentando que o que é importante ou não no momento é uma decisão da assembléia e não dela. E é a partir de uma visão de que é preciso ter uma estrutura organizada para que tudo funcione que Elisabeth atua. “São três universos diferentes, mas todos são um só, o Village São Conrado, foco principal de toda a ação”.

Atualmente, sua grande meta é unificar e tornar digital todo o sistema de segurança do Village, com um padrão único de procedimentos. A proposta é unificar a estrutura de segurança para que ela passe a funcionar como um cinturão em torno de todo o condomínio. O tema já está sendo discutido pelos síndicos e está em processo avançado de decisões.

E assim é a receita desta síndica para o sucesso na gestão de condomínios. União e respeito entre as pessoas, construção de uma confiança mútua e de uma comunidade que se reconheça na base de tudo o que é feito para o bem comum. É uma postura de quem entende que, se não há o reconhecimento deste aspecto humano das organizações, não há obras, não há nada. “Se não há uma alma, um coração pulsando com vigor, não faz sentido administrar”, conclui.

.DICAS DO DEU CERTO

– Ser atuante sem ser política.

– Manter as equipes de trabalho em sintonia ao privilegiar o respeito mútuo.

– Saber escutar as demandas dos moradores e analisar todas as possibilidades antes de tomar qualquer atitude.

– Privilegiar a comunicação escrita para exercer com eficácia a administração.

– Não misturar seu lado pessoal com a função de síndica.

– Ter o seguinte lema para os funcionários: “A melhor forma de se lidar com situações complexas é o bom senso, e isto não se aprende na escola”.


 

  
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