Mudanças
de comando podem representar uma cisão, proposital
ou não. Na administração pública
brasileira é a nossa tão conhecida descontinuidade
administrativa que, se por vezes é necessária,
invariavelmente resulta em perdas de recursos investidos
e de ganhos alcançados, quando estes existem.
Uma realidade que os condomínios também
enfrentam, com a troca de gestão a cada um ou
dois anos. Mas, no Residencial Silva Araújo,
no Méier, um grupo de moradores resolveu seguir
outro caminho. No lugar do modelo político, preferiram
adotar a atitude dos esportistas, integrantes de uma
mesma equipe.
Só para se ter uma idéia de como a coisa
funciona no condomínio, a última previsão
orçamentária foi feita em parceria com
o futuro síndico. Antônio José Dantas
de Medeiros, síndico eleito, cuja gestão
teve início em abril deste ano, foi sondado em
meados de outubro do ano anterior para saber se aceitaria
receber o bastão e defendê-lo, a exemplo
dos atletas. Com a resposta positiva, foi convidado
a sentar e pensar junto a projeção de
despesas e investimentos necessários à
manutenção do Silva Araújo.
Antônio José já vinha participando
das administrações anteriores, oficialmente
como sub-síndico, em 2005, e extra-oficialmente
como uma espécie de ouvidor, depois disso. “Ouvia
as suas propostas e perguntava o que os demais moradores
achavam, levando o sentimento destes para a administração”,
conta Antônio José, acrescentando que dialogar
é uma forma de ouvir e atender a todos, na medida
do possível, já que, de um modo geral,
as pessoas costumam se manter afastadas.
O resultado da iniciativa de atuarem como um time, feita
por este grupo de condôminos, é que a tarefa
de administrar o condomínio ficou muito mais
fácil. “Acertos são mantidos e o
que fica por fazer são detalhes”, afirma,
ressaltando, ainda, que esta última passagem
do bastão foi antecedida por reuniões
para a tomada de conhecimento de toda a documentação,
contratos e processos em andamento. “Quando a
gente pega um condomínio organizado, tendo tudo
à mão dessa forma, a administração
condominial é outra coisa”.
Nestes meses de gestão, Antônio José
consertou alguns brinquedos do parquinho e comprou outros.
Fez alguns melhoramentos estéticos na área
de elevadores e outras pequenas coisas. “Não
temos projetos para grandes obras, nem elas são
necessárias neste momento”, orgulha-se.
Previsão orçamentária
real pôs ordem na casa
Toda esta história começou em 2004, quando
um grupo de moradores — Anselmo, Antônio
José e mais meia dúzia de vizinhos —
decidiu assumir e resolver, de vez, os problemas do
condomínio. “Desde a entrega do imóvel,
em 2001, vínhamos com administrações
não profissionais que deixaram o condomínio
em situação financeira deficitária
e sem os investimentos necessários até
para o término de algumas áreas deixadas
para trás pela construtora. Ninguém estava
satisfeito e era preciso fazer alguma coisa”,
recorda Anselmo Cima de Holanda, gestor passado e quem
orquestrou a ruptura necessária e o início
de uma nova forma de gerir o Silva Araújo.
O principal problema do condomínio era a conta
condominial deficitária por anos de cotas irreais,
que não conseguiam manter uma estrutura com água,
luz, quatro elevadores, duas piscinas, sauna, sete empregados
entre portaria e limpeza, mais um guardião de
piscina. “O déficit já estava na
casa dos 30 mil e, sem uma ação, ele só
aumentaria”, conta Anselmo.
O primeiro passo foi fazer uma previsão orçamentária
realista e levá-la à assembléia,
aproveitando a ocasião para também pedir
a liberação de recursos do fundo de reserva
para cobrir o déficit. “Com isso, pudemos
ter um planejamento. Partimos para avaliar gastos, cortar
despesas e, assim, ter margem para investir”,
conta. O grupo, formado por advogado, administrador,
economista e até médico, foi pesquisar
e ouvir experiências de gestão de outros
condomínios e partiu para ação.
“Nossa visão é de que condomínio
é como uma empresa e é como tal que deve
ser administrado”, defende Anselmo.
Terceirizaram pessoal de limpeza, controlaram gastos
com água e luz, otimizaram a utilização
dos elevadores, renegociaram contratos, contrataram
uma administradora e mudaram os profissionais de portaria.
A substituição dos porteiros objetivou
unicamente a profissionalização da área.
“Neste caso, não diminuímos números,
apenas buscamos ter profissionais mais experientes que
pudessem, de fato, contribuir mais com a administração”,
justifica.
Todo o processo levou quatro meses.Depois disso já
havia recursos para montar a portaria “que não
tinha sequer uma cadeira”, e, também, a
aparelhagem necessária ao funcionamento das salas
de ginástica e de jogos, além de melhoramentos
no sistema de segurança. “Em um ano realizamos
muita coisa, tudo a partir do ajuste feito por uma previsão
orçamentária real e a redução
de despesas”, comemora Anselmo. O condomínio
deixou para traz um déficit de 32 mil e hoje
tem uma situação positiva de algo em torno
de 100 mil.
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Dicas
do Anselmo:
Grupo que assume tem que estar unido, disposto.
E, de preferência, ser composto por profissionais
com experiência.
A união das pessoas é a chave do
sucesso e isto inclui os funcionários.
Deixados de lado, eles boicotam iniciativas e
tudo pode ir por água abaixo.
Os moradores também não podem ficar
de fora. O síndico hoje não pode
ser visto como alguém que cuida do seu
patrimônio. No lugar de ficar afastado,
só criticando, deve-se chegar junto e oferecer-se
para ajudar. Se a iniciativa não vier da
parte deles, deve-se buscar isso.
A gestão seguinte precisa ter todas as
condições para dar prosseguimento
ao cuidado com o patrimônio, que não
vai deixar de ser seu só porque não
será mais o síndico. Encaminhar
e ajudar no processo de transição
é fundamental porque, em comunidade, tudo
o que se faz de bom volta para você. |
Dicas
do Antônio José:
É preciso ver as contas do condomínio,
mantendo-as dentro da realidade das despesas e
sem perder de vista dados sobre inadimplência.
Somente desta forma pode-se planejar ações.
Deve-se esperar até depois do dia 15 para
ver o dinheiro que se tem em casa para pagar as
contas, guardar algum para despesas extras e comprar
com o que sobrar.
Pesquisar preço é igualmente importante
porque há uma variação grande
entre produtos e serviços. Também
é importante negociar. Cobra-se muito pela
aparência: quem tem melhor estrutura e acabamento
acaba pagando preços mais caros. É
preciso também buscar referência
de profissionais e empresas, pois o barato pode
sair caro. |
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