O que fazer quando é visível que um empregado está bebendo além da conta? O uso excessivo de bebida alcoólica é denunciado pelo aspecto da pele, pelo odor que emana do corpo, pela vermelhidão dos olhos, pela marcha e a fala alterada. Moradores reclamam, preocupam-se. Com o síndico fica a saia justa de buscar resolver o problema. Mas como?
Se o funcionário não chega alcoolizado, a abordagem é ainda mais delicada. Mas se chega alcoolizado ou bebe no trabalho, a questão tão pouco é de fácil solução. Apesar de a demissão, inclusive por justa causa, para o caso de embriaguez no emprego estar prevista na CLT, os tribunais hoje entendem que o uso abusivo de bebidas alcoólicas é doença e, como doente, o empregado deve ser tratado e não penalizado.
Uma demissão por justa causa, ainda que comprovada a embriaguez com testemunhas e avaliação médica, pode levar o condomínio, caso o demitido reclame seus direitos na Justiça, a pagar aviso prévio, multa de 40% do valor depositado do FGTS e indenização por dano moral. E, ainda que a demissão não seja por justa causa, se o empregado morar no condomínio, por exemplo, será preciso conviver 40 dias com uma pessoa revoltada que, possivelmente, beberá ainda mais a partir daí.
Pela complexidade da questão, seja por prevenção, questões humanitárias ou motivos de segurança – a rotatividade de empregados é um dos fatores que mais riscos trazem à segurança dos condomínios –, a demissão como recurso mais comum para dar fim a problemas de alcoolismo entre empregados vem perdendo terreno.
Passo a passo: tornar o problema evidente é começar a resolvê-lo
Se um empregado com um histórico de pessoa confiável e bom profissional começa a beber abusivamente, os especialistas médicos e gestores de recursos humanos orientam que vale intervir antes que o problema torne-se mais grave. E o primeiro passo para isso é chamar o funcionário para uma conversa e adverti-lo.

"Um porteiro, que acabou demitido, contou que moradores desciam com bebida para oferecer a ele e beberem juntos. É o componente social do ato de beber, mas deste jeito fica difícil para o empregado perceber que a bebida alcoólica pode acarretar conseqüências negativas para sua vida e seu trabalho", exemplifica Mônica Álvaro, psicóloga com longos anos de acompanhamento de drogados, inclusive em grupos de apoio a alcoólicos.
Para a especialista, o problema precisa aparecer e ser assim encarado porque a linha é tênue entre beber socialmente, tornar-se dependente ou sofrer e causar danos à própria vida e à de outros. "Há quem beba muito sem se tornar alcoólatra ou se envolver em situações de violência e distúrbios, mas os riscos existem, assim como os danos físicos, mentais, morais e sociais, e são os mesmos seja para os bebedores abusivos, seja para os dependentes", alerta a Mônica Álvaro. "Quantidade e tempo de uso, mais que sorte de não desenvolver o alcoolismo, são os fatores determinantes da extensão dos danos", acrescenta.
O passo seguinte é sugerido pelo Supervisor de Recursos Humanos, João Luiz Martins, que diz que, depois de alertar o empregado para o problema, deve-se encaminhá-lo para um atendimento especializado.
Tolerância e limite
Para que a abordagem e o encaminhamento do empregado tenham um resultado positivo, é preciso que o síndico tenha um conhecimento mínimo sobre a doença e as formas de tratamento. Outra orientação é fazer um retrospecto do histórico profissional, separando aspectos positivos, especialmente do início do trabalho, aos mais recentes, depois do envolvimento com a bebida alcoólica. Isto deve ser apresentado como estímulo para a aceitação do problema e para buscar meios para voltar a ser como era antes da bebida.
Pode-se também contar com a ajuda de membros de AA – basta pedir no grupo mais próximo ao condomínio que um membro venha fazer uma abordagem; eles atendem prontamente. Ou, ainda, buscar a ajuda de um especialista.
Ter paciência e atitude são outras recomendações. Isto porque o tratamento é longo, exige comprometimento da pessoa, depende do apoio dos que convivem com o empregado, inclusive condôminos, e pode impactar na rotina do condomínio. "Por vezes, será necessário cobrir sua ausência, por exemplo. Isto demanda pulso para dizer aos demais: "Ele tem nos ajudado e agora está necessitando de ajuda. Até onde conseguirmos, vamos tentar ajudá-lo. Demitiremos se, independente de nosso esforço, ele não mudar", enfatiza Martins.

Ter um limite até onde intervir para ajudar, no entanto, é importante, e ressaltado também pela psicóloga: "A pessoa pode se esconder atrás da bebida e se acomodar, agravando o seu estado. Neste caso, a demissão é uma forma de ela acordar para as conseqüências negativas que traz para a sua vida", diz Mônica Álvaro.
Famílias ganham com nova abordagem
O alcoolismo é um problema que atinge de 10% a 15% da população mundial e não se restringe a uma classe social ou profissional em particular. E esta compreensão do uso abusivo de bebidas alcoólicas como questão de saúde pública pode garantir outra abordagem do tema dentro das famílias e na sociedade em geral. Mais que a maconha, a cocaína ou o crack, o álcool é a droga mais consumida entre os jovens, que vem tendo sua idade de experimentação diminuída ao longo dos anos e, normalmente, é consumido pela primeira vez em casa, junto aos familiares.
Para contribuir para um maior esclarecimento sobre o tema entre empregados e moradores do condomínio, divulgue informações a respeito. Leve o assunto para as conversas com os condôminos e, em caso de problema já existente, seja entre empregados ou moradores, discuta-o em assembléia. Para ajudar, disponibilizamos o texto Bebida alcoólica: socialmente aceita, comprovadamente danosa, com informações sobre o uso abusivo do álcool, danos e tratamentos e pode ser distribuído ou afixado no quadro de aviso. Ele pode ser acessado e copiado do site da revista: www.lowndes.com.br /report.
BEBIDA ALCOÓLICA: SOCIALMENTE ACEITA, COMPROVADAMENTE DANOSA
A bebida alcoólica é uma droga lícita. Aceita socialmente, é a estrela principal em anúncios publicitários, seja de cerveja, seja de cachaça, sempre cercada de belas mulheres, amigos reunidos e pessoas felizes. Cenários que se repetem em novelas e filmes ou em qualquer reunião familiar, desde o nascimento de um bebê até um casamento, um aniversário, um funeral. As cenas mais fortes em que atuam as pessoas alcoolizadas, muitas vezes acabam em piadas: "fulano bebeu todas", "sicrano meteu o pé na jaca". Como estava embriagado, independentemente do que tenha feito sob estas condições, fica por isso mesmo.
Talvez por isso, a iniciação ao álcool se dá cada vez mais cedo e, invariavelmente, em casa. No Brasil, ela ocorre aos 12 anos e meio. Mas os especialistas advertem que, apesar das piadas, não há nada de engraçado no comportamento de um alcoolizado ou alcoólatra. Eles são, comprovadamente, responsáveis por acidentes de trânsito, casos de violência sexual, brigas e assassinatos. E, nestes casos, são, ao mesmo tempo, algozes e vítimas. Vítimas do álcool, que causa danos neurológicos irreversíveis e leva a pessoa à autodestruição social, física e mental.
Quem bebe socialmente sem maiores danos pode defender que, se isso não o levou a se tornar um alcoólatra ou a se envolver em situações violentas ou acidentes, o mesmo pode acontecer com os demais. Mas os cientistas retrucam: a sorte não é hereditária ou epidêmica: uns a têm; outros, não.
Usar drogas lícitas ou ilícitas é como uma roleta russa. Não há como saber o resultado a priori. Isto porque são principalmente fatores genéticos que determinarão se o primeiro gole, o primeiro cigarro, a primeira carreira levarão a pessoa ao vício ou não.
Danos causados pelo uso excessivo e prolongado de bebidas alcoólicas
O cérebro é afetado no córtex pré-frontal, a região responsável pelas funções intelectual superiores como o raciocínio, a capacidade de abstração de conceitos e lógica, nas regiões profundas, envolvidas com a memória, e no cerebelo, que é a parte responsável pela coordenação motora. Quanto mais álcool, maiores os danos para o cérebro, o aparelho digestivo (estômago, pâncreas, fígado), o coração, os músculos, o sangue e as glândulas hormonais. O álcool pode afetar o desejo sexual e levar à impotência por danos causados nos nervos ligados à ereção. Nas mulheres, o álcool pode afetar a produção hormonal feminina e levar à infertilidade.
No que diz respeito à violência, mais de 70% dos acidentes de trânsito têm como causa a ingestão de bebidas alcoólicas e cerca de 70% dos crimes contra a vida são cometidos por pessoas alcoolizadas. Isto porque é comum a pessoa que se encontra em estado de embriaguez se sentir mais valente, mais sensível, o que a leva a se envolver facilmente em situações de risco.
Tratamento
Não existe cura para o alcoolismo, como em qualquer outro caso de dependência química. O que existe é tratamento. Como na grande maioria dos casos o próprio paciente não consegue perceber o quanto está envolvido com a bebida, tendendo a negar o uso ou mesmo a sua dependência, é fundamental a interferência de outra pessoa, amigo, familiar ou mesmo de um empregador. Nestes casos, pode-se começar o tratamento ajudando o paciente a reconhecer seu problema e a necessidade de se tratar e de tentar se abster do álcool.
Existem muitas evidências de que os tratamentos comportamentais cognitivos, que objetivam a melhora do autocontrole e das habilidades sociais, levam à redução do alcoolismo. Entre as formas de tratamento mais indicadas estão os programas baseados nos 12 passos (Alcoólicos Anônimos), fundamentados na aceitação da doença, no enfrentamento e na prevenção da recaída. Estudos também indicam que o apoio da família e das pessoas de relacionamento mais próximo com o dependente contribui com a melhora dos resultados.
As recomendações atuais para o tratamento do alcoolismo envolvem duas etapas:
– Desintoxicação: geralmente realizada por alguns dias sob supervisão médica, o que permite combater os efeitos agudos da retirada do álcool. Dados os altíssimos índices de recaídas, no entanto, o alcoolismo não é uma doença a ser tratada exclusivamente no âmbito da medicina convencional.
– Reabilitação: depois de controlados os sintomas agudos da crise de abstinência, seja por meio de internação ou de tratamento ambulatorial, os pacientes devem ser encaminhados para programas de reabilitação, como os grupos de auto-ajuda (AA), cujo objetivo é ajudá-los a viver sem álcool na circulação sangüínea. É preciso lembrar que as recaídas são comuns nos pacientes alcoolizados.
Onde buscar orientação e ajuda no Rio de Janeiro
CEAD: Rua Fonseca Teles, 12/3º andar, São Cristóvão. A triagem é de segunda a quinta, das 8.00 às 17.00 horas
Alcoólicos Anônimos: o endereço mais próximo encontra-se no site http://www.alcoolicosanonimos.org.br/.
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