PORTEIROS
 

POR UM AMBIENTE DE TRABALHO MAIS SEGURO

No último domingo de março, mais uma passeata contra a violência na cidade foi realizada na Avenida Atlântica. Desta vez, foram os porteiros de edifícios em protesto e solidariedade pelo drama vivido pelo colega Salino Oliveira Rangel, 59, que foi espancado na madrugada do dia 27 de fevereiro após – seguindo o regulamento do Condomínio do Edifício Luiz Thomaz, em Copacabana – impedir a entrada de um homem.

O Condomínio é misto e tem uma galeria no térreo, onde há lojas, um teatro e um banco, que dá passagem para outra rua. Mesmo no horário noturno, quando Salino tinha expediente, o movimento era grande, com a saída do teatro e a entrada e saída de moradores. A utilização da galeria como passagem entre uma rua e outra, após às 22 horas, é expressamente proibida pelo regulamento interno do edifício.

Em conseqüência da agressão, o porteiro foi internado em estado grave no Hospital Miguel Couto, onde passou 8 dias no CTI, em coma com traumatismo grave, trauma facial e muitos hematomas pelo corpo. Ele ainda está internado, precisará fazer fisioterapia e fonoaudiologia e não há estimativa para a sua recuperação.

O agressor, um morador de um prédio vizinho, foi preso em fragrante, prestou depoimento, mas foi liberado em seguida, voltando a ser detido um mês depois. Segundo a polícia, ele insistiu em passar pelo local. Ao ser impedido, forçou a passagem e agrediu o porteiro.

Sindicato quer tema discutido pela sociedade

Além da passeata – que reuniu cerca de 200 pessoas, entre porteiros, familiares de Salino e pessoas que passavam pelo local e iam tomando conhecimento do fato –, o sindicato da categoria está iniciando diálogo com outras entidades do setor, administradoras, síndicos e mesmo o sindicato patronal a fim de buscar soluções para que casos como este não voltem a acontecer.

Segundo o diretor, José Vicente da Silva, ele mesmo porteiro há 28 anos, há outros casos que, apesar de não terem a mesma repercussão, não são menos graves. “É preciso dar conhecimento à sociedade do que vem ocorrendo para que se possa discutir e buscar estratégias de combate. Se um sujeito se acha no direito de agredir assim um funcionário, pode também fazer o mesmo com algum morador”, argumenta.

Síndico e filha falam sobre o porteiro

“Salino trabalhava conosco há 15 anos, sempre no horário noturno, das 22 horas às 6 da manhã, sem faltar um dia e cumprindo muito bem todas as suas funções”, elogia o síndico Liberato Bittencourt Bisneto, para quem a violência contra Salino foi uma injustiça ainda maior, pois foi cometida contra uma pessoa querida de todos que o conheciam. “Nunca houve sequer uma queixa contra ele”, acrescenta o síndico, que desde 2002 administra condomínios e orienta os funcionários para reconhecer o limite de sua atuação, fugir de situações que representem perigo a fim de poder pedir auxílio e não se expor. “No caso do Salino, ele não teve sequer esta chance”.

Muito querido no prédio, era comum moradores descerem com café para oferecer ao porteiro enquanto conversavam. E, enquanto esteve internado no Miguel Couto, chegou a receber 26 visitas de moradores em um único dia. Mas a maior dor é mesmo da família. “Meu pai era um homem ativo, dedicado à família e ao trabalho”, conta a filha Carla.

Casado há 35 anos, com três filhos, um neto de 11 anos e uma neta a caminho, Salino ocupava o dia em atenções à família. À noite, assistia a novela e seguia para o trabalho, ainda com tempo para nunca chegar atrasado. Tinha adoração pelo neto e, fora o tempo que dedicava a brincar com ele, ajudava a esposa, principalmente fazendo supermercado e preparando as refeições. “Era capaz de ligar para meu o trabalho e saber o que eu estava com vontade de comer naquele dia. Quando chegava em casa, encontrava-o com a refeição pronta, esperando por mim. Sua felicidade era nos agradar”, conta Carla. Para a filha, o pior ainda está por vir, pois tendo sido uma pessoa sempre muito reservada e independente, sofrerá ao saber que precisou que lhe dessem banho e lhe trocassem as roupas. “Quando tiver noção do que aconteceu, ficará muito triste”, conclui.

  
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