PORTEIROS
 

PELA PARAÍBA

Como tantos porteiros que trabalham em edifícios cariocas, Francisco Pereira Silva veio para o Rio convidado por um conterrâneo já com emprego garantido, em seu caso, em um hotel. Depois de algum tempo, conheceu uma pessoa especial, hoje sua esposa, e foi buscar outro local onde pudesse morar com ela. Assim, tornou-se zelador no condomínio Farol da Barra, na Barra da Tijuca, há 15 anos.
    
O diferencial de Francisco é que ele resolveu contribuir para a melhoria da qualidade de vida de paraibanos, no Rio e na Paraíba. Ele escreveu e registrou o projeto PASParaíba (Projeto Ação Solidária Por Amor à Paraíba) para representar legalmente os paraibanos e convocou nordestinos para integrar a causa. O PASParaíba tem o objetivo de divulgar a cultura e a tradição paraibana e defender o meio ambiente nos dois estados. “A formação de cooperativas de catadores tem representado a possibilidade de uma vida mais digna para pessoas que, sem trabalho, recorrem aos lixões, vivendo de forma perigosa e insalubre”, justifica. Porteiros de todo o estado do Rio e moradores da Comunidade Rio das Pedras são seus maiores aliados.
    
Para a divulgação de tudo isto, ele montou o site www.pasparaiba.org e mantém um programa de rádio comunitária de Rio das Pedras (FM 90,9). Por estes meios, coleta donativos e busca apoio para quem quer voltar para a terra natal e para os que permanecer aqui. “Quando a pessoa migra, o faz em busca de melhores condições de ensino, de capacitação, de trabalho e de renda, porque isto falta em sua terra. Eu vim assim e foi difícil nos primeiros tempos. Meu sonho é mudar isso. Que as pessoas tenham o direito a uma vida digna em sua terra ou em qualquer lugar onde decidam morar”, diz.
   
Ele conta que, quando saiu do primeiro emprego no Rio, chegou a passar necessidade, pois ficou quatro meses batendo na porta de agências de emprego sem conseguir uma oportunidade. Foi preciso, mais uma vez, a intervenção de um amigo para conseguir uma vaga. Emprego que permitiu começar a realizar seu sonho. Retomou os estudos, fez o ensino fundamental e o médio e cursou turismo cultural e radiojornalismo. Autodidata, aprendeu ainda, por conta própria, a fazer sites “Chegaram a me cobrar 800 reais para fazer o www.pasparaiba, quando o meu salário é pouco mais de metade disso. Não tive outro jeito”, explica.
    
O site surgiu para divulgar suas idéias e mostrar ao mundo que é possível realizar. “Acredito que, na vida, você só precisa querer”, afirma. Para ter uma noção de sua força de vontade, ele reuniu mais de uma tonelada e meia de donativos, entre roupas, calçados e alimentos não perecíveis, para mandar para os atingidos pelas enchentes que aconteceram em sua terra nos últimos meses. Agora está buscando recursos para levar tudo isso.
     
Já a rádio representa um meio para chegar até as pessoas “que, por vezes, precisam apenas de uma palavra”, diz. Mas é através de seu programa – no ar todo sábado, das 12 às 14 horas, com muito serviço e cultura nordestina, música e informação – que consegue falar diretamente com as cidades da Paraíba e intermediar a retomada de contato entre familiares separados pela migração. Ele também contribui para quebrar preconceitos. “É preciso mostrar que a Paraíba não é só sequidão e pobreza. Quero mostrar a cultura e as tradições da minha terra, colocando em contato não só os paraibanos com o seu lugar de origem, mas também permitindo que pessoas de outros lugares possam conhecer as riquezas e as belezas culturais do Estado da Paraíba”, diz.
     
Empreendedor, Francisco já foi candidato a vereador na sua terra, o município de Fagundes, mas desencantou-se com o mundo da política e diz que descobriu que pode fazer mais ficando fora disto: “Na política você tem que tomar um partido, um lado ou o outro. Com a rádio, através da internet, chego a amigos, políticos do mesmo partido ou adversários, a todo mundo. E com uma posição neutra”. acrescenta. O contato com as rádios de lá permite buscar a Secretaria de Apoio Social das cidades e fazer campanha entre seus moradores para ajudar a quem quer voltar para casa e não dispõe de recursos. “A rádio é um meio poderoso de mobilização, é uma outra forma de contribuir”.
     
No condomínio, dedicação é igual

Para uma das conselheiras do Condomínio Farol da Barra, Isabel Cristina Duarte Guimarães, Francisco é uma pessoa impressionante. “É profissional de confiança, solícito, que entende de tudo, não falta e nos ajuda muito. Tem este trabalho maravilhoso, realizado apenas nas horas vagas – e ele trabalha o dia inteiro aqui. Não pensa nele, não pede nada para ele, é tudo para as pessoas de sua terra. Não conheço ninguém igual”, elogia a conselheira, acrescentando que foi Francisco quem implantou a coleta seletiva no condomínio, orientando os moradores para os cuidados na separação e no descarte do lixo e conquistando a adesão de todos.
   
“Nunca misturei as coisas, mas os moradores sabem do meu trabalho depois do expediente e me ajudam. São pessoas muito boas”, devolve o zelador, único funcionário do prédio de três andares e cinco apartamentos. Ao longo dos 15 anos no prédio, Francisco adquiriu um conhecimento tal que qualquer barulho diferente lhe tira de casa para ver o que está acontecendo com a bomba d'água ou com a lâmpada de um corredor. A atenção que dedica ao trabalho não é diferente da dispensada a seus conterrâneos. “Além de meu trabalho, este lugar também é minha casa, onde fui acolhido e tenho apoio. Não poderia ser diferente”, afirma. Francisco mora com a mulher, Maria de Fátima, e o filho Cássio. O filho participa como voluntário em ações para a coleta de recicláveis e tem grande interesse pela questão ambiental, o que enche o pai de orgulho.
    
O zelador é só elogios à profissão que adotou. “Gosto, pois você trabalha num ambiente em que é respeitado, que tem um papel e uma função, ao mesmo tempo um lugar para se dedicar e uma base segura e tranqüila de onde se lançar em busca de seus sonhos”, defende. O que mais gosta é de atender às pessoas, perceber que as a agrada. Francisco faz de tudo no condomínio: conserta portão, interfone, bomba, instalações hidráulicas e elétricas. “Eles me pagam por isso e me sinto gratificado por saber que posso ajudar e, ainda, por meu esforço acrescentar uma renda a mais a meu salário”, conclui.

Apoio para a entrega dos donativos

Francisco está em busca de apoio para levar os donativos que conseguiu levantar para a Paraíba. São cobrados R$ 35,00 por volume, para o transporte por via terrestre. Quem tiver interesse em ajudar, entre em contato através do site www.pasparaiba.org.

  
Design by Claudia Fischer • Powered by 3RStudio
Copyright © 2006 - Lowndes & Sons S.A. - Todos os direitos preservados