Entre as tumultuadas ruas Voluntários da Pátria e São Clemente, em Botafogo, há a tranqüila Martins Ferreira e nela o endereço para o qual há sempre fila de candidatos a morador – o que não resulta apenas da tranqüilidade do lugar. Entrar no condomínio do Edifico Solar Martins Ferreira é como entrar em uma casa com quintal: caminho florido, árvores frutíferas, pássaros cantando e cantinhos aconchegantes. Quem passa na calçada, pensa que é uma vila.
Fui recebida neste local com um presente: uma muda de mirra (um dos três presentes dos reis magos à Maria pelo nascimento de Jesus) e um café recém-passado, acompanhado por biscoitos. A mesa estava posta em uma área onde funciona uma biblioteca, um cantinho cercado por uma cerca viva repleta de flores, sob a rampa que leva ao segundo piso da garagem do prédio. Além da mesa com cadeiras, há duas poltronas confortáveis no local e, mais adiante, bancos de jardim. Ao redor, canteiros e vasos onde, bem contados, há mais de 50 espécies de plantas somente entre as comestíveis. São ervas e temperos – incluindo a Zatar, uma especiaria rara de origem libanesa –, frutas como amora, uva, figo, jabuticaba e acerola e até raízes como o aipim. Além disso, há ainda muitas outras que dividem espaços com bromélias, orquídeas e outras plantas de flor. Várias delas foram resgatadas do lixo dos moradores, assim como a maioria dos livros e móveis da biblioteca. Há delicadeza e simplicidade em tudo e percebe-se o bom aproveitamento do que se tem à mão.
Chove na cidade, depois de um dos períodos de estiagem mais longos dos últimos anos, e o cheiro de terra molhada se espalha. Mas o que torna o momento ainda mais aprazível traz à tona a preocupação com os efeitos colaterais da chuva. “A água não piora a tinta estufando ali?”, aponta com o dedo para a rampa a moradora Fátima Eulália.
O síndico Deu Certo da edição, Antônio Hamid Hamdar, chamou todos os moradores quepassavam para juntarem-se a nóse tomar um café. Alguns já haviam aceitado e a entrevista ganhou ares de conversa informal, com temas relacionados ao gosto do síndico pelas plantas e à importância da criação de espaços e oportunidades de convivência entre as pessoas – “Algo cada dia mais necessário, principalmente em condomínios”, comenta a moradora Carmen Greco. Ouvi muitos elogios à atuação de Hamdar neste quesito, como em todo o resto. “Tudo o que é feito com amor dá frutos e ele é a pessoa que cuida de tudo por aqui com grande carinho e competência”, destaca o Alfredo Greco, marido da Dona Carmen. Mas o cotidiano do prédio entrou em pauta e voltamos à nossa entrevista.
Nem tudo são flores no condomínio
O condomínio foi entregue precariamente, o que resultou em causa ganha na Justiça contra a construtora – que sumiu no mapa e ainda não foi encontrada para cumprir a sentença indenizatória – e, também, em uma agenda permanente e obrigatória de manutenção. São correções como a troca de pisos que, de repente, se descola do chão ou mesmo obras de maior vulto, como a impermeabilização do térreo e do play, para as falhas da construtora, que vêm sendo feita ao longo dos 16 anos do prédio. Muito já foi feito, mas ainda falta refazer o piso de quatro dos 11 andares. Todo semestre, Hamdar pede à Defesa Civil para fazer uma avaliação estrutural. A resposta é sempre a mesma: nos pontos de sustentação do prédio, o trabalho foi bem feito e não há riscos. Mas, por desencargo de consciência, o síndico renova de tempos em tempos a avaliação.
Pergunto sobre o custo disto para os moradores e Alfredo adianta-se em responder: “Não. É tudo dentro da cota, que é baratíssima para um condomínio com estas necessidades e sete funcionários”. Ele faz questão de dizer o valor: 120 reais. Resta ao síndico acrescentar como consegue evitar cotas extras: “Depois de uma obra, damos um tempo de quatro a seis meses para fazer novo caixa”, explica.
Hamdar participa ativamente da administração e já no segundo ano do prédio tornou-se síndico pela primeira vez, vindo desde então alternando a função com outros moradores. Sua habilidade para fazer muito com poucos recursos o tornou conhecido, permitindo que atue como consultor condominial para outros síndicos, sempre por indicação de quem sabe do que é capaz. “Já vi administradores se debatendo com orçamento de 30 mil para pintar as paredes de um play. Fiz pesquisa de preços, busquei saber o custo dos materiais e devolvi para ele um outro no valor de 4 mil, isto como teto, pois ainda havia espaço para negociar o preço da mão-de-obra”, lembra.
No dia-a-dia do Martins Ferreira, o síndico prioriza a manutenção preventiva, o controle de despesas e de consumo e o bom relacionamento com os funcionários, sem nunca tirar os olhos do balancete. Para ele, os custos devem estar adequados ao valor real dos materiais e ao real poder de comprometimento de renda dos moradores. “É preciso pensar que todos têm as suas compras de alimentos do mês para fazer, o que já não é pouco”, justifica.
Só vale a pena se for para tornar o mundo melhor
Mas não é isto que o move quando o tema é condomínio. “Sem o lado romântico de poder intervir para melhorar o ambiente, de modo a contribuir para o bem-estar das pessoas, não faria nada disto”, afirma. Hamdar diz necessitar investir no lado humano. Com uma enorme rede de amigos, pôde fazer da área de lazer dos moradores – o aprazível térreo com jardim, pomar e biblioteca – um espaço cultural. Foi o amigo, Pedro Lessa, professor da UFRJ, quem sugeriu aproveitar o local para eventos e indicou um especialista em Guimarães Rosa para começar. O tema da palestra foi Nas Trilhas de Rosa – uma leitura de Grande Sertão: Veredas. O sucesso de público fomentou a realização de outros eventos, como lançamentos de livros, exposições de pintura e instalação, encontro com juristas e até ensaio de peças de teatro. Os encontros sociais e culturais são sempre acompanhados de comidinhas e bebidinhas, ofertadas gratuitamente por outro amigo, Said, dono da Casa Pedro, uma loja de especiarias encontrada no Saara, na Tijuca e em Copacabana.
São estes amigos também que, sabendo do interesse de Hamdar pelos direitos humanos, trazem de viagens pelo mundo cartazes de divulgação que são colocados em molduras e pendurados ao longo das áreas comuns que levam da entrada do prédio ao play. O síndico faz o mesmo com matérias de jornais e revistas que tratam do tema saúde e preservação ambiental. “É uma forma de sensibilizar para questões que são importantes”. Assim, o caminho é transformado em um corredor cultural, como ele chama. O síndico usa ainda placas que servem de identificação das áreas e, ao mesmo tempo, de homenagem a moradores. No pomar há a placa de agradecimento à vovó Alfaya, hoje falecida, mas pessoa que muito o ajudou com as plantas no passado. Junto aos vasos com os pés de frutas, há outra: Resistência Ecológica, em homenagem ao ex-síndico Eduardo Joaquim Tavares da Costa.
“O condomínio é uma célula da sociedade. Se cada um fizer a sua parte, todos os condomínios resultarão em um bairro melhor e, numa escala maior, em uma cidade melhor, um estado melhor, um país melhor para se viver”, convida.
Para o síndico, ser capaz de fazer muito com pouco não diz respeito apenas a recursos financeiros. E a biblioteca sob a rampa é só um exemplo. Ela não existiria sem que, muito antes, Hamdar não tivesse aproveitado a área do térreo para criar espaços de lazer para os moradores. Primeiro foi uma quadra de esportes onde as crianças pudessem brincar. Depois, veio a churrasqueira. Para facilitar a vida do porteiro, que era obrigado a correr cerca de oito metros da portaria do prédio até o portão, foi aproveitado parte do terreno para a construção de uma guarita junto ao portão e de um caminho demarcado com uma grade até a portaria social. A transformação da quadra em um espaço com jardim, pomar e biblioteca veio com a mudança do perfil dos moradores, hoje de maioria idosa. Como em tudo o que faz, houve muito pouco investimento nestas ações que não a vontade de contribuir para tornar melhor o ambiente para se viver.
| DICAS DO SÍNDICO ANTÔNIO HAMID HAMDAR:
Enxugar despesas excessivas, pois muitos dos gastos cotidianos são supérfluos.
Fazer manutenções preventivas, inclusive com a compra e a colocação de peças que evitam o desperdício de água em torneiras e descargas.
Ter bom relacionamento com os funcionários, promovendo envolvimento, participação e comprometimento nas ações em prol do condomínio.
Contratar somente empresas sérias e idôneas.
Buscar orçamentos mais próximos da realidade: “Nunca se deve ficar satisfeito com um preço sem antes saber o quanto custa, de fato, cada item que o compõe”.
Ter tolerância com os moradores e estimular que sejam tolerantes uns com os outros.
Fazer com que o condomínio se transforme em uma comunidade, implantando ações para quebrar a frieza e o distanciamento entre os moradores. “Antigamente, as pessoas levavam suas cadeiras para a calçada e eram mais felizes. Hoje cada um fica em sua casa e, mesmo dentro de casa, cada um se isola em um cômodo. É preciso voltar a congregar, dar oportunidades de convivência. Esta é a função social dos condomínios”. |
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