Marcos Vinício é sindico profissional desde 1983. Está há 16 anos à frente do Solar Princesa Isabella, no Leblon, uma construção dos anos 60, com desenho arquitetônico da época. Preservar o projeto original do edifício, conciliar interesses dos novos e dos antigos moradores e ter pulso para lembrar que as decisões devem ser sempre acordadas são seus maiores desafios. Motivos mais que suficientes para permanecer com a mesma disposição de quem está começando na profissão.
O carinho especial pelo Solar Princesa Isabella tem ainda outro motivo. Foi onde teve sua primeira remuneração. “Na verdade, o salário era a isenção da cota condominial, mas meu pai repassava para mim o valor em dinheiro”, recorda.
Ele tinha 23 anos quando começou a trabalhar como síndico profissional, em uma época em que isto ainda era incomum. Recém-formado em administração, frequentava as assembleias para representar os pais e para ver mais de perto o que era esta especial forma de administrar. Marcos sempre considerou condomínio como muito mais que somente uma atividade para um contador.
Como começou cedo, sempre foi visto como o caçula, fator que o ajudou, pois aprendeu muito com quem tinha mais experiência.
Proximidade com os moradores torna trabalho ainda mais desafiador
Hoje, entre as várias administrações que faz, destaca a experiência no Solar pelos desafios que impõem. Uma fachada clássica, dos anos 60, e o design de época, do carpete aos metais, tudo conservado. “Manter é mais difícil que descaracterizar”, afirma para exemplificar o tipo de trabalho que o edifício exige.
Esta manutenção, atendendo às especificidades de sua arquitetura, vem somar com a característica da comunidade que, por habitar um prédio de apenas 12 apartamentos, é muito próxima. “E veja que o síndico não pode primar pela simpatia: nosso trabalho é um tanto rígido. De vez em quando, é preciso lembrar que a decisão foi acordada pela maioria. E isto é difícil. Quanto menor a comunidade, mais personalizada”, analisa, explicando que os problemas deixam de ser os do apartamento número tal, para ser o de pessoas.
Outra característica de prédio antigo é o embate comum entre moradores recém-chegados e aqueles que estão no edifico desde o início. Geralmente, o mais jovem vem cheio de idéias que quer ver postas em prática, mas que entram em choque com quem mora há mais tempo. “A lei de condomínio prima pela isonomia, mas o novo acha velho e o velho diz que é história. Como conciliar?”, pergunta.
Atenção aos detalhes
Apesar de defender o respeito ao projeto original, Marco não deixa de fazer as obras necessárias. Foi assim quando trocou a tubulação de esgoto e precisou restaurar o que se quebrou. Detalhista e criterioso, imprimiu um capricho que considera fundamental. “É preciso trabalhar para manter o antigo sem que ele pareça velho”, diz.
Um trabalho que nem sempre é fácil. A fachada é um exemplo. Ela é toda em vidrotil, um tipo de pastilha de vidro que exige manutenção com respeito à periodicidade porque, se perder uma peça, pode ser difícil encontrar outra para repor. Marco defende que, especialmente em edificações com projetos arquitetônicos históricos, estes cuidados são necessários. “Se você sair modificando, para facilitar, pode fazer com que tudo depois fique parecendo uma velha plastificada, um arremedo de alguma coisa”, afirma. Para ele, manter a dignidade da edificação é o ponto central.
A próxima obra está dando o que falar. O prédio vai adotar uma rampa de acesso, alterando o desenho original do edifício. Um projeto arquitetônico está sendo feito e há a expectativa dos moradores: uns são a favor; outros, contra. Mas o fato é que a obra já está aprovada e basta o síndico parar na portaria para logo alguém vir perguntar quando vai ficar pronta e como vai ficar o prédio depois. “Há uma ansiedade natural. Mas a obra vai sair, e o mais importante: valorizará ainda mais o imóvel, sem desfigurá-lo”, garante.
Na obra anterior, a de impermeabilização do play devido a uma infiltração para a garagem, os antigos ralos foram mantidos.
O pulso firme do síndico, assim como sua disposição e disponibilidade para as questões do condomínio, são características valorizadas pelos moradores. Para a subsíndica Lúcia Sereno, um prédio em que as pessoas se aturam há 40 anos precisa ter alguém de fora que seja como Vinício. “Com toda esta disposição e atenção conosco”, afirma.
“Depois de 16 anos, a relação vira um pouco familiar, o que não impede que a gente siga buscando o melhor para o prédio e seus moradores no conjunto”, concorda.
Para o síndico profissional, dar certo em condomínio é ter respeito, ser gentil e responsável, ter compreensão e paciência capazes de abrir um caminho para a harmonia condominial, para vencer junto. “É um conceito que a vida em condomínio ensina e hoje já não há muitas outras formas de morar. Mas esta é muito boa e ensina, de verdade, muito”, conclui. |