AÇÕES POSITIVAS
BIBLIOTECA COMUNITÁRIA TOBIAS BARRETO
Projeto de um pedreiro que reuniu 42 mil livros quer literatura para todos e sem burocracia
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Entrevista - Fernando Fernandes
  

Com construção do BNDES e projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, a biblioteca Comunitária Tobias Barreto, situada na Vila da Penha, Zona Norte do Rio, está pronta, mas necessita de apoio para começar a funcionar. Ela foi idealizada por Evando Santos, um pedreiro que, por iniciativa própria, reuniu um acervo de 42 mil livros, entre o ano de 1998 e 2007, todos doados, e neste mesmo período já ajudou a fundar mais de 30 outras bibliotecas comunitárias país afora, com exemplares excedentes.

Ele também é o autor do projeto que resultou no primeiro livro sobre o bairro. A História da Vila da Penha Escrita pelos Moradores foi publicado há quatro anos pela Universidade da Cidade. E tem um outro projeto, em parceria com a escola municipal Pequeno Torcedor, aguardando editora: será o primeiro “Dicionário de Pessoas Importantes Desconhecidas”. São 780 verbetes com pequenas biografias de porteiros, pedreiros, varredores, cozinheiros. “O objetivo é criar uma literatura viva, que não está nos arquivos, sobre pessoas que são importantes dentro de seu contexto social e familiar e, no entanto, são ignoradas pelo conjunto da sociedade. Imagina o que foi para essas crianças ouvir seus pais, avôs, vizinhos e descobrir o quanto de história eles têm para contar”, ressalta.

E é a história de vida deste pedreiro e de sua luta em favor da democratização do acesso ao livro a maior mobilizadora para a obtenção de acervo e para a doação dele. Evando Santos é sergipano de Aquidabã e semi-alfabetizado: ele aprendeu a ler na Bíblia com a ajuda de um pastor, mas mal escreve. Tomou gosto pela leitura dos clássicos por intermédio de um outro pedreiro que, no horário de almoço das obras, falava para ele sobre Tobias Barreto, Shakespeare, Machado de Assis e Homero, entre muitos outros. Um dia, indo para o trabalho, viu uma pilha de livros no balcão de uma loja e perguntou por que estavam ali. Responderam que seriam para doação ou para o lixo. Na mesma hora, tomou a decisão que mudaria sua vida. “Eram 50 livros, entre eles Os Sertões, de Euclides da Cunha. Coloquei todos em um saco, fui trabalhar e, ao voltar para casa, comecei a montar a biblioteca”. É dentro de sacos e fazendo todos os trajetos de ônibus que Evando levantou boa parte do acervo de milhares de livros.

Como conseguiu tantos? Utilizando-se de jornais e programas de rádio e de TV que abrem espaço para divulgar ações comunitárias e notícias no estilo gente que faz. Foi assim que conseguiu o projeto de Niemeyer para a Biblioteca: “O arquiteto estava em um programa de TV e diziam que quem quisesse poderia ligar e falar com ele. Liguei, contei minha história para a produtora e fui colocado para falar diretamente com ele. O arquiteto me disse para procurá-lo em sua fundação e, quando cheguei lá, ele me entregou o projeto”, recorda.

A única exigência de Niemeyer foi a existência de um terreno onde realizar o projeto. Prontamente, Evando conversou com sua mãe, com quem tinha uma área onde não puderam construir. Os dois doaram o pedaço de terra no valor de R$ 50 mil. A mãe, Celita da Cruz dos Santos, e a esposa, Maria José Lira de Oliveira dos Santos, são suas parceiras de toda hora. “Minha esposa fez latim clássico e inglês e é uma pessoa dinâmica; minha mãe acha um barato seu filho, nordestino, sem nome de pai no registro de nascimento e pobre, fazer o que faço. Elas são o meu suporte”, conta.


Livros distribuídos em carrinho de mão

Evando recebe em sua casa cerca de 20 pessoas por dia, a qualquer hora, à procura de livros. "É só bater na porta", explica. E ainda montou um serviço de "correio literário", um serviço gratuito de entrega de livros em domicílio, feita com carrinho de mão, a pé ou de ônibus – dependendo da distância . "Trabalho desde os 8 anos e não pude estudar, mas descobri o prazer da leitura. Quero proporcionar aos outros o que não tive. Quero oferecer livros e leitura sem burocracia e abrir cursos de língua e literatura no bairro da periferia. "Os professores serão aposentados que já se ofereceram para ajudar", conta.

A biblioteca nova, como ele a chama (a antiga é a sua casa, que não tem estantes e onde os 42 mil livros ficam empilhados pelos cômodos), tem três andares, um auditório e duas salas onde pretende fazer funcionar uma faculdade de Letras. Ela será a quarta biblioteca do Rio de Janeiro e a primeira de toda a Zona Norte aparelhada para receber cegos e outros portadores de necessidades especiais. Um mutirão, que contou com o apoio de uma bibliotecária e alguns moradores da região, já higienizou, separou e catalogou 4 mil livros. E o trabalho continua.

A Biblioteca Tobias Barreto necessita de mobiliário e de professores voluntários de língua e literatura. Como suporte, Evando deu início à Campanha Doe R$ 1 para manter a biblioteca comunitária da Zona Norte, que pretende arrecadar recursos para a manutenção do espaço.

“Eu sou da prática. Nunca fui à escola, mas leio de 8 a 10 livros por mês; atendo às pessoas que me procuram para doar livros e, também, àquelas que me ligam para pedir livros. Quem vem aqui escolhe o livro que quer ler e leva para casa, sem burocracia, e entrega quando quiser. Organizo arrastões na orla – em 2006 foram oito pessoas comigo e distribuímos 200 livros. Este ano, no Dia Nacional da Educação (28/04) foram 68 pessoas e distribuímos 500 livros”, acrescenta. E Evando não pára mesmo. O próximo arrastão já tem um tema: a Constituição Brasileira. Ele quer distribuir, pelo menos, mil Constituições e se apresentará vestido de homem-constituição – ele mesmo criou o personagem e montou a indumentária coberta de artigos. É seu objetivo ainda apresentar uma minipeça sobre o assunto nas escolas, tudo com o propósito de convidar a todos a ler e saber mais sobre os direitos e deveres dos brasileiros.

Além do mobiliário para a Biblioteca, Evando busca a doação de Constituições e de uma Kombi, que o ajudaria com o serviço de correio e os arrastões literários.

“O objetivo da Biblioteca Tobias Barreto é contribuir para democratizar e desburocratizar o acesso aos livros. Na Colômbia, isso já foi feito. Lá existe um incentivo ao livro, à leitura e à educação: o colombiano hoje lê 2,4 livros por ano. E o país já colhe os resultados positivos desta iniciativa. Segundo a Câmara Brasileira do Livro, os brasileiros lêem 1,8 livros por ano. Se quisermos construir um Brasil melhor, isso precisará mudar”, afirma Evando.

Evando encerra suas conversas sempre com uma poesia ou uma frase de Tobias Barreto, mas ficamos com uma de sua própria autoria: “Quando você não doa o melhor que tem para ver o melhor acontecer, quando dependo dos outros que nada querem fazer, nada de bom acontece”.

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Para saber mais e participar:

Evando Santos,
Endereço: Rua Engenheiro Augusto Bernachi, 130
Vila da Penha, Rio de Janeiro (RJ) (próximo ao Largo do Bicão)
Telefone: (21) 2481- 5336

Biblioteca Tobias Barreto
Endereço: Rua Maestro Henrique Vogeler, 348 (próximo ao Largo do Bicão)

Doações para a campanha Doe R$ 1
Banco 235,
Agência 2804-5
Conta corrente: 08433-6

  
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