|
ELE MERECE
O condomínio Fonte da Saudade, na Lagoa, reuniu mais de 70 moradores para comemorar os 30 anos em que o porteiro-chefe José Ferreira da Silva trabalha no prédio. A homenagem, idealizada pela síndica Neide Follain, teve apoio total da comunidade e público recorde de participação nunca alcançado por nenhuma assembléia por mais sério ou grave que fosse o motivo. Todos queriam se confraternizar com José. "Cada morador tem uma história e ele é testemunha de todas. Nascimento, casamento, separação, momentos bons e ruins. Temos um vínculo grande. Ele faz parte da nossa vida e nós da dele", explica a síndica.
Foi uma festa surpresa, com direito a presentes, bolo, salgadinhos e a presença de familiares e amigos do porteiro, além da expressão de espanto do porteiro ao ser recebido por uma salva de palmas. "Realizamos a comemoração um dia depois da data. Os convites para os moradores foram distribuídos em segredo. Pedi ao filho dele para chamar a família e ao porteiro do edifício vizinho para convidar os amigos. Ele não desconfiou de nada. Avisei que estava fazendo uma festa para minha filha no play e na hora do almoço dele pedi que viesse trocar uma lâmpada". "Fiquei surpreso e feliz", agradece José, que chegou a ficar sentido, acreditando que ninguém havia se lembrado da data.
O porteiro conta que foi um dia para recordar os primeiros tempos difíceis. Paraibano da cidade de Uité, a 250 km da capital, o hoje porteiro veio para o Rio em março de 1970. A família não queria que viesse. Achava que seria tudo difícil. "E foi. Não voltei por vergonha", diz. Foi pedreiro de uma grande construtora e depois porteiro de um edifício onde os condôminos eram militares, antes de encontrar um lugar que considerasse adequado para trabalhar e manter a mulher e os dois filhos pequenos.
Mas as memórias mais marcantes foram para os momentos especiais e até engraçados. Logo no primeiro emprego, José chamou a atenção dos patrões que o convidaram para trabalhar como porteiro no prédio da sede da empresa. Mas, na ocasião, um compadre estava na cidade com a família e estava precisando de um serviço. Pediu então que a vaga fosse dada a ele, ficando como faxineiro. Não satisfeitos, os chefes o indicaram para outro prédio: um condomínio habitado exclusivamente por militares, de linha dura, com regras rígidas e aplicação de multa. Quem as entregava? José, que cumpria com a sua função sem se intimidar.
Ele chegou ao condomínio Fonte da Saudade quando entregava uma encomenda na vizinhança e um conhecido que trabalhava no prédio o chamou. José gostou do edifício e em outra ocasião passou por lá procurando o amigo, já disposto a se oferecer para trabalhar ali. Foi atendido por um senhor que saía. Quem era? O síndico, que explicou que o rapaz não trabalhava mais ali e, após uma conversa rápida, pediu os documentos de José e queria que começasse já no dia seguinte.
Estas histórias dão uma dimensão da pessoa que ele é e explica, em parte, o respeito e a afeição dos moradores do Condomínio Fonte da Saudade. "É uma pessoa séria e, ao mesmo tempo, gentil e extremamente solidária, sendo bastante admirado por seus valores morais, dignidade e conduta no trabalho e na família. Criou os filhos aqui e os meninos que foram garotos do play, convivendo com a gente, hoje têm suas vidas, trabalho, família, seguindo o exemplo do pai", elogia a síndica.
José é assim. Diante de uma briga entre condôminos não só conseguiu acalmar os ânimos como não se aborreceu com a forma agressiva com que foi tratado por aquele que estava mais exaltado: "No dia seguinte, joguei no número do apartamento dele e ganhei", lembra. O experiente porteiro ensina que sem paciência e jogo de cintura para lidar com as mais diferentes situações não se pode ser um bom profissional de portaria. Outro requisito que considera essencial é a vontade de trabalhar, sem o que nada é possível.
Os longos anos de trabalho deram ao porteiro um conhecimento grande sobre o prédio, sua estrutura e necessidades. Ele é o braço direito da síndica, que está em sua segunda gestão. Para ela, José é uma espécie de herói. "Tudo o que acontece de difícil, de complicado, chamo o José". Ela recorda uma madrugada em que juntos trocaram telhas sob a chuva, o dia em que uma árvore caiu sobre um carro na área comum do condomínio e muitas outras situações em que foram as habilidades e a presteza de José que tornaram a situação menos traumática.
Sua conduta faz com que receba propostas de moradores para acompanhá-los quando saem do prédio. Para seu espanto, até mesmo um dos militares do antigo prédio onde trabalhou ainda o procura perguntando se não gostaria de voltar. "Um quis me levar para o exterior", conta, acrescentando que o ambiente de trabalho e de moradia, além da família, pesa na decisão de recusar e o faz continuar no Fonte da Saudade. Os moradores do condomínio agradecem.
|