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UM SONHO REALIZADO

Manoel Severino de Moura nasceu e cresceu em Caruaru, no sertão de Pernambuco. Trabalhou desde pequeno na lavoura e ainda criança via amigos partirem em busca de trabalho no Rio de Janeiro. Um grupo deles chamava mais a sua atenção: os que encontravam emprego de porteiro. Eles voltavam em férias, para visitar a família ou mesmo para buscá-la, sempre mais tranquilos, contentes e até vaidosos do trabalho conquistado. Emprego em bairros da Zona Sul, ou em outro lugar, mas sempre com infra-estrutura, sem as dificuldades da seca e da precariedade que vivia. Miguel não confessava, mas procurava saber direitinho como era o serviço e os detalhes da rotina de trabalho e descobrir por onde começar. Seu objetivo era um dia ser porteiro.
Em 1995, um amigo voltou e, já adulto, Manoel não teve dúvidas. Veio para o Rio arriscar a sorte. Nos prédios da Tijuca, arredores do local onde trabalhava e morava o companheiro de infância, o ainda muito tímido pernambucano bateu de porta em porta até chegar ao Condomínio do Edifício Lina. Quem o atendeu foi a própria síndica, a advogada e professora, ao contrário dele muito falante, Eliana de Miranda. “Simpatizei com ele de imediato e resolvi dar uma oportunidade àquele rapaz que demonstrava tanta vontade de trabalhar”, lembra.
Desde então, Manoel é o zelador do prédio de 17 apartamentos, quatro andares, mais a cobertura, onde é autoridade absoluta quando o assunto é cuidados de conservação e manutenção. Sempre incentivado pela síndica, reeleita várias vezes, aquele que já foi muito introvertido conseguiu se tornar o funcionário “hors-concours”, um verdadeiro “salva-vidas de todos os moradores”, segundo a síndica. “É de total confiança, criativo, observador, solícito, querido por todos porque é dedicado e comprometido demais com o que faz”, elogia Eliana, que lamenta apenas não ter conseguido ainda fazer com que Manoel retome os estudos. “Ele não pôde estudar em criança, mas as condições eram diferentes. Agora ele pode e eu sou professora, afinal. É o meu sonho vê-lo estudar. Ele aprende rápido, é aplicado, aprendeu sempre tudo com tanta facilidade. Ele ainda se mostra resistente, mas não vou desistir”.
Manoel acredita que há um tempo certo para a escola e que o dele passou. Mas balança ao dizer que não sabe como será daqui para frente com o filho em período escolar. De qualquer forma, para ele o sonho de sua vida está realizado. Ele conta que a maior prova do quanto os moradores gostam dele e o consideram veio em 2006, quando encontrou alguém para se casar. “Realizaram uma assembléia para saber se eu poderia continuar morando no prédio: todos aprovaram e ainda fizeram uma vaquinha para que eu e a Rosângela começássemos nossa vida”, orgulha-se. “Manoel começou aqui, casou-se e agora tem um bebê lindo, o pequeno Miguel de sete meses. É como se fosse da nossa família. Nós o acompanhamos, o incentivamos e torcemos por seu crescimento”, destaca a síndica.
O já quase carioca Manoel torce para o Fluminense e gosta de passar as horas livres com a família, visitando um de seus dez irmãos, Joel, o único que mora no Rio, ou passeando no shopping. Adora o seu trabalho e diz que o mais importante é sempre ir em busca do que se quer. “Quem tem um objetivo na vida deve buscá-lo porque, se buscar, vai encontrar”, conclui.
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