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Eles
compõem 20% de toda a população
brasileira e são o segmento mais afetado pela
violência, tanto como vítimas quanto como
agentes. De acordo com o Mapa da Violência, da
Unesco, enquanto a taxa de mortalidade no Brasil caiu
de 633 para 561 por 100 mil habitantes entre 1980 e
2002, o índice referente aos jovens (15 a 24
anos) passou de 128 para 137. No mesmo grupo, a taxa
de homicídios nessa faixa etária aumentou
58,2%, em uma década (1993 a 2002). De acordo
com um levantamento do Tribunal de Justiça do
Rio de Janeiro, pessoas de 18 a 24 anos estão
entre a maioria dos condenados por crimes. Essas informações,
da Agência de Notícias dos Direitos da
Infância – Andi, deixam claras o quanto
é necessário investir em ações
para proteger e orientar melhor os jovens brasileiros,
começando por aqueles que estão próximos
de nós.
Nos condomínios, a preocupação
maior dos síndicos é com o relacionamento
com os moradores. Invariavelmente, os pais não
sabem, ou fingem não saber, dos delitos cometidos
pelos filhos na própria vizinhança, e
abordar o assunto é sempre difícil. Há
situações em que furtos, arrombamentos
e vandalismos ficam impunes porque o praticante é
filho de um conhecido e os vizinhos não têm
coragem de lavrar a ocorrência à polícia.
Na maioria das vezes, são jovens já envolvidos
com drogas que praticam essas ações sob
o efeito de entorpecentes.
“Não são só os síndicos
que se calam. Por medo de represalia, seja pela força
bruta, seja pela força da posição
social das famílias destes jovens, professores
em sala de aula, pessoas que vêem ou mesmo que
são vítimas também não dão
queixa. Mas a verdade é que enquanto ficarmos
neste estado de paralisia nada vai mudar”, afirma
Mario Biscaia, psiquiatra e terapeuta especialista em
adolescente e uso de drogas, com longos anos de atendimento
na Zona Sul do Rio.
Biscaia chama a atenção para o fato de
que, ao contrário do sentimento geral, informar
à polícia denúncia não é
uma atitude contra o jovem, mas a favor do jovem, de
sua família, do condomínio e de toda a
sociedade: “O fato de os filhos não aprenderem
limites em casa, não impede que eles aprendam
na rua, na escola, no condomínio. Os síndicos,
assim como outras pessoas que assumem uma função
representativa, não devem temer exerce-la. É
preciso, sim, denunciar. Primeiro, à família,
e se não houver resultados, às autoridades.
Estará fazendo um bem a todos”, ressalta.
Quem vê a rotina de seu condomínio mudar
por causa de adolescentes envolvidos com drogas, formação
de gangues, furtos, roubos e vandalismo, não
quer falar. Mas sabe que seu caso não é
isolado. No episódio dos jovens da Barra da Tijuca
que agrediram uma empregada doméstica, porteiros
e empregados dos condomínios onde os agressores
moravam, sem se identificar, contaram que os rapazes
eram conhecidos por seu comportamento anti-social, dizendo
que eles “tocavam o terror” no prédio
e arredores. Ou seja, atos semelhantes ao que os levou
a prisão já havia sido praticados antes,
sem que ninguém tivesse tomado uma atitude.
Acobertamento nunca é positivo
O acobertamento de pequenos delitos
pode ocorrer somente porque foram praticados por alguém
“de dentro dos muros”, conforme a tese de
doutorado Os códigos invisíveis da convivência
intramuros, que analisa o modo de vida de moradores
de condomínios fechados, defendida pela socióloga
Ana Mércia Silva Roberts, no Instituto de Filosofia
e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Para ela,
a postura é complacente em relação
ao aprendizado de hábitos e necessidade de regras
porque, a princípio, a opção por
morar nestes locais atenderia principalmente o objetivo
de ter segurança. “Sentem-se seguros e
mesmo quando há deslizes preferem o acobertamento
a expor e assumir que, de fato, não conseguiram
proteger-se do mundo dentro dos limites do condomínio”,
afirma.
Para o especialista Mario Biscaia, uma atitude em tudo
negativa. “O primeiro passo para resolver um problema
é aceitar que ele existe”, diz. Sem ter
nunca experimentado a função de síndico,
ele pergunta se não há uma associação
onde estes profissionais possam buscar o apoio necessário
para cumprir com seu papel de gerir o patrimônio,
zelando também pelo bem estar dos moradores,
com tranqüilidade, e diz que se não há,
já passou da hora de criar uma. “Como minicidades
que são deveriam contar com programa anti-drogas
e violência juvenil. Chamar profissionais para
desenvolver este trabalho e torna-lo permanente. É
ainda na infância que se pode investir para evitar
que os jovens se percam para as drogas e a criminalidade”,
justifica.
Destinada especificamente aos síndicos não
existe, mas há muitos grupos de apoio a usuários,
seus familiares e amigos. A Câmara Comunitária
da Barra da Tijuca completou 15 anos e, há pelo
menos 10, realiza campanhas anti-drogas oferecendo,
inclusive, atendimento psicológico gratuito à
comunidade, através da parceria com o Dr. Jorge
Jaber. O trabalho foi considerado de tal relevância
que ficou entre as três primeiros colocados no
Prêmio Valor Social 2007.
Na Zona Norte, há o Nepad - Núcleo de
Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso
de Drogas, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(UERJ) – contato pelo telefone 2589-3269 –
e no Centro há a Santa Casa de Misericórdia
- 2210-5564. A Câmara Comunitária da Barra
atende ainda moradores de toda a Zona Oeste e os contatos
podem ser feitos pelos números: 2431-5071 / 2432-8232
/ 3325-2910.
O papel do síndico
Para Jorge Jaber, é preciso
entender que antes de ser um caso de polícia,
estes são casos de saúde pública.
“Por isso, quando as pessoas nos procuram buscamos
levantar junto a comunidade dados para fazer um diagnóstico
e, a partir daí, propor ações que
de fato atendam aqueles que necessitam de ajuda”,
diz. Considera que os condomínios oferecem melhores
condições para oferecer o apoio necessária.
“É uma participação diferente
da que encontramos na Zona Sul, por exemplo, em que
a pessoa nem sabe o que se passa no prédio ao
lado. No condomínio tem uma coisa de comunidade.
Se alguém sabe, pode dar o sinal”, explica.
E neste sentido os síndicos têm papel importante:
“Ele é o primeiro na linha de poder não
partidário, seu poder é o do relacionamento.
É o que tem mais contato com todos os moradores
e, em muitos casos, forte relação afetiva
com a comunidade. Na maioria das vezes, são eles
que nos procuram. Acabo de receber uma síndica
que veio pedir ajuda porque têm acontecido tentativas
de suicídio em seu condomínio, na média
de duas por ano, e ela que mudar isso”, conta.
Ter uma pessoa que busque a ajuda é fundamental,
visto que, geralmente, o atingido pelo problema não
reconhece que precisa de ajuda. |