DEU CERTO
CONDOMÍNIO DO EDIFÍCIO ESPLANADA

  

Vitoriosa

Nathalia Dias é advogada e, há mais de três décadas, tem escritório no histórico Condomínio do Edifício Esplanada – o primeiro a ser instituído como um condomínio de escritórios comerciais na cidade do Rio de Janeiro, nos anos de 1940. Talvez por isso, ao ser alertada por vizinhos de sala sobre a falta de controle de gastos diante da precariedade crescente do prédio, decidiu assumir o desafio de ser síndica para arrumar a casa. “A gente deixa a cargo de outra pessoa o que é nosso. Quando abrimos os olhos, muita coisa errada já foi feita”, afirma.

A nova síndica descobriu, por exemplo, que pagaram décadas de seguro de garagem, quando, na verdade, o que o edifício tem é uma área de passagem comum aos prédios que dão fundos para o Esplanada, utilizada como estacionamento. Ao procurar pelos contratos, viu que nem todos estavam arquivados, muitos sequer existiam. Soube também de um processo contra o condomínio por falta de manutenção das calçadas, que o advogado não informava o andamento há tempos, e descobriu que os funcionários contabilizavam horas extras em excesso.

O pulo do gato

Destituído o síndico anterior, como realizar as obras necessárias sem recorrer a cotas extras, para as quais os condôminos já estavam esgotados? Negociar com inadimplentes para fazer um caixa que lhe permitisse trabalhar foi a escolha mais acertada da nova síndica. Com a lista na mão, negociou diretamente com todos os devedores, apresentando a situação geral do prédio e seus planos. Mais do que caixa para iniciar as obras e efetuar pagamentos, a síndica conseguiu apoio.

O momento mais delicado foi encarar o problema das horas extras. Sabendo que a indicação nestes casos é para demitir todos e formar nova equipe, mas pesando o fato de que aquelas pessoas têm famílias para sustentar, novamente optou pelo diálogo franco. “Temia a reação deles, já que, sem as horas extras, o salário de alguns funcionários ficava reduzido a 50% do valor que vinham recebendo. Mas, com toda a franqueza, esclareci a situação e disse que não tinha coragem de demiti-los, que preferia dar-lhes uma oportunidade”, conta.

A opção custou muito trabalho e dinheiro para o pagamento das indenizações das horas extras indevidas. Ao não demitir, conquistou a confiança dos empregados, que, diferente do que temia, passaram a ter uma outra postura no trabalho, de mais comprometimento e dedicação. A síndica investiu em cursos, em melhorias para o local de trabalho e de descanso deles, em novos calçados e uniformes e no estímulo à formação para futuras oportunidades. Ela quer colocar uma professora para dar aulas particulares no condomínio para que retornem à escola e concluam seus estudos. “Horas extras, agora, só com autorização por escrito do síndico e sempre para atender a uma situação excepcional, como a finalização, em um domingo, de uma obra”, afirma.

Organização e método

“Tudo meu é no papel, planejado, com custos e riscos calculados, com apresentação de demanda e resultado”, explica. Ao assumir a gestão, distribuiu um primeiro relatório informando o estado em que encontrou o prédio, seus problemas e necessidades. Seis meses depois, distribuiu outro relatório com o que foi feito no período. “Registrar tudo é uma garantia não somente para os condôminos, que ficam cientes do que está sendo realizado, mas, também, para o síndico, que documenta e dá transparência à sua atuação”, garante.

Nathalia separou um espaço ao lado do escritório da administração, criando uma sala nova para abrigar um arquivo, com caixas etiquetadas e com seu conteúdo organizado em envelopes, igualmente identificados.

Sua primeira iniciativa foi enviar uma carta pedindo sugestões e críticas a cada um dos condôminos. Também fez com que toda a correspondência passasse a ser entregue com um carimbo de recebimento que o destinatário deve assinar. “Penso que a apresentação de relatório pelo síndico ao final de cada gestão deveria ser obrigatória, com a discriminação detalhada de todas as compras feitas para o prédio, obras realizadas e seus respectivos valores”.

Orgulho e cansaço

Em uma ação contra a Cedae, que cobrava a conta do condomínio não com base na leitura feita pelo hidrômetro, mas levando em conta o número de salas existentes no prédio, foi obtida liminar que fez despencar os gastos de 8 para 3 mil reais mensais por conta de água. E ainda há 100 mil reais previstos a título de indenização para depois da confirmação da liminar. Isso representa mais caixa para as obras de manutenção e conservação do Esplanada. “Nosso prédio é um idoso e, como tal, nos surpreende. Temos que ter reserva, um caixa para obras emergenciais”, diz a síndica, que trabalha sempre com previsão e planejamento.

Com todas as mudanças que empreendeu, foi possível fazer os investimentos e as obras necessárias sem apelar para cotas extras. “Da tábua e do ferro de passar roupa para os funcionários poderem estar sempre arrumados, à instalação de relógio de ponto – cuja inexistência anterior deu brechas à cobrança de horas extras indevidas – e às obras, como a impermeabilização do terraço e da caixa d’água, a troca de fiação elétrica, a instalação de drenos para os aparelhos de ar-condicionado, a troca de pisos, a modificação de barrilete, a reforma dos elevadores e várias outras. “Ainda conseguimos diminuir em 20% o valor da taxa de condomínio, aumentar o salário dos empregados em 26% e suspender, durante três meses, a cobrança do fundo de reserva. E, no fim do ano, os condôminos também foram dispensados da cota extra de pagamento do 13º salário dos funcionários”, comemora.

A única obra que ficou faltando foi a restauração e pintura das fachadas externas, que começará na nova gestão, porém já está contratada e será paga com dinheiro ainda existente no caixa, ou seja, sem cota extra. A nova síndica, selecionada no mercado, pois nenhum outro condômino quis assumir a função, já está se inteirando da rotina do Esplanada, acompanhado o trabalho de Nathalia que, depois de um ano e meio de dedicação intensa, entregará o condomínio com recursos em caixa e sem necessidade de realização de novas obras.

“Deixo o cargo de síndica me sentindo tranqüila e orgulhosa por ter realizado um bom trabalho, mas também um pouco decepcionada. Apesar dos pedidos que não o façam, alguns condôminos descartam o lixo fora do horário estabelecido, não providenciam a aquisição de bandejas ou mangueiras para que o pinga-pinga dos seus aparelhos de ar não incomode os vizinhos, não respeitam o horário de saída dos carros da garagem, etc. Estas coisas me aborrecem sobremaneira”, conta ao falar do cansaço que a experiência lhe causou. “Infelizmente, para alguns condôminos, o limite para o atendimento de uma regra ou norma não é a sua razoabilidade, mas a sua adequação ao seu próprio interesse. Para estes, a norma só será cumprida se lhes bem convier”, queixa-se.
     

DICAS DA SÍNDICA NATHALIA:

Ter sempre caneta e papel na mão para anotar a necessidade de uma providência, além de idéias e sugestões de empregados e condôminos.

Nunca dar uma orientação importante verbalmente; registrar tudo por escrito.

Nunca delegar o acompanhamento de obras no condomínio: a empresa precisa saber que sua atuação está sendo vigiada.

Fotografar sempre o antes, o durante e o depois de qualquer obra.

Fazer compras mensais para o prédio, evitando a formação de um estoque grande de materiais.

Apresentar ao final de toda gestão um relatório detalhado de todas as obras realizadas, bem como todos os bens móveis adquiridos, com seus custos.

Ser firme quanto à cobrança da obediência, pelos condôminos, das regras estabelecidas para o bem estar de todos.

Acreditar no trabalho dos funcionários e passar para eles que o seu bom desempenho é muito importante para o condomínio.

  
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