MULHER, MÃE, ZELADORA

Baixinha, sorridente e cheia de energia. Quem a vê com suas feições que não negam a origem cearense nem imagina do que ela é capaz. Eliene Pereira Sena, que trabalha como zeladora há 8 anos no condomínio Albert Sabin, no Maracanã, é o que nos meios corporativos costumam chamar profissional multitarefa. Pela manhã, fica na portaria; à tarde, cuida do prédio e ainda encontra tempo para cuidar do filho, Douglas, de quatro anos, e para aprender e fazer serviços de eletricista, bombeiro hidráulico, cabeleireira, pintora, jardineira. Basta ela ver uma vez para já se arriscar e logo dominar a atividade. Os moradores já sabem e, se um ventilador ou ferro de passar apresenta defeito, logo pedem a Eliene para dar uma olhadinha, o que resulta, invariavelmente, em ter de volta o aparelho funcionando.
Como aprende? Ela responde: observando. Nascida em Ipú, a quatro horas de Fortaleza, estudou apenas até a 4ª série, “mas não há o que não aprenda, sempre com a maior facilidade”, conta a síndica Sueli Candal, que atribui o fato à energia positiva e à disposição de Eliene, que sempre está pronta para tudo. “Ela tem uma vitalidade incrível, está sempre alegre e contagia as pessoas com o seu jeito”.
O ambiente no condomínio mais parece o de uma grande família. O pequeno Douglas ganhou madrinha e uma avó postiça no prédio. É a “vó” quem toma conta do filho de Eliene enquanto ela está trabalhando. Ao percorrer os andares, ela tem que parar algumas vezes, convidada para tomar um café com um ou outro morador. Se está de folga, são eles que descem para um cafezinho e um bate-papo. “Uns dois ou três não gostam de ver a amizade de moradores com uma zeladora, mas eles são minoria”, diz entre risos.
“Os mais idosos são os que mais gostam dela”, reforça a síndica. “Às vezes, alguns descem para conversar à noite, mas vou logo avisando que preciso dormir cedo. Isto aqui é uma família para mim”, emociona-se Eliane.
Tudo começou quando o irmão era o porteiro-chefe do prédio e ela veio morar com ele para ajudar a cuidar das sobrinhas. Eliene começou a fazer faxina em alguns apartamentos e a síndica, vendo seu desempenho, a convidou para ser zeladora. Com o tempo, o irmão saiu e ela passou a morar no condomínio, casou, teve filho e separou. Sobre o emprego de zeladora, ela diz: “Acho ótimo, nunca tinha trabalhado com carteira assinada. O trabalho é bom, só não gosto muito da portaria. É parado demais”.
Para a síndica, ela é um "faz tudo" completo. “Foi Eliene que trocou todas as luminárias do prédio. Ela é assim. E mesmo com um filho pequeno nunca faltou ao trabalho”, ressalta Sueli, que teme o sonho da zeladora de comprar uma casa e voltar definitivamente para o Ceará. “Já vim para o Rio com a intenção de trabalhar, ganhar dinheiro e voltar.” Todo ano, durante as férias, ela volta para a sua cidade. “É chato porque por uns dois meses, pelo menos, só se ouve falar de Ceará”, brinca a síndica, lembrando que a última foi em agosto e até hoje as amigas cearenses de Eliene ainda mandam mensagem de celular. “Ela é, para mim, muito mais que um braço direito, se realmente for embora, nunca mais serei síndica”.
Eliene ri e logo sai com uma história das boas. “Logo quando entrei aqui vi esta revista na portaria e disse para o síndico: um dia serei eu nesta foto. E olha eu aqui!”.
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