Imagine um cidadão que, ao passear com o seu cachorro e se esquecer de recolher a sujeira deixada na calçada, ouve uma mensagem não se sabe vinda de onde sobre a importância de manter as ruas limpas. Cena de filme? Não. As câmeras de monitoramento evoluíram e agora surgem associadas a alto-falantes. Além de registrar imagens de infrações e crimes para posterior apuração, também transmitem mensagens faladas, verdadeiros puxões de orelha nos cidadãos no momento exato em que estão em flagrante delito. Na Inglaterra, elas ajudaram a reduzir a criminalidade sem que a polícia disparasse um único tiro, o que serviu para difundir a idéia, já adotada no Brasil por algumas cidades, como Serra, no Espírito Santo.
Os resultados são surpreendentes. O exemplo de Serra é dos mais representativos. Adotadas dentro de um plano que inclui mais de 100 ações para reverter o quadro apresentado pela pesquisa do IPEA, que apontou a cidade como a de maior taxa de homicídios por 100 mil habitantes em 2005, elas contribuíram para que os índices de delitos regredissem em 88,3%. “Sem o monitoramento, temos um ambiente propício para que o crime ocorra no anonimato; as câmeras inibem a ação de criminosos e a fala é mais para que as pessoas não se exponham, tornando-se um alvo potencial de um delito”, afirma Ledir Porto, Secretário Municipal de Defesa Social. Ele explica, ainda, que o foco das mensagens é sócio-educativo “para as pessoas entenderem que, quando os limites e direitos do próximo são respeitados, o ambiente se torna pacífico”.
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Uma boa idéia para condomínios?
Para o Desembargador Sylvio Capanema, profundo conhecedor de direito imobiliário e dos problemas condominiais, a idéia é polêmica, mas muito interessante. “Vivemos uma época em que princípios fundamentais, como o da preservação de privacidade e o da segurança, estão em conflito. O tema é complexo, porém válido para ser colocado em discussão”, avalia, acrescentando que as câmeras com alto-falantes seriam possíveis apenas em áreas comuns e externas, como ruas, jardins e estacionamentos, nunca dentro dos edifícios.
Para o Secretário de Serra, o condomínio existe para que as pessoas sintam-se mais seguras ali e, por isso, a idéia pode vingar dentro de um conjunto de ações pactuadas com os moradores. “Se estes equipamentos estiverem associados a um monitoramento de imagens e a um compromisso estabelecido entre os condôminos, a partir de normas de conhecimento de todos os moradores, a medida é mais que válida e, certamente, trará bons resultados”, afirma.
Ele conta que a prefeitura de Serra convocou a população, os órgãos públicos e toda a sociedade para um debate sobre o problema de segurança. Ouviu propostas e daí surgiu a idéia de adotar o sistema. Mas, mesmo com a aprovação da população, foi feito antes um decreto que diz o que pode e o que não pode ser feito nas ruas da cidade, em dias e horários determinados, todo um conjunto amplo de normas para servir de norte a uma conduta-cidadã. Ao mesmo tempo, estabeleceram-se parcerias e a integração dos serviços de segurança. “Obviamente, foi gerada toda uma estratégia para fazer frente aos índices de violência”, explica.
A central é operada por policiais da reserva que, com conhecimento e experiência, além de linguagem mais facilmente entendida pelos policias da ativa, têm olho clínico para identificar situações de delito ou de risco à segurança. São eles que acionam, quando necessário, a polícia que está nas ruas, seja os da bike patrulha, os da cavalaria montada, os das viaturas ou os que estão a pé. Eles também fazem a comunicação para o Copom – o órgão que centraliza as chamadas para quaisquer delitos cometidos no estado – e transmitem as mensagens de alerta.
Entre as situações que geram mensagens estão desde deixar crianças sozinhas na praia e passear com animais de grande porte sem focinheira, até atravessar a rua fora da faixa de pedestres ou jogar lixo em local impróprio, ou, ainda, manter-se próximo de carros estacionados nas ruas em posição suspeita.
As câmeras têm alcance que chega a dois quilômetros e imagem panorâmica com qualidade de DVD e são associadas a alto-falantes com som que pode ser regulado para chegar a até 300 metros de distância.
São mensagens até gentis, se comparadas às transmitidas pela cidade de Middlesbrough, 400 quilômetros ao norte de Londres, com 150 mil moradores. Eles são monitorados por 250 câmeras do tipo e podem ser surpreendidos com frases imperativas como “Desça da bicicleta e saia daí” – dita por um policial para um ciclista que pedalava em local proibido – ou ainda “Volte lá e bote no lixo” – dita a um rapaz que jogou um toco de cigarro no chão. As mensagens ouvidas durante os festejos de São Benedito, em Serra, no mês de dezembro, foram, por exemplo: “Hei, o senhor de camisa amarela, por favor jogue a latinha no lixo” ou “Senhores pais, não deixem as crianças sozinhas”.
Na Inglaterra, país que só não é mais vigiado do que os EUA, quem é contra as câmeras com alto-falantes diz se sentir em um imenso Big Brother. Quem é a favor diz que civilidade se aprende e, por isso, deve ser ensinada. Mas o principal motivo para a disseminação dos equipamentos é mesmo a redução do índice de criminalidade, que em Middlesbrough chegou a 70%.
Para Carlos Soares, um capixaba morador do Rio de Janeiro há décadas, a moda não pega em condomínios. “Que síndico vai se atrever a mexer com uma madame?”, pergunta irônico. O síndico Roberto Colombo, da Barra da Tijuca, no entanto, diz que a iniciativa precisa apenas ser mais difundida. “Depois que as pessoas se acostumarem, não será problema. Resistência só existe ao que é novo. Se for para aumentar a segurança, logo todos estarão usando”, afirma, acrescentando que ainda vai pensar mais sobre o assunto antes de levar o tema para discussão entre os moradores.
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