CONDOMÍNIOS ECOLÓGICOS

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Entrevista - Delmo Antônio Bonturi
  

Itens que preservam o meio ambiente valorizam o imóvel e garantem economia. Se não é por uma questão de consciência ambiental, são estas as razões que estão fazendo do tema desenvolvimento sustentável alvo de interesse de construtoras e administrações de condomínio. É crescente o número de edifícios que passam a ter coleta seletiva de lixo, sensores de presença para acendimento automático da luz, entre outras soluções que evitam o desperdício de recursos não renováveis.

Novos empreendimentos já saem da planta com o reuso de água de chuva, com aquecedor solar e medidores de consumo individuais de água e gás. São os condomínios ecológicos, muitos deles interessados na certificação “Green Building” (prédio verde), selo que se tornou tendência mundial e nos Estados Unidos alcançam valorização do imóvel em torno de 20% na hora da venda. Para ganhar o selo de prédio verde, os parâmetros de sustentabilidade, como eficiência no uso de águas, no consumo de energia, materiais e recursos aplicados, são medidos e pontuados.

Todo este movimento força o surgimento de novas soluções, já projetadas com base nestes princípios. Um exemplo é a implantação de sistemas de tratamento de água e esgoto próprios, que é uma alternativa cada vez mais viável para condomínios de médio e grande porte, mesmo para alguns já construídos. As novas tecnologias em saneamento ambiental permitem a construção de estações de saneamento menores e mais baratas.

Para um condomínio de dois mil habitantes, por exemplo, um sistema de saneamento próprio tem um custo estimado de R$ 300 mil, o que significa um investimento de aproximadamente R$ 150 por condômino para a geração de uma economia por tempo indeterminado. O argumento das empresas na hora da venda da solução é bastante plausível: os gastos com água são hoje o segundo maior custo nos condomínios, pois além de pagar pelo uso da água, se paga também pela coleta do esgoto produzido. Com as estações, este gasto pode ser reduzido em até 30%. Então, o investimento é válido. Mas o tema não é brincadeira, tanto que bancos estão oferecendo leasing, em parceria com empresas desenvolvedoras deste tipo de solução, com condições financeiras facilitadas e juros mais baixo.

Uma nova contabilidade

Para o jornalista André Trigueiro, Editor-chefe do programa Cidades e Soluções da Globo News do site Mundo Sustentável, é preciso refazer as contas. Ele parte do receituário básico do que, normalmente, se considera um bom negocio - aquele que implica no menor investimento, com o melhor retorno, no menor intervalo de tempo – para chamar a atenção para um outro jeito de fazer contabilidade. “Quando você instala equipamentos como reservatórios de água de chuva ou coletor solar, por exemplo, tem um custo inicial maior. Entretanto, terá numa perspectiva entre dois e três anos, o retorno do investimento e, daí em diante, lucro. Então é preciso se perguntar se é preferível gastar menos agora e o resto da vida ter um custo crescente de água e energia, ou ter um custo maior agora, 20% a 30% maior, ter o retorno do investimento em dois, três anos, e daí para frente um decréscimo substancial nas contas. É outra cultura, uma outra forma de enxergar investimento”, defende.

Sergio Monteiro dos Santos, administrador do Teleporto, é adepto desta nova contabilidade. O condomínio do qual é síndico é considerado um dos primeiros edifícios inteligentes do Rio e já foi construído com sistema de refrigeração por termo-acumulação, o que economiza 30% de energia elétrica. Seguindo a predestinação do prédio, Sergio Monteiro, que o administra desde início, há 12 anos, está sempre buscando novas soluções inteligentes e sustentáveis. Já em 1999 investiu em uma compactadora e no treinamento do pessoal de limpeza, implantando o serviço de coleta seletiva. Investiu cerca de três mil reais, na ocasião, e comemora, atualmente, o custo zero para o item lixo. “Com mais de sete mil pessoas trabalhando e outras duas mil circulando no prédio, coloco na rua seis containeres de lixo, quando poderia estar pagando para retirar mais de 20. A despesa é integralmente coberta pela venda dos materiais recicláveis”, destaca o administrador.

Ele estudou a possibilidade de implantar a coleta de água de chuva para fins de uso interno, mas esbarrou na falta de espaço para armazenar a água. “No telhado, com os tanques de termo-acumulação, não podemos como colocar sobrecarga de peso. No subsolo estão as garagens. Seria necessário perder algumas vagas e ainda teríamos que bombear a água lá para cima. Fizemos algumas contas e a solução, em termos de relação custoxbeneficio, não se mostrou viável para nós”, conta. O mesmo processo foi feito para avaliar a adoção do reuso da água dos banheiros. “Teria que fazer toda uma rede nova de caixas de descargas, rasgar o prédio de cima abaixa, temos quatro banheiros por andar. É uma obra meio complicada de fazer com o prédio funcionando a plena carga como está. É muito válido, mas não se mostrou factível para a gente. Mesmo a empresa que estava nos prestando consultoria sentiu que as dificuldades seriam muito grandes”, recorda o síndico que faz questão de ressaltar que, pelo menos, tem a consciência de que tentou.

Mas para quem está sempre buscando, não faltam opções e, no momento, o condomínio está implantando um projeto que irá garantir mais economia de energia, a partir das instalações dos aparelhos de ar condicionado. Um bom negócio. A parceria com a empresa desenvolvedora da solução permite que o investimento seja feito apenas a partir do que o condomínio terá de redução na conta. “A remuneração do trabalho dela virá somente do que economizarmos. Um resultado que será bom para ela, para o condomínio, para a cidade, para o estado, para todo o mundo”, afirma.

A nova contabilidade é assim: investimento bom é aquele que tem retorno assegurado para todos.

Soluções para todos os tipos de condomínio

Márcio André Silva, sub-síndico há oito anos do Edifício Califórnia, no Condomínio Beverly Hills, na Barra da Tijuca, é o responsável pelas ações sócio-ambientais para as quais não há grandes investimentos e têm como base apenas uma postura racional no consumo. A primeira iniciativa foi o controle de energia e água, a partir de medidas simples, como diminuir o número de lâmpadas ou substituí-las por outras com menor impacto sobre o gasto de luz, intercalar o uso de elevadores e das saunas, repintar paredes com tintas mais claras e colocar um profissional de manutenção, munido com kits de descarga para evitar desperdício de água, fazendo ronda pelas unidades. “Com a vida atribulada, os moradores não têm tempo sequer para averiguar se há vazamentos”, explica. O sub-síndico controla o consumo todos os dias pela manhã e a qualquer alteração dá inicio a uma investigação rigorosa a fim de corrigir os problemas logo no início evitando maiores desperdícios.

“É preciso persistir. No início os moradores reclamavam: por que só um elevador funcionando?, a garagem está mais escura. Colocamos uma placa com o pedido para acenderem os faróis na garagem, insistimos com a alternância dos elevadores nos horários de menor movimento e conversamos muito”, conta André que diz que a questão exige educação para uma consciência ambiental.

O jardim do condomínio foi transformado em uma horta que é cuidada pelo jardineiro e tem sua produção distribuída entre os moradores. Frequentemente, ações dirigidas aos pequenos moradores são desenvolvidas no local. Para o sub-síndico, tudo tem que estar em direta relação com os padrões ecológicos. A próxima iniciativa com esta finalidade será a implementação da coleta de óleo de cozinha.

“O administrador de condomínio será sempre aquele agente estratégico para mudança”, diz o jornalista André Trigueiro. Ele sugere aproveitar as reuniões com os moradores para alertá-los sobre os custos do desperdício e os benefícios de um consumo mais racional, além de sondar a disposição para adotar soluções sustentáveis de maior vulto, como a criação de reservatórios para a coleta de água de chuva, ou a instalação de hidrômetros individuais. “É preciso fazer conta, projetos, orçar, saber quem pode realizar as soluções, distribuir material informativo, convidar uma pessoa de fora e promover reuniões, estimular, esgotar as possibilidades”, acrescenta.

Um tema proposto é a coleta de água de chuva: “Hoje, ainda, cometemos a imprudência, o desperdício monumental de usar uma água nobre, que é a potável, que não vem assim da natureza, que exige um enorme investimento e demanda muita energia para chegar a nossas torneiras, para o vaso sanitário. Em um futuro próximo, nossos filhos nos cobrarão por isso: Como vocês tiveram a coragem de usar água potável para lavar calçada, jogar fora no vaso sanitário?”, enfatiza.

Políticas públicas

No âmbito das iniciativas públicas, o Secretário de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, Carlos Minc, destaca três diferentes decretos estaduais, iniciativas que poderão ser introduzidas nos demais prédios. São eles, o que instituiu a coleta seletiva solidária nas secretarias e demais órgãos públicos com doação dos recicláveis para cooperativas de catadores, a obrigatoriedade da instalação de energia solar para aquecimento de água nos novos prédios públicos e o uso de madeira certificada nas obras públicas. “Brevemente estabeleceremos o aproveitamento da água de chuva nos prédios”, adianta Minc.

Para que estas medidas sejam adotadas em todos os prédios, segundo o Secretário, é necessário avançar na conscientização da população, no fortalecimento de uma nova cultura ambiental e na aprovação de leis que estabeleçam parâmetros e obrigações para construções ecológicas em todo o Rio de Janeiro.

Ele dá algumas dicas cabíveis para todos os condomínios: “A primeira e de mais fácil implantação é a coleta seletiva. Indicamos sempre a coleta simplificada, para não gerar resistências, separando-se basicamente o lixo úmido, orgânico, dos demais. A divisão do lixo restante, como embalagens plásticas e de papel, deve ser feita pelas cooperativas de catadores, e não pelos moradores”, explica. Outra ação importante é a inscrição dos condomínios no Prove (Programa de Reaproveitamento de Óleos Vegetais), que é um dos principais projetos da Superintendência de Clima e Mercado de Carbono, criado na Secretaria do Ambiente, para coletar óleo de cozinha usado e reaproveitá-lo na produção de biodiesel e de sabão pastoso. “Estes são conceitos que, introduzidos nos prédios, estimulariam toda a cidade a se engajar majoritariamente em ações de preservação e de desenvolvimento sustentável”, conclui Minc.

Pratique essa idéia!

Ter uma vida ecologicamente mais correta depende tanto de políticas públicas quanto de atitude individual. É possível verificar resultados notáveis na simples adoção da prática dos 3 R's.

Redução do uso de matéria-prima, energia e geração de lixo.

Reutilização dos materiais do nosso cotidiano.

Reciclagem dos materiais que podem ser aproveitados.

Para saber mais:

Mundo Sustentável - http://www.mundosustentavel.com.br

WWF Brasil - http://www.wwf.org.br/natureza_brasileira

Instituto para o Desenvolvimento da Habitação Ecológica - http://www.idhea.com.br/pdf/sociedade.pdf

Planeta Melhor - http://www.planetamelhor.com.br

  
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