PORTEIROS
Mauro Lessa - Edifício Key West
 

ELE É O SEVERINO DO PRÉDIO
Mauro Lessa

No Condomínio do Edifício Key West, na Barra da Tijuca, um zelador conta uma história diferente da maioria daqueles que trabalham em condomínios no Rio de Janeiro. Para começar, Mauro Lessa é carioca de Campo Grande, não teve passagem pelo trabalho rural nem pela construção civil e, para completar, apesar do cargo de zelador, atua de uma forma que mais se assemelha às modernas demandas por profissionais de edifício, funcionando na prática mais como um gerente. Coordena 26 funcionários, entre fixos e prestadores de serviços terceirizados, e atende a todos os cuidados necessários à manutenção e ao funcionamento do prédio de 26 andares e 208 unidades. O síndico Manuel Bulhosa não deixa dúvida: “Estou neste mercado há 12 anos e posso dizer que é dolorosa a função de atender a condômino, o que Mauro faz muito bem. É um excelente profissional”, afirma.

Para Mauro, o que dá mais trabalho é a relação com os prestadores de serviços: “Na hora de vender o serviço, é dez. Na hora de executar, fica aquela coisa mais ou menos, e a gente precisando. É difícil”, explica. Por isto, muitas vezes, especialmente nos finais de semana, é Mauro mesmo quem faz acontecer. Seja por já conhecer muito das necessidades do prédio e ao longo do tempo ter aprendido a atendê-las, seja para não ver o morador ser prejudicado. Mas, bem humorado, o zelador brinca, fazendo-se de Paulo Silvino, o humorista em seu personagem Severino: “Sobra tudo pra mim”. De fato, Mauro conhece bem o seu trabalho. “Sei por onde passa cada tubo de água, cada fio de eletricidade”. Não é à toa que Mauro é mais conhecido por “faz-tudo”. “Ele faz serviços elétricos e administrativos; colabora de verdade”, confirma o síndico.

Mas ter que socorrer o prédio nos finais de semana não é a regra. Mauro trabalha de segunda a sexta-feira, das 9 às 18 horas. Para ajudá-lo, conta com o apoio de Sandra, na parte administrativa, e Ricardo, bombeiro hidráulico que Mauro fez questão de pedir para ter na casa por considerar este um profissional indispensável em um condomínio. O bombeiro participou da obra de construção do prédio, outro fator que o Zelador considera fundamental. Todos os demais são terceirizados e têm a coordenação de Mauro, ao mesmo tempo firme, exigente e camarada.

Com uma estrutura de trabalho organizada, acredita que consegue ter mais tempo para a família e as obras de melhoria de sua própria casa. É ele quem cuida de tudo, pois, para Mauro, é fazendo que se aprende. Com 40 anos recém-completados, casado e pai de dois filhos – Felipe, de 13 anos, e João Gabriel, de um ano e cinco meses –, Mauro e a companheira de casamento por 14 anos, Elaine, se desdobram para dar mais conforto e atenção aos filhos. O programa preferido é o futebol, mas, no pouco tempo livre, acaba mesmo é andando de bicicleta, a diversão preferida do filho Felipe. No mais, é cuidar das obras de melhoria, da troca do piso da área, um quintal e uma lavanderia. “Antes tinha folga nas segundas; com o tempo, a cada 15 dias, um domingo. Agora dá para conciliar melhor a dedicação ao trabalho e à família”, conta.

O relacionamento com os moradores, que para ele são como parentes, é a melhor parte do trabalho. “É como uma segunda casa, uma segunda família”, explica, acrescentando que, pelos anos de trabalho no prédio, já tem mãe e avó emprestadas. “Conhecer e ser conhecido por todos e ter o respeito e o carinho de muitos é motivo de orgulho para mim. E, se há muitos afazares, é melhor porque assim é mais estimulante”, afirma Mauro, que antes do emprego de zelador no Key West, onde já está há 10 anos, havia sido gari, motorista de caminhão e segurança. “Sou muito curioso e gosto de desafios. Toda hora acontece alguma coisa aqui. Em que outro lugar poderia ter um trabalho assim?”, justifica. Mauro começou a trabalhar com 14 anos, em feiras livres, e aos 17 já estava com a carteira assinada, em uma fábrica de gelo. Batalhador, poderia ser o seu outro nome. “O que há de diferente aqui que me fez ficar é que não fico nunca preso à rotina. A gente aprende coisas novas todos os dias. Lida com tanta gente diferente, empresas, problemas. Todo este movimento faz a gente se sentir bem”, afirma.

Para os outros porteiros, o zelador do Key West diz que o mais importante é escutar, ouvir as pessoas porque, senão, não se aprende a lidar com elas. Ter bom humor é outra dica que ele considera fundamental, assim como o respeito ao outro. Mauro afirma que, quando as pessoas gostam do trabalho realizado, o respeito vem, e aí dá vontade de trabalhar mais e melhor. “Cada prédio tem uma realidade, condições que exigem mais esta ou aquela habilidade, mas lidar com pessoas é algo que é necessário em todos eles. É o que faz a diferença”, ensina.

 

  
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