CHOQUE DE ORDEM NA CIDADE

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Tema recorde de participação em pesquisa de opinião e motivo de muita polêmica, as ações da Secretaria Especial da Ordem Pública (Seop) estão dando o que falar. Grande parte da população está recebendo bem as ações de combate à desordem, mas é quase consenso que, além do “choque”, é preciso um tratamento lento e prolongado. Há os que consideram as medidas fascistas, por não considerarem questões sociais, como falta de habitação e emprego. E, ainda, os que acham que elas são só “fachada”, por não resolverem, mas apenas afastarem os problemas. Caso de moradores de rua, ambulantes e estacionamento irregular que, retirados de algumas locais, passam a ocupar outros.

Conversamos com o Secretário Especial da Ordem Pública, Rodrigo Betlhem, e ele nos disse que entende a demanda e que o trabalho é enorme, mas que sua vontade de combater a desordem é maior. A população conta com isso. Experiência ele tem: Betlhem foi subprefeito da Lagoa, do Méier e da Barra da Tijuca, subsecretário estadual de Coordenação da Capital e subsecretário estadual de Governo, onde esteve à frente dos projetos de reordenação urbana batizados como Ipabacana, Copabacana e Barrabacana. O secretário rebate as críticas, dizendo que não é possível resolver todos os problemas de desordem na cidade de uma hora para outra.

LR – Como o Sr. está avaliando a reação da população e como pretende atender a tanta expectativa?
Rodrigo Betlhem – Não será de uma hora para outra que iremos resolver todos os problemas da cidade. O Rio vive hoje as consequências de mais de uma década de abandono e ausência do poder público nas ruas. Para mudar esse quadro de desordem, estamos reestruturando a fiscalização a fim de ampliar o número de bairros a serem atendidos por operações permanentes como são as operações “Bacanas”.

LR – Há muitas ações focadas na população de rua, ambulantes e estacionamento irregular. Quais as linhas de frente selecionadas para o combate à desordem urbana e o que virá a seguir? Existe uma lista de prioridades?
RB – A prioridade da secretaria é mostrar que a Prefeitura está de volta às ruas, assegurando os direitos e o bem-estar dos cidadãos. Regulamentar atividades econômicas, fazer valer as posturas municipais, garantir transporte legal, impedir construções que ponham em risco a vida de famílias, bem como coibir e evitar o pequeno delito são algumas das muitas funções da Seop. Nosso objetivo é ordenar a cidade e proporcionar uma qualidade de vida melhor à população.

LR – Como a população pode contribuir com estas ações?
RB – O engajamento da população é fundamental para que as operações de ordenamento tenham o efeito desejado e sejam revertidas em qualidade de vida.
A população pode ajudar, por exemplo, deixando de comprar produtos piratas, não estacionando o carro em cima das calçadas e não jogando papel no chão.
Muita gente de boa fé pode até achar que dar dinheiro nas ruas a menores ou à população de rua é estar sendo solidário. Na verdade, está contribuindo para tornar a rua rentável e, consequentemente, desordenada e perigosa. Rua não é lugar de ninguém morar, não é lugar de se explorar crianças, como assistimos hoje. Para promover e manter a ordem pública, é preciso o apoio e a colaboração da população.
Estamos fazendo a nossa parte. Criamos mais seis equipes para ajudar no controle urbano nas diversas regiões do município, cobrindo áreas onde o choque de ordem ainda não tinha chegado. Assim, vamos atender com mais agilidade e frequência à população e suprir a ausência em alguns bairros. Em paralelo, promoveremos campanhas educativas. As pessoas se acostumaram com a desordem. Virou uma endemia. Até mudar isso, leva um tempo.

O que se diz sobre o choque de ordem

Maus hábitos são difíceis de largar. Um morador ligou indignado porque não queria andar de bicicleta pela ciclovia e sim pela rua, no final de semana. Foi abordado pela guarda municipal e não gostou, acabou ganhando um registro de desacato. Outro reclamou porque chegou a ser levado para a delegacia, por estar estacionado em fila dupla. Nos dois casos, há amparo legal para a ação da guarda. Mas as pessoas reagem: estavam acostumadas a fazer errado e ficar tudo bem. Dá para ver que as ações pela ordem pública estão acontecendo pelo aumento no número de registros por desacato.
Horário Magalhães, presidente da Associação Amigos de Copa.

Há muito trabalho de educação a fazer. Aqui no condomínio, a gente colocava planta nas jardineiras e levavam. Na rua, o comércio deixa a água correr porta afora e o mau cheiro impera. Por outro lado, a cidade tem problemas, os bueiros vivem entupidos, as pedras portuguesas estão sujas, desniveladas e soltas. A população tem que fazer a sua parte, mas o poder público também.
Carlos Alberto, ex-sindico do Edifício Alzília.

Ainda é cedo, pois esta atitude tem que ser constante para que o objetivo seja atingido. Não tenho conhecimento de como está o restante da cidade, mas, por aqui, estamos apenas recebendo a desordem que está sendo expulsa de outros lugares.
Mário Santos, morador de Botafogo.


EVENTOS DE RUA

POPULAÇÃO QUER CHOQUE DE ORDEM TAMBÉM PARA SHOWS

Nos últimos anos, o Rio contou com vários shows de grande porte, realizados em sua maioria na orla e no Aterro do Flamengo. Muito barulho, confusão no trânsito e cenas de vandalismo e depredação, com mijódromos espalhados por toda a parte. A população reagiu. Os síndicos entenderam que com a força do bairro podem mais, os moradores também se aproximaram das associações. Unidos e de forma organizada estão intervindo quando acreditam que o evento pode ser prejudicial à cidade. E o resultado foi que Ipanema ficou sem o seu Reveillon na praia. A previsão era de um público de 800 mil pessoas, mas os moradores não quiseram.


A presidente da Associação de Moradores do Morro da Viúva (AMOV), Maria Thereza Sombra, conta que foram 90 eventos ao longo de 2008 e que o Aterro vem sofrendo com isto, especialmente em seu projeto paisagístico. “Ninguém respeita nada: pisoteiam a grama, danificam as árvores, estacionam em todo o lugar e em cima de qualquer coisa. A rua Rui Barbosa fica tomada de flanelinhas, as saídas principais são fechadas e, se alguém precisar de um socorro, morre, porque ninguém entra, ninguém saí. Fora o engarrafamento, há ainda o barulho. As caixas de som são viradas para os prédios e os moradores do condomínio Barão da Laguna, por exemplo, são acordados às 6 horas da manhã com os testes de microfones, e o desconforto segue pela madrugada. Onde fica a qualidade de vida dos moradores?”, reclama.


Horário Magalhães, presidente da Associação Amigos de Copa, diz que a questão não são os eventos em si: “A gente não quer que a cidade perca seu perfil cultural; quer é que haja um meio termo, um mínimo de ordem e respeito ao outro, para que a desordem não ofusque o brilho da festa”, diz Horário. “O problema é a falta de planejamento e organização. É preciso também diálogo com a população: como é que você vai dar uma festa na casa de alguém e não o consulta?”, questiona.


Para ele, o ápice do desespero dos moradores de Copacabana foi o show da cantora de Axé Claudia Leitte. “No Bairro Peixoto, há mais de 15 quarteirões de distância do evento, havia cinco ônibus estacionados em fila dupla. As bancas de jornal por todo o bairro viraram banheiro público. Em um prédio da rua Duvivier porteiros tiveram que trancar as portas, pois populares escalavam as grades e tentavam invadir. Na Praça do Lido, houve tiros. E a polícia não soube de nada disso. Não há condição”, afirma.


Para a nova gestão municipal, a realização de um evento na cidade do Rio de Janeiro, seja shows de músicas, Réveillon, Carnaval ou grandes competições, só poderá ocorrer com aval da Prefeitura, que terá como princípio e base a questão da ordem pública. O secretário Rodrigo Betlhem diz que estará atento. “O poder público é responsável pelo bem-estar do cidadão. A manutenção da ordem urbana é fundamental para garantir tranquilidade, fluxo de trânsito de carros e pessoas e, principalmente, segurança tanto para aqueles que estão no evento, quanto para os que não querem participar dele”, conclui.

 
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