UMA
GUERREIRA NA PORTARIA

Maria Raimunda Castelo Durans veio
de Pinheiro, no interior do Maranhão, em busca
de uma oportunidade. Separada e com duas filhas, trabalhou
em trailer de beira de praia, foi manicure e massagista
em salão de beleza, auxiliar de serviços
gerais e hoje atua como auxiliar de portaria. Nesta
trajetória, soube aproveitar a sensibilidade
de lidar com pessoas para definir um caminho de uma
vida melhor. O trabalho na portaria lhe garante a estabilidade
e o tempo necessários. Para o gerente geral do
condomínio, Paulo Henrique W. Faccion, ela é
uma excelente funcionária e preenche os requisitos
elevados do Flamengo Park Towers, um edifício
comercial de alto padrão: relaciona-se bem com
todos os tipos de pessoas e está sempre pronta
a vencer desafios. Depois de passar tempos de sufoco,
ela hoje faz curso técnico, estuda para o vestibular,
continua com os serviços de manicure e massagista
para garantir uma renda extra e diz que falta apenas
a casa própria, que já está bem
perto.
Raimunda trabalha na portaria do condomínio Flamengo
Park Towers há dois anos, depois de ter passado
quatro como faxineira. “A gerência considerou
que eu tinha capacidade para a função
e me convidou”, recorda, acrescentando que foi
indicada para trabalhar no prédio por uma cliente,
Mariana Santos, a quem será sempre grata pela
oportunidade. “Trabalhava muito como manicure
por conta própria, depois de deixar o salão
por não gostar do ambiente e pela falta de estabilidade.
Não que eu tenha parado, pelo contrário,
eu quero mais para minha vida e o emprego aqui veio
na hora certa”, afirma. Para ela, o ambiente de
salão é repleto de fofocas e futilidades:
“Veja a diferença do tanto que aprendi
em dois anos trabalhando em portaria para os cinco que
fiquei em salão de beleza. Aqui é ótimo:
você lida com tanta gente diferente, pessoas engraçadas,
inteligentes, algumas mais, outras menos sofisticadas
e, com isso, passa a ter acesso a um mundo mais amplo.
Hoje sei mais, leio mais, busco mais”, ressalta.
Oportunidade de ser mais e melhor
O trabalho em portaria é bom em si, segundo sua
avaliação, justamente porque impõe
muito contato humano: “Você observa, escuta,
pergunta, troca informações”. Mesmo
as responsabilidades da função são
consideradas positivas. Garante que ao exigir atenção
à postura, ao modo de falar, às questões
da segurança, ao atendimento das normas internas,
bom relacionamento com a chefia e com os colegas, a
função obriga a pessoa a se tornar mais
articulada, esperta e ativa. A habilidade de perceber
o que é importante para conseguir progredir faz
com que aproveite cada experiência como oportunidade,
onde muitos poderiam ver apenas uma trabalheira cansativa.
“O atendimento a um grande número de pessoas,
com a dinâmica e a relevância dos edifícios
comerciais, tem sido uma escola”, diz.
Mas os elogios à atividade terminam quando o
assunto é edifício residencial: “Aqui
todos são profissionais e você é
respeitado como tal. Por outro lado, nos edifícios
residenciais, alguns moradores pensam que, por terem
um imóvel e pagarem condomínio, são
proprietários também dos empregados. Nunca
trabalhei neste tipo de prédio, mas sei das situações
enfrentadas por colegas. É degradante e não
quero isso para mim”, enfatiza. Ao ouvir as queixas
dos amigos recomenda que estudem: “Há muita
gente despreparada, o que dificulta tudo. E não
digo para a pessoa fazer apenas cursos de portaria,
mas de diversas áreas. O estudo é a base
para ver as coisas de um modo diferente, distinguir
o que é certo e o que é errado, lutar
por seus direitos, saber se impor“, ensina.
Raimunda está estudando sozinha para o vestibular
e quer ser bibliotecária ou fisioterapeuta: “As
duas profissões me interessam. Gosto muito de
livros e de ler, e também de atividades ligadas
às terapias corporais”, diz. Já
comprou o seu primeiro computador e afirma que, em breve,
terá o suficiente para adquirir a casa própria.
“Agradeço ao trabalho na portaria pelo
muito que tenho hoje. Desejo ir além, mas nunca
deixarei de ser grata pelo que tive e tenho aqui”,
agradece.
Para o gerente geral Paulo Henrique, ele mesmo um ex-porteiro,
hoje advogado, pós-graduado em legislação
trabalhista e em outros campos relativos à administração
de condomínio, Maria Raimunda é uma pessoa
inteligente que se destaca e tem tudo para seguir adiante.
“O condomínio tem uma equipe de profissionais
de mais de 80 pessoas e uma política de Recursos
Humanos profissional, com treinamentos e programa de
progressão funcional. Identificado alguém
com perfil para assumir outra função,
ele é treinado, garantindo que tenha uma atuação
exemplar. O porteiro atua como relações
públicas do edifício e a Raimunda assimilou
isso muito bem. Ela se identifica com a função,
conhece bem o material e as normas à sua disposição
para trabalhar e é uma pessoa de bem com a vida”,
conclui.
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