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DEDICAÇÃO E AMIZADE

A curiosidade e a facilidade de fazer amigos levaram Raimundo Aprígio de Souza, porteiro-chefe a mais de 21 anos no Edifício Márcia, no Grajaú, a tornar-se um profissional dos mais ecléticos. Foi observando o trabalho de outros profissionais, no convívio e na camaradagem com eles, que foi aprendendo e hoje é quem orienta e auxilia síndico e moradores, especialmente os novos no prédio, quando da necessidade de uma obra. Ele é capaz de desenhar por onde passam as tubulações e também de fazer os consertos. Sabe trabalhar com instalações hidráulicas, elétricas, pintura, serviços de pedreiro. “Ele começou a trabalhar aqui pouco depois da construção do prédio, conhece muito da estrutura e com o tempo aprendeu outros ofícios. Com a total confiança dos moradores, acaba sendo o faz tudo, a exemplo dos antigos zeladores”, conta José Mario Laza, o síndico que faz questão de elogiar o porteiro: “Raimundo é bastante bom em tudo o que faz”, diz.
Contar com a confiança dos moradores é um orgulho para ele, mas mais que isto ele tem a amizade deles, conquistada ao longo dos anos de um convívio respeitoso, mas afável, sempre bem humorado e tranqüilo. Nascido na cidade de Mamedi, na Paraíba, Raimundo veio para o Rio em 1978 trazido por amigos. Na rua onde trabalhou por 12 anos, em um condomínio vizinho ao que trabalha hoje, conheceu muita gente, o que foi fundamental para superar os primeiros anos longe da família. A mãe, hoje com 85 anos e 11 irmãos. Ser sociável não foi difícil tendo crescido em uma casa com seis meninas e seis meninos. “Achava que seria muito difícil, mas com a ajuda dos amigos fui me adaptando. Eles me ensinaram tudo, me ensinaram a viver”, agradece.
Mas Raimundo não teria aproveitado os ensinamentos se não tivesse interesse. Ainda na década de 70 soube que o Senai oferecia um curso para porteiros e foi lá fazer. No Batalhão do bairro faz todos os cursos que ministram. “Se for baratinho ou de graça, então, pode ter certeza que estarei lá”, garante. Talvez seja por isto que Bruna, a filha única de porteiro e de uma manicure (Judite), está se preparando para fazer medicina. Com 18 anos ela está no pré-vestibular decidida e orientada pelo pai: “Não vai deixar os livros jamais. É profissão para estudar a vida inteira. Mas tem o meu orgulho por isto”.
O conhecimento e a tranquilidade do porteiro-chefe permitem que coordene o trabalho dos auxiliares, do faxineiro e do vigia, faça o seu trabalho e ainda reserve tempo do dia para dedicar-se aos trabalhos extras, à família e aos amigos. Os moradores, que a qualquer problema chamam por Raimundo, compreendem e pela qualidade do atendimento preferem esperar a procurar um profissional que não conhecem. Morador do edifício, Raimundo brinca que não se atrasa ou falta porque não poderia alegar problema com ônibus ou engarrafamentos, mas todos conhecem sua dedicação e comprometimento. Para os mais novos aconselha: “Tem gente que já quer começar de cima. E não é assim. É preciso muito trabalho, aprendizagem, respeito. Respeitar para ser respeitado”, ensina.
Parece o discurso de uma pessoa muito sério e ele é, mas com muito humor. Mesmo no ambiente de trabalho. Onde está há boa conversa e risadas. Quando está de folga é hora de participar de uma churrascada na laje, com amigos da Mangueira ou de Rio das Pedras. “Como aqui tenho pouco espaço, os encontros são na casa deles. Famílias reunidas e muito divertimento. Assim a vida é boa e sou um sujeito bastante satisfeito”, conclui.
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