Seja do alto de um andaime vistoriando uma obra, seja descendo ao playground tarde da noite para proibir uma festa ou mandando parar uma obra na metade porque estava tudo errado, lá está ela, a Síndica Ana Lucia, enérgica e atuante, fazendo cumprir os direitos dos condôminos e do Condomínio Côte d’Azur, no Flamengo. Sua trajetória de trabalho na função desde 2000 é tão impressionante que fez a equipe da Lowndes Report voltar ao edifício quatro anos depois para conferir as novidades.
Em 2003, quando apareceu nestas páginas, Ana Lucia já tinha no currículo importantes obras concluídas no prédio. Entre elas, troca dos barriletes, impermeabilização das caixas d’água e reformas na garagem e em seus acessos. Hoje, a atenção à parte estrutural continua, mas pode-se dizer que a melhorias obtidas naquele primeiro momento permitem à Síndica mais tranqüilidade para buscar o embelezamento e o conforto. Como exemplo de ações mais recentes, podemos citar a “construção” do playground. O espaço foi criado a partir de um local que era usado como depósito de entulhos e hoje conta com uma churrasqueira, uma cozinha, um chuveirão e um belo paisagismo. Como o edifício fica perto da praia, freezer ou geladeira se deteriorariam facilmente ao ar livre, então Ana teve a idéia de construir um depósito, como se fosse um tanque, devidamente tampado e com saída de água, onde as pessoas acondicionam e gelam as bebidas. A transformação foi tamanha que já conseguiu mudar a opinião dos vizinhos do prédio ao lado. Antes, eles consideravam um local uma área repugnante de se olhar; hoje gostam de ficar admirando local, que é a vista mais agradável que têm de sua janela. O espaço teve até coquetel de inauguração, em que o morador mais antigo do prédio, hoje já falecido, foi convidado para descerrar a placa.
Assim como o play, o bicicletário foi criado aproveitando-se um espaço ocioso na garagem. As portarias dos dois blocos foram reformadas e hoje contam com um fino acabamento. O mesmo aconteceu com os dois blocos do edifício, de doze andares cada um, cujas melhorias Ana Lucia tem decoradas na ponta língua e documentadas em dois álbuns no melhor estilo “antes e depois”: “Colocamos laminado melamínico nas paredes, rebaixamos os tetos dos corredores, colocamos luminárias embutidas, trocamos todos os basculantes de ferro por basculantes de alumínio com pintura eletrostática, tudo branquinho e com vidros jateados de areia. Nas escadas colocamos corrimões de aço, que antes eram de alumínio: você se apoiava e a coisa despencava”, descreve ela, minuciosamente. O resultado passa muito, muito longe do antigo visual, onde tudo no condomínio era vergalhão aparente e enferrujado. E essa é mesmo a Síndica que transforma os espaços. A lixeira do Bloco A, que era muito grande, foi reduzida e cedeu lugar a uma vaga extra de garagem, hoje alugada a condôminos. Já na cobertura do prédio foi criado um local para os empregados, que antes trocavam de roupa no depósito de entulhos, sem a menor privacidade e à vista dos moradores. 
Mas a melhor parte da história é saber que a maioria das obras foi executada com a arrecadação ordinária do condomínio, sem a emissão de quota extra. O segredo? Não há. “Eu falo que se você usar o dinheiro do condomínio para o condomínio, é possível ter muita coisa boa. Procuro negociar ao máximo para baixar preços, conseguir material e mão-de-obra de qualidade porque eu penso muito no dinheiro que sai de cada pessoa, assim como no meu, e o condômino começa a te respeitar quando percebe que o dinheiro que ele está empregando no patrimônio dele vale a pena”.
Ana Lucia sabe colher os louros de cada vitória conquistada, mas reconhece que a rotina é desgastante. É telefone tocando de madrugada, condômino que quer reclamar, às vezes de problema nem relacionado ao condomínio, mas que ela ouve com total atenção e sempre disposta a resolver. “Não consigo não me envolver”, confessa. Sem esquecer a postura apaziguadora que o síndico deve ter, em sua opinião. “Nós temos a obrigação de harmonizar o prédio. Se existe briga entre os condôminos, um faz barulho que incomoda o outro, você não pode deixar que eles batam boca; tem que entrar com cautela e apaziguar os ânimos”.
Mesmo com esse papel de pacificadora, a Síndica é ciente de suas responsabilidades em fazer os condôminos cumprirem seus deveres. “O síndico não pode ficar em cima do muro. Tem que ter determinação, multar no momento certo, se necessário, ter coragem para fazer. Você não está aqui para agradar condômino nenhum, e sim para fazer vigorar a convenção”. A mesma determinação ela usa em relação aos prestadores de serviço. Já teve a coragem de, durante a obra que trocou toda a tubulação externa do prédio, caixas de gordura e de águas pluviais, ordenar a paralisação dos serviços, com a calçada toda quebrada. A empresa tinha dado prazo de 45 dias para a conclusão, já havia passado um mês e estava fazendo tudo errado. Ela contratou uma nova empresa que executou o trabalho num final de semana.
Esse é o perfil da Síndica que se assustou quando comprou seu apartamento e ficou sabendo que seu prédio era conhecido como “favela”. Ela desabafa sobre uma realidade que não é muito explícita: existe preconceito contra a mulher no cargo de síndica, mas, em sua opinião, a mulher é perfeita para esta função. “A mulher é determinada, busca as melhores coisas, trabalha com zelo e não se corrompe facilmente. A mulher hoje é uma artista, porque troca de personagem várias vezes por dia, e está sobrecarregada, mas ela só está sobrecarregada porque consegue vencer todos os desafios”. Mesmo com tanto trabalho, ela diz que continua com vontade de terminar aquilo ao que se propôs no condomínio: recuperá-lo. E diz que, quando terminar, é capaz de entregar o cargo e vender seu apartamento. Sua próxima meta é efetuar a troca de todo o sistema dos quatro elevadores do prédio, que são muito antigos e trazem muita despesa. Mas alguém acha que ela vai parar por aí?
A síndica Ana Lucia, por suas palavras-chave:
DETERMINAÇÃO: o síndico não pode ficar em cima do muro. Ele vai agradar um condômino e desagradar outro. Mas o importante é fazer vigorar a convenção, sabendo conduzir tudo com harmonia.
CORAGEM: tem que multar se for preciso, mandar parar uma obra grande for se necessário, descer ao play para proibir uma festa que excedeu os limites. O síndico não pode vacilar em usar sua autoridade.
HONESTIDADE: o síndico tem que agir dentro do condomínio como se ele agisse dentro da casa dele, tratar da coisa comum como se fosse sua “porque quando a gente faz dentro da nossa casa, a gente faz o melhor. Honestidade não é um favor”.
ZELO: trabalhar com zelo, amor e dedicação. Acompanhar de perto as obras, brigar por preços, negociar formas de pagamento, exigir que os serviços sejam feitos da maneira correta.
RESPEITO: tratar cada condômino como se fosse um “filho” e ouvir o que cada um tem a dizer. Por menor que seja o seu problema, se ele chegou a lhe procurar é porque este problema é importante para ele.
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