PORTEIROS
 

ROCK E HISTÓRIA NA PORTARIA

O perfil dos porteiros não é mais o mesmo. Longe vão os dias em que a cadeira era ocupada quase que exclusivamente por migrantes que não tiveram oportunidades em suas regiões de origem. Fábio Villela, porteiro do condomínio Lake Buena Vista, da Barra da Tijuca, é um exemplo deste novo profissional. Universitário, professor de história de curso pré-vestibular e roqueiro, ele leva para a portaria uma outra visão de mundo, mais ampla e, acima de tudo, mais consciente da importância do porteiro dentro de um condomínio. Faz cursos voltados para um melhor atendimento as suas funções, como os de segurança, combate a incêndio e primeiros-socorros, e sabe lidar com equipamentos tecnológicos modernos, especialmente os de segurança.

“Ainda persiste o estigma que associa o profissional à imagem ultrapassada de pessoa sem preparo e sem perspectiva, que ficava ali sentado o dia inteiro sem fazer nada. Mas hoje essa é uma função técnica, profissional. O porteiro tem uma rotina muito dinâmica, de múltiplas funções e de grande responsabilidade. Falta valorizar isso, ser mais valorizado”, avalia, acrescentando que consciência política, senso de responsabilidade e compromisso são outros itens que compõem este novo perfil, tanto quanto ter outros horizontes.

Para Villela, como é mais conhecido no condomínio, o trabalho na portaria é uma ponte para muitos e variados caminhos. “A escala de 12 por 36 horas garante um dia livre para dar ênfase a outros setores da vida. Quero ser historiador, trabalhar com pesquisas históricas, e também tenho paixão pela música”, conta.

Foi um amigo que serviu com ele no Corpo de Fuzileiros Navais quem o apresentou para uma entrevista no Lake Buena Vista há seis anos. Desde então, Villela voltou à faculdade, interrompida por dificuldades entre o período de quartel e o emprego, e passou a dar aulas no curso no Pré-Vestibular para Negros e Carentes, em Duque de Caxias, bairro onde mora. A dedicação à música se dá através de sua participação como vocalista em duas bandas de rock. A Interzona, que existe há dois anos e presta tributo à banda britânica dos anos 80, Joy-divison, e a Arma Zhen, já com seis anos de estrada, que tem no repertório rock nacional e composições da própria banda.

O porteiro não brinca de roqueiro. Com a Interzona, por exemplo, banda mais voltada para um público que acompanha a história do rock, já abriu um show do ex-Legião Urbana, Dado Vila Lobos, e dividiu o palco com Toni Platão. “Foram experiências incríveis estar com caras que eu ouvia e curtia quando tinha 13, 14 anos”, vibra.

A notícia de que ele faz história e canta rock teve repercussão, com muita gente indo até o condomínio para conhecê-lo. “O mais importante é que ela serviu para que as pessoas passassem a conhecer um pouco da minha luta, que é a luta de tantos. Este não é um sub-emprego e tenho orgulho de fazer parte deste grupo de profissionais que sai de casa cedo em busca do sustento de suas famílias, dedicando o dia a cuidar da família de outros”, afirma.

A síndica do condomínio, Solange Perillier, diz que Villela é muito querido pelos moradores, que alguns se surpreenderam, mas que todos hoje torcem por seu sucesso. “Ele já está com a gente há bastante tempo, atende bem em qualquer um dos oito postos que temos, sempre com muita desenvoltura. Se, por um lado, é o resultado de uma prática já antiga de selecionar pessoas que possam atender ao nível socio-cultural do condomínio, que é elevado, e também de que a vida está difícil (temos outros profissionais que também cursam universidade), por outro, mostra a força de vontade de quem quer mais, e que podemos ser ponte. Sabemos que o foco dele está lá fora e damos a maior força. Reconhecemos a busca por uma vida melhor e estimulamos isso, pois acreditamos que este processo gera um círculo muito produtivo em que todos saem ganhando”, conclui Perillier.   

  
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