Cuidado com os procedimentos de controle de acesso! O aumento do número de assaltos a prédios é alarmante, acima da média das demais ocorrências deste ano, e exige o enfrentamento de uma realidade: os condomínios estão facilitando o trabalho dos bandidos.
De acordo com um estudo do Secovi-Rio, 30% dos roubos e furtos ocorridos em condomínios têm a participação de pessoas que estão dentro dos prédios, seja por despreparo dos profissionais, por erros no uso dos equipamentos ou pela facilitação da ação dos bandidos por parte até dos próprios moradores.
A polícia, por sua vez, critica o fato de que, na maioria dos casos, as câmeras não gravam, as portarias ficam abertas ou não há qualquer controle de acesso e os profissionais não têm treinamento ou conhecimento sobre procedimentos de segurança que os ajude a trabalhar.
“Esta ausência de obstáculo oportuniza a ação criminosa”, avalia Raymundo Luiz Baptista de Oliveira, professor do Curso de Gestão Corporativa de Segurança, da Fundação Getúlio Vargas, e Gerente de Segurança Empresarial.
Em um caso recente, registrado na 14ª. Delegacia de Polícia, do Leblon, o bandido teria acenado para a câmera de um prédio em Ipanema após um furto, em um exemplo de escárnio pelas facilidades encontradas.
Para a polícia, sequer existe quadrilha especializada em roubos e furtos a residências no Rio e os crimes seriam praticados por jovens associados a traficantes.
Os bairros da Zona Sul, são os mais visados, especialmente aqueles próximos a favelas, o que facilita a fuga dos bandidos.
Eliminar oportunidades
Para Raymundo Baptista, o principal motivo para o crescimento dos ataques a edifícios é a falta de um entendimento de que o crime ocorre como resultado da seguinte equação: motivação (razões sociais) + atrativo (bem ou patrimônio) + oportunidade (facilidade de acesso), multiplicado pela falta de investimentos em recursos humanos + recursos tecnológicos + recursos normativos adequados aos riscos existentes no local.
Para reverter este cenário, o especialista orienta que os síndicos foquem suas ações no item oportunidade, a principal variante a ser trabalhada quando o assunto é segurança, e não apenas a predial. “Evitar dar oportunidade é a única forma de garantirmos a nossa proteção”, explica.
Análise de risco é importante
Mas, como todos os que operam nesta área, ele também diz que não se pode fazer muito caso não se conheça os riscos a que se está exposto. Uma informação que só é possível obter com uma análise de riscos e a partir da qual são feitos investimentos adequados e, não necessariamente altos, em segurança. “Não existe solução única para todos os problemas”, justifica. Baptista acrescenta ainda que o estudo orienta para a correta utilização de cada componente e para o dimensionamento adequado dos recursos.
“Na prática, o que se constata é que sequer uma análise de risco existe para pautar um planejamento das ações de segurança”, afirma, acrescentando que temer fazer alguma coisa por causa dos custos é um erro: “Em minha experiência, vejo que nem sempre os resultados mais significativos estão associados aos investimentos mais altos. Um condomínio com um planejamento estruturado de segurança, onde a oportunidade de ação é bloqueada, tem sucesso”.
Outra dica do especialista é estudar as propostas de empresas ou consultorias de segurança, levando em conta como ela pretende atuar, no caso de uma tentativa de agressão, no que diz respeito aos itens inerentes à prática: dissuadir - detectar - atrasar - reagir.
“Por fim, devem-se efetuar palestras sobre segurança para mostrar aos moradores o risco que a resistência ao cumprimento das normas e procedimentos de segurança representa para o condomínio e, também, para a família do próprio morador resistente”, acrescenta.
Quanto maior a circulação, maiores os cuidados
Neste período de maior fluxo de pessoas estranhas ao prédio devido às festas de fim de ano, os procedimentos de segurança requerem ainda mais atenção.
Quem entende bem do assunto é o síndico César Thomé, do Condomínio do Edifício Chopin, em Copacabana. As festas de Reveillon do prédio são famosas e ele não faz por menos quando o assunto é segurança.
Mal se curou a ressaca de uma festa e um novo planejamento para as ações do ano seguinte é elaborado. O síndico conta que muitos moradores contratam segurança própria e estas se somam à do condomínio no atendimento às deliberações predefinidas para o evento. “A primeira grande preocupação é apresentar um ao outro. Depois, cada segurança individual deve apresentar a lista de convidados daquela unidade ao condomínio, a fim de que o nosso pessoal possa interfonar e receber a autorização para a entrada exclusiva dos listados”, diz.
Dito assim, parece simples e fácil. Mas cada convidado precisa ter uma pulseira que o condomínio manda fazer e guarda a sete chaves suas especificações de cor e formato, até o último momento, para evitar fraudes. Do lado de fora do prédio, uma faixa vermelha e grades são colocadas para o encaminhamento dos convidados e para evitar tumulto devido ao grande número de pessoas na rua por causa do Reveillon na praia.
Os seguranças ocupam as três portarias sociais. A garagem fica fechada porque em toda a rua o tráfego está proibido até o dia seguinte. Mas os elevadores, todos automatizados, passam a ter ascensoristas, que atuam apenas nesta data para controlar o número de passageiros, especialmente na hora da saída. Além deste profissional, um mecânico de elevadores fica de plantão até às 4 horas da madrugada para resolver qualquer problema que venha a ocorrer.
Todos aqueles que têm mais de 20 convidados precisam contratar segurança própria. Isto está estabelecido como norma do prédio, assim como tudo o mais. Nenhum detalhe é esquecido.
A megaoperação, que exige muito planejamento, organização e pulso do síndico, dá resultado. César Thomé conta jamais ter enfrentado problemas com segurança no prédio.
Dicas de segurança
Vigias e porteiros inscritos em cursos de segurança: nas aulas, eles aprenderão técnicas, por exemplo, para saber como proceder e evitar serem rendidos por ladrões, inclusive se estes estiverem disfarçados.
Proteção na portaria: a cabine na entrada do condomínio deve ser concebida como um ‘cômodo enclausurado’, ou seja, totalmente fechada e com duas portas. Uma delas só deve abrir quando a outra estiver fechada.
Câmeras que monitoram e também gravam. As imagens contribuem para elucidar crimes, a partir da identificação dos criminosos.
Localização das câmeras definida de acordo com uma análise de riscos: elas devem ser colocadas logo acima da cabine de entrada, na entrada e saída de veículos, nos elevadores, ou qualquer outro ponto vulnerável.
Funcionários treinados para monitorar: todos os empregados do condomínio devem receber treinamento para segurança, mas um precisa monitorar as câmeras para observar se algo estranho ocorre no edifício. Ele deve saber o que é “estranho” e como agir.
Procedimentos de conhecimento de todos: os procedimentos de controle de acesso devem ser aprovados junto aos moradores e passados aos empregados. Todos devem obedecê-los pela segurança do prédio e dos que nele circulam.
Telefones de delegacias e batalhões sempre à mão: o contato rápido com as polícias é fundamental, por isso, todos no prédio devem ter os telefones das que atendem ao bairro.
Código secreto: deve-se estabelecer um código para que empregados e moradores possam informar, sem que os bandidos percebam, que estão em situação de risco. Além do código é preciso estabelecer as ações que devem ser tomadas nestes casos. Elas devem fazer parte dos procedimentos de segurança do prédio.
Identificação e cadastro de visitantes: todos aqueles que chegam ao prédio devem ser identificados e ter a sua entrada autorizada pelo morador que irá visitar. Seus dados devem constar de um cadastro feito em livro próprio pelo porteiro.
Cadastro de moradores: todos os moradores devem ter dados como telefones e pessoas de contato na portaria.
Cadastro de empregados: todos os empregados devem ter seus dados cadastrados, inclusive por determinação legal, no prédio.
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