| Em 20 anos, 60% da população mundial sofrerá com a falta d'água e o Brasil está incluído nesta previsão nada otimista para o futuro do planeta. Acostumados com a idéia de abundância, o país consome de modo irresponsável e até desperdiça este que já é considerado o bem mais precioso do milênio. Nos condomínios, a água ocupa o segundo lugar no ranking de suas principais despesas, a despeito dos esforços de síndicos que buscam conscientizar os moradores para a economia de água, atualmente, um imperativo para a sobrevivência do homem. Mas o que é possível fazer para evitar que o pior aconteça?
Para o especialista em Recursos Hídricos da Agência Nacional de Águas (ANA), Eduardo Felipe Cavalcante Correa de Oliveira, faltam campanhas educativas e ações sistemáticas para um consumo racional. “Algumas concessionárias já dispõem de cartilhas voltadas para o tema, mas são essenciais ainda farta comunicação nas grandes mídias e a adoção de medidas como a reutilização, a captação da água da chuva e a medição individualizada da água”, diz.
Apesar da gravidade da situação, não há definição sobre ações efetivas voltadas para o uso racional da água no âmbito da administração pública. A posição da Secretaria Estadual do Ambiente (SEA) é favorável à reutilização e à captação da água de chuva, “inclusive isso será, em breve, uma obrigação de todos os órgãos públicos e os prédios novos que construiremos para abrigar escolas e centros de saúde vão possuir sistemas de captação da água da chuva até como parte da educação ambiental”, afirma o Secretário Carlos Minc.
Ele diz, entretanto, que há controvérsia jurídica quanto ao fato de essa ser uma decisão do Estado ou do Município, já que estas são normas urbanas, de urbanização da cidade, devendo, portanto, fazer parte de uma legislação municipal. “Mas independentemente disso, devemos e podemos avançar com a questão. Já conversei com a Secretária Municipal de Meio Ambiente, Rosa Fernandes, e vamos fazer isso como uma recomendação. Mais adiante, o Estado fará, e logo os condomínios, sobretudo os novos, terão a previsão de captar água da chuva”, adianta.
A Secretária também é favorável à medição individualizada da água. Mas, apesar de afirmar que já discutiu o tema com a Nova Cedae e que esta também se mostrou favorável, em entrevista à Lowndes Report a concessionária não quis se manifestar e, segundo a ANA, que vem organizando cursos para a implantação de medidores por todo o país, sempre em parceria e a pedido das concessionárias, a questão ainda não seria consensual na Companhia de Água do Estado do Rio de Janeiro. Minc reconhece que a Cedae ainda está dividida devido às dificuldades para a adoção da medida nos prédios antigos. “De qualquer maneira, vamos adotar normas para que seja possível expandir e generalizar o mais rapidamente possível a medição individualizada. Primeiro, por uma questão de economia e, segundo, por uma questão de justiça. Cada um vai economizar mais sabendo que aquela conta é sua mesmo e não uma despesa que é repartida com todos os outros”, diz.
MEDIDA ESTÁ PEGANDO
No país em que há leis que não pegam, a iniciativa de adotar os medidores individuais de água está pegando mesmo em locais em que não há legislação específica para o tema, segundo o consultor da ANA, Ferdinando Guerra. Empresário especialista no assunto e palestrante dos cursos que estão orientando estados e municípios brasileiros sobre como implantar os sistemas, ele afirma que, seja por causa de uma maior conscientização para as questões ambientais, seja pelos resultados alcançados por quem já adotou a medida em termos de redução de consumo e contas de água, cidades, construtoras e síndicos estão adiantando-se à legislação de suas localidades.
Entre os vários benefícios para os condomínios está a redução da despesa de água e de energia elétrica (já que diminui o volume de água a ser bombeado no prédio), melhor possibilidade de identificação de vazamentos e redução da inadimplência e do volume de esgoto produzido pelo prédio.
Para a ANA, a medida é uma bandeira, defendida e incrementada a partir de orientação específica às concessionárias e aos demais interessados, mobilização da sociedade e capacitação de agentes públicos e privados para a importância do consumo consciente da água. “A iniciativa reduz o desperdício e estimula o uso racional da água. Além de a medição individualizada fazer com que o consumidor pague apenas pelo que realmente consome, ela reduz os valores cobrados nas contas dos condomínios”, esclarece.
Foi a partir de 2002 que começou a surgir no país um movimento em prol da adoção da medição individualizada da água e, desde então, mais de 20 municípios brasileiros já dispõem de lei aprovada e, segundo Eduardo Felipe, o mérito tem avançado bastante.
DINHEIRO RALO A BAIXO
No Rio, há a lei 9815/02 até hoje não regulamentada. Além da preocupação da Nova Cedae com o custo de implantação dos sistemas para os clientes e para ela própria, as construtoras também reclamam que isso pode encarecer as obras, o que será repassado para os imóveis. Para o Secovi-Rio, falta um trabalho de esclarecimento, pois, na realidade, com a maior conscientização para as questões ambientais, os chamados imóveis verdes tornam-se cada dia mais valorizados. “Em São Paulo, estado onde mais cresce a adoção dos medidores individuais apesar de ainda não haver legislação regulamentada, os novos empreendimentos já utilizam os medidores como argumento de venda. A procura por estes imóveis só faz aumentar”, confirma o consultor da ANA, Ferdinando Guerra.
Para o consultor, não há como segurar. “Até onde a gente tem conhecimento, deve haver aproximadamente uns 200 milhões de habitantes no mundo sob medição individualizada, 50% nos EUA e os outros espalhados por outros países. Nigéria, China, Alemanha, Itália e Emirados Árabes, todos contam com medição individual. Não há mais como não ter; a água é um bem escasso e, se não administrarmos logo o pouco que nos resta, vamos ficar sem ela. Atualmente um dos maiores ofensores são os condomínios, grandes fontes de desperdícios”, diz.
Pouca gente sabe, mas a tarifa paga à companhia de saneamento todos os meses refere-se à coleta de esgoto, ao tratamento e à distribuição da água, e não ao uso do líquido em si, que ainda é de graça. Coletar, tratar e distribuir a água é caro, muito caro. A conta alta, no entanto, não intimida os maus consumidores. No Rio de Janeiro, apesar dos problemas com a forma com que a água é cobrada – uma queixa antiga de síndicos e associação de moradores –, o Estado registra um consumo elevado, sendo comum ver calçadas varridas com jatos d'água. “O volume médio necessário a todas as atividades diárias de um ser humano é de 250 litros/dia. Contudo, este volume pode chegar a mais que 500 litros/dia no Rio”, segundo dados da Nova Cedae.
Por isso, alguns moradores aprovam a medida acreditando que o consumo de água em condomínios verticais favorece o desperdício ao permitir que quem gasta pouca água pague o mesmo que os demais. “No prédio onde moro, há famílias com quatro pessoas e dois cachorros que pagam pela água o mesmo que eu que moro com meu marido e ambos passamos o dia no trabalho”, reclama Luciana Zanette, moradora de um condomínio na Gávea.
INVESTIMENTO ALTO, COM RETORNO GARANTIDO ENTRE 10 A 24 MESES
A grande preocupação de moradores e síndicos, no entanto, é de ordem prática. Como o sistema funciona? Como implementá-lo? E, principalmente, quanto isso vai custar? “Quando se trata de individualização, o que mais preocupa os síndicos é o transtorno causado pela instalação dos hidrômetros nos apartamentos e o grande desafio é mesmo para as edificações mais antigas, pois é preciso unificar as prumadas, o que algumas vezes se torna inviável financeiramente já que há prédios com até sete colunas de água por apartamento", explica Ferdinando Guerra. Para o sistema funcionar, cada coluna deve ter um hidrômetro, isso em todos os apartamentos. Sete prumadas, sete hidrômetros dentro de uma mesma unidade. “Uma outra possibilidade é unificar as colunas, o que nem sempre é possível”.
Porém, em termos de engenharia, explica o engenheiro e consultor, é quase impossível o sistema não poder ser adotado. “A obra pode ser mais ou menos traumática. Se o cano vai ter que passar pelo meio da sala, por exemplo, coloca-se uma sanca. Mas a dificuldade é a aprovação disso pelos moradores. Outra dificuldade é encontrar uma empresa com conhecimento técnico para realizar a obra, minimizando seu impacto. É preciso que ela tenha domínio sobre instalações hidráulicas para propor soluções inteligentes, visando a causar o menor transtorno possível”, orienta.
Para Guerra, o retorno vale o investimento. “Peguemos, por exemplo, um casal sozinho que trabalha fora, que poderia pagar pouco mais de 25 reais, mas que com o rateio chega a pagar mais de 100 reais ou até muito mais, dependendo do porte do condomínio. Isso compensa para a vida toda. Um levantamento feito pela ANA garante um retorno entre 10 e 24 meses”, afirma.
Como funcionam
Medição individualizada
A princípio, o sistema consiste na instalação de um hidrômetro para cada prumada das unidades do edifício. Para a leitura dos dados é que há diferenças. O sistema mais moderno é o que inclui a medição individualizada de água, energia e gás juntas, pela tecnologia PLC (Power Line Comunication). Além da medição dos consumos, ela permite que sinais de telefonia digital, TV a cabo e internet caminhem pela rede elétrica. A leitura do consumo é feita à distância. O sistema digital permite que o hidrômetro gere dados que são armazenados em um computador e é um software que faz a medição pontual do consumo. Entre as vantagens estão a isenção na leitura e a segurança, pois o trabalho é feito remotamente, não havendo necessitando de acesso aos apartamentos ou mesmo aos prédios. Outras possibilidades de leitura remota são por telemetria, com os dados dos hidrômetros transmitidos via placa de celular para um banco de dados e daí seguindo via internet e por radiofreqüência, quando o hidrômetro emite um sinal que é captado pela antena de um transmissor de rádio. “O custo destes sistemas varia em função do número de apartamentos. Em um prédio padrão, com 60 apartamentos, com dois banheiros cada, a implantação do sistema completo digitalizado sai, em média, a R$ 500 por unidade, com serviço de instalação e software específico”, adianta Guerra. “Em construções antigas, o custo varia de 500 a 3000 reais por unidade, dependendo do número de colunas do apartamento e do sistema de leitura implantado”, acrescenta.
Captação da água da chuva
A água da chuva pode ser coletada por calhas instaladas no telhado do prédio, descendo por uma tubulação para armazenamento em uma cisterna no térreo ou subsolo. A medida exige ainda a instalação de um equipamento para filtragem desta água e de um sistema de recalque (bomba d'água mais encanamento) para enviar a água para as torneiras. Sua utilização será sempre para fins menos nobres, como limpeza geral e irrigação dos jardins.
Reutilização da água
Para a reutilização da água é preciso a implantação de uma pequena estação de tratamento de águas usadas em banhos e pias, descargas, lavagens de pisos e outros. Essa opção já é bastante usada por indústrias e está começando a ser adotada nos novos condomínios, apesar das dificuldades, especialmente para os edifícios antigos, que não foram planejados para isso. As obras exigem a criação de uma rede de captação, tratamento e bombeamento da água. Mas as poucas iniciativas estão estimulando a adoção da medida. “Estudos estimam que, dos 200 litros diários de água gastos numa residência, 27% se destinam ao consumo para cozinhar e beber água, 25% à higiene pessoal, 12% à lavagem de roupa, outros 3% à lavagem de carros e finalmente 33% nas descargas de banheiro. Ou seja, se, pelo menos, as águas servidas, que são as águas resultantes de lavagens e banho, fossem reutilizadas para a descarga de vasos sanitários, por exemplo, conseguiríamos economizar 1/3 da água consumida”, avalia Guerra.
Alerta Global
O planeta está em estado de alerta. Somente uma pequena parcela da água existente, cerca de 2,5%, é doce e bem menos que isso, 1% apenas, está acessível para o consumo humano nos rios, lagos e subsolo. As reservas são finitas, não renováveis e cada vez menores.
Atualmente, um quinto da humanidade, algo em torno de 1 bilhão de pessoas, não dispõe de água potável e, segundo um relatório de 2006, coordenado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), até 7 bilhões de pessoas poderão conviver com a falta d'água, já a partir de 2050, se medidas urgentes não forem tomadas para implementar o uso racional dos recursos hídricos. Em 20 anos, caso o intenso desperdício continue, faltará água para 60% do mundo; o Brasil incluído.
Nosso país concentra 8% de toda a água doce do planeta e temos uma disponibilidade de 35 mil metros cúbicos de água per capita por ano, um volume quase 17 vezes o que tem a Alemanha, por exemplo. Porém, um consumo irresponsável, associado à falta de consciência de preservação e a uma distribuição desigual (70% para a região Norte, 15% para a Centro-Oeste, 12% para as Sul e Sudeste e 3% para a Nordeste), já gera crises de abastecimento em várias regiões. |
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