Lowndes Report - As questões de Schopenhauer podem ser abordadas a partir dos problemas de condomínio?
Leandro Chevitarese - Podem ser utilizadas em âmbito irrestrito. Na verdade, a preocupação de Schopenhauer era tentar pensar a condição humana e o modo como lidamos com o que a gente é: fundamentalmente marcados por uma vontade que nos é própria e que em sua essência é cega, irracional e conflituosa. E, portanto, a necessidade de ver isso com clareza e, a partir daí, repensar formas de lidar com isso, seja de um modo geral, seja no ambiente familiar, profissional ou condominial.
Lowndes Report - Sendo o homem esse ser de vontade e tendo uma condução tão egoísta e individualista, ao estar fechado em um grupo, no caso um condomínio, essas individualidades podem conviver bem?
Leandro Chevitarese - Esse é o desafio. Equacionar isso de um modo mais plausível, em primeiro lugar, implica na necessidade de reconhecer as dificuldades, pois, se elas não são vistas com clareza, fica difícil. E a gente idealiza, projeta um ideal que se sobrepõe à realidade, o que nos torna menos sensíveis àquilo que somos. Partindo da filosofia de Schopenhauer, podemos olhar como essas coisas são, fundamentalmente. Aceitando toda a incompletude, a inconsistência e a contradição que nos é própria, talvez alguma coisa possa ser feita.
Lowndes Report - A abordagem filosófica ajuda a trazer essa percepção que você está colocando?
Leandro Chevitarese - A filosofia é um convite a pensar questões. Ela nos convida a desbanalizar coisas que naturalizamos. Alguma coisa assim: isso é assim mesmo, não tem jeito e não vale a pena pensar sobre isso. Com este tipo de raciocínio, nos tornamos medíocres, no sentido de agir como medianamente todos agem, repetindo ou reproduzindo equívocos, procedimentos que não nos satisfazem. O convite da filosofia é o de tomar as coisas com estranheza, espanto, admiração, de modo a nos fazer pensar sobre os problemas: Mas como assim? É preciso que seja assim? Talvez não. E aí você tem teorias filosóficas que tentam dar conta desse estranhamento. A teoria de Schopenhauer propõe uma compreensão da realidade segundo a perspectiva da vontade, do fato que somos governados e tendemos a satisfazer os nossos desejos, aquilo que é nosso ímpeto de nos dar sobrevivência, segurança e bem-estar. Estamos centrados em nosso próprio egoísmo, mas, à medida que compreendemos essa dinâmica, que não é só minha mas da coletividade da qual eu participo, alguma coisa pode ser feita a respeito. Em compreendendo a realidade de um modo mais profundo, mais significativo, mais sensível, é possível se relacionar com os outros de uma outra forma.
Lowndes Report – Se um síndico tem vontade de fazer a comunidade pensar, em particular sobre a importância da participação em reuniões condominiais, por exemplo, este é um caminho?
Leandro Chevitarese - Acho que sim. Acho que ele tem vários caminhos, diante de cada dificuldade, pois, se é claro que em primeira instância cada um quer defender o seu ponto de vista, por outro lado o que faz com que a gente se organize em coletividade é também um tipo de impulso básico que todos nós compartilhamos, que é segurança e bem-estar. A gente percebe que vivendo em condomínio, talvez, tenha mais chance de obter o que todos queremos. Se há esta compreensão, podemos fazer um esforço coletivo de construção de alguma coisa que nos é comum. O que exige um processo de auto-educação de nossa própria vontade, de poder ouvir aquilo que incomoda, que ofende ou que interessa também ao outro. Porque, apesar de todos compartilharmos o mesmo bem-estar, nem todos compartilhamos a mesma opinião sobre como realizá-lo. E ouvir o outro é o que está na base da possibilidade da construção de um tipo de diálogo que tem como fim um benefício coletivo. Tenho que ser sensível à vontade, ao desejo, às demandas e ao problema dele.
Lowndes Report - Seria necessário enxergar o outro...
Leandro Chevitarese - E isso só se faz quando percebo que você também sofre como eu, embora os seus medos ou suas preocupações possam variar. É essa sensibilidade em relação ao outro, no sentido de dizer assim: Estamos no mesmo barco, no fundo queremos a mesma coisa, e relembrar isso. É o esforço reflexivo de recuperar o sentido originário de se estar em uma reunião condominial. Qual o sentido de estarmos aqui? Não é brigar; é claro que existem diferenças entre nós, mas há alguma coisa em comum. No meu condomínio, por exemplo, há uma questão comum a outros lugares: uma disputa sobre vaga de garagem porque há uma pessoa obesa ocupando uma vaga em que é difícil abrir a porta do carro. Como lidar com isso? Essa pessoa tem uma necessidade especial, é uma questão de solidariedade, que é um termo contemporâneo para o que Schopenhauer chama de compaixão. E se eu fosse essa pessoa? Não tenho esses problemas, mas tenho outros, e gostaria que quando de algum modo eles estivessem em questão, também as pessoas pudessem ser sensíveis a eles. Me colocar como uma pessoa sensível ao que aflige o outro, perceber que também tenho dificuldades. É perceber a minha própria precariedade, as minhas limitações, que em algum momento vão incomodar o outro também, vão exigir reformulações também. Porque se ele vai sair daquela vaga, claro que vai incomodar outra pessoa e essa outra pessoa pode pensar: "Estou cedendo aqui, mas, em outro momento, alguém também vai procurar ser solidário com as minhas dificuldades".
Lowndes Report - Tem uma coisa bonita que ele diz que é: “Ao espírito de luta contra os semelhantes se segue o espírito de simpatia”. Mas este não parece ser o movimento atual. As pessoas se tornam menos simpáticas, menos solidárias, não parece que as pessoas estão no caminho oposto ao que ele pensava?
Leandro Chevitarese - Talvez. O que Schopenhauer sugere como que se segue talvez seja no sentido de ver a vida de outro modo. Não vejo mudança em relação a outras épocas. Acho que nós sempre fomos egoístas e isso é a história da humanidade, de guerras, de lutas, de torturas, de ditaduras, de violências. Hoje, temos os direitos humanos, civis, trabalhistas, não que os respeitemos, mas há uma evolução reflexiva nesse sentido, ainda que as violências se processem. Pois, há quem sofra e permaneça insistindo no egoísmo e fique se queixando do mundo, dizendo que o mundo é uma coisa horrível e que a culpa é do mundo, sem se perguntar em que medida se coloca perante a isso. A questão da violência, por exemplo: Fala-se muito do problema do outro condômino, que faz isso, que faz aquilo, mas não se questiona sobre a própria violência. Em geral, não refletimos que, talvez, não façamos aquilo, mas podemos ter outras formas de ação que incomodem, que violentem o outro. Em Schopenhauer injustiça é isso. Quando eu faço com que a minha vontade invada o espaço do outro, o lugar onde o outro mora no sentido mais profundo de morar, residir, repousar. E isso é injusto, pois posso não fazer nada de um modo efetivamente ou visivelmente violento, mas sutil, como uma ironia, uma piada, um olhar que não é muito simpático, a solidariedade. Tudo que são formas de violência também. Mas quando o outro põe o som alto, quando o outro faz não sei o quê, dizemos: isso é uma violência. Mas e a minha violência? Esse sentir junto que despertaria a possibilidade de ter simpatia e solidariedade.
Lowndes Report - Existem outros pontos importantes, como percepções diferentes acerca do que seja moradia, por exemplo: um prédio antigo, com bons apartamentos e muitos aposentados que desejam um lugar tranqüilo, seguro e calmo para viver. De repente, chegam os jovens que estão fazendo um mundo de coisas e a moradia tem para eles um significado de status. Aí são festas, reuniões e não pode mais ser aquela portaria simples, e os outros não querem isso, porque afetaria seus orçamentos e eles gostam daquela coisa antiga, tradicional.
Leandro Chevitarese - Na verdade cada um tem um universo de desejos acerca do que quer, que é distinto. Um entende que bem-estar é tranqüilidade, o outro que é status. E, é claro, isso implica a necessidade de diálogo. Habermas, por exemplo, propõe que é através da possibilidade de dialogar respeitando a posição de cada um que se constrói uma perspectiva de consenso capaz de atender às diferentes demandas. Uma construção democrática como esperamos que seja uma reunião de condomínio, por exemplo. Para Schopenhauer, seria essa simpatia, essa solidariedade, que busca amenizar um pouco o foco estritamente no próprio egoísmo, tentado encontrar uma convergência. Para Habermas, a maneira de viabilizar isso é através de uma construção em que todos possam falar, apresentar suas questões, dialogar de modo democrático, organizado, a fim de buscar atender um pouco a todos. Ninguém vai sair totalmente satisfeito, mas, pelo menos, estamos fazendo um esforço para uma satisfação coletiva. Qual o sentido dessa proposta de estarmos reunido?
Lowndes Report – Isso exige que o síndico tenha um papel de mediador.
Leandro Chevitarese - Depende muito de ter essa predisposição de falar com as pessoas, ou de alguém que possa estar nesse papel. Porque o síndico, por estar também envolvido, pode ter alguma dificuldade. Tem que ser uma pessoa bastante hábil, estar lá e ter essa posição de gerenciamento de uma coisa que é para todos, independentemente de seu ponto de vista.
Lowndes Report - Como então utilizar esses conhecimentos para ter um ambiente mais construtivo, mais saudável?
Leandro Chevitarese - Acho que é a partir dessa postura de resgatar um foco naquilo que é fundamental, recolocar valores, reconstruí-los. É claro que a tarefa do síndico não é educar, mas ele pode convidar à reflexão sobre o que se faz num ambiente de coletividade, de pensar que se quer ser respeitado, vai ter que respeitar. Às vezes, as coisas perdem um pouco o rumo porque a gente vai se envolvendo com problemas muito específicos e muito arraigados num conjunto de problemas. Pessoas já tão irritadas umas com as outras – às vezes, com o próprio síndico –, que não há mais nem sensibilidade, nem diálogo. E se essa situação é mantida, isso se polariza e você começa a se perguntar quem é que está a favor, quem é que está contra. É interessante que o síndico possa abstrair interesses pessoais em busca do coletivo. E, às vezes, isso não acontece porque ele também está defendendo um ponto de vista, buscando quem apóie determinada perspectiva. Em que medida é possível ter a opinião dele e não permitir que isso prejudique a possibilidade de fazer uma costura no sentido de lembrar o que é de interesse geral, o que é melhor para todos em essência? E muita gente não atura muito a posição do síndico, talvez, porque tenha esse pressuposto de que está defendendo a posição dele e não a da coletividade.
Lowndes Report - Nesse contexto, você acha que o síndico profissional seria mais saudável?
Leandro Chevitarese - É uma possibilidade bastante interessante, mas isso implica um conhecimento do que se passa no prédio, o que é difícil. Seria preciso ter uma sensibilidade para os problemas que afligem aquela comunidade e, ao mesmo tempo, fomentar o consenso, uma postura de que se não pode atender a cada um agora ou amanhã, numa perspectiva de construção. Deve ser um elemento externo de articulação. Então, se você tem um elemento externo, um consultor, um administrador que possa estar defendendo uma posição neutra, mas lembrando o que faz com que estejam reunidos: a gente tem alguns princípios básicos e temos concepções diferentes sobre isso, mas vivemos aqui e, então, temos que ver o que há de comum nessa comunidade. Ou seja, o que é bem estar para você? O que é para você segurança? Vamos discutir sobre isso, buscar alguma coisa que possa ser construída num consenso. Afinal, temos que estar num ambiente harmônico, de sensibilidade, de afeto. Quando a pessoal tem habilidade para desenvolver isso, tanto no plano afetivo, quanto no plano intelectual, é possível acalmar os ânimos. O grande dilema da democracia, e o condomínio é um exemplo de como coletividades podem se articular de maneira prática, é como não virar uma ditadura da maioria. Em condomínio existe o problema daquele síndico bastante antigo, a quem os proprietários delegavam procurações e, então, ninguém discute nada porque ele chega com 10, 20 procurações e as pessoas se sentem desanimadas para poder discutir. Por mais que este procedimento seja legal, não contribui para esta perspectiva de uma construção democrática e solidária.
Lowndes Report - Parece interessante, então, ter um outro olhar sobre a função da normatização, de Convenção, de Regimento Interno, que precisaria ser mais dinâmica e contribuir para uma maior participação.
Leandro Chevitarese - Se tiver uma convenção que fomente a construção coletiva, com a preocupação de ser um instrumento ativo, e não um instrumento burocrático, de criar possibilidades para que uma perspectiva democrática e solidária prevaleça, pode ser diferente. Além de proibições, como a referente a um maior número de procurações, poderia ter algumas sugestões de orientação para a convivência, de como realizar uma reunião e não só normas do tipo "faça isso", "faça assim", "não é permitido". Pode ter sugestões de como encaminhar as coisas, de como resolver problemas, ainda que seja uma orientação de conduta, de trato com o outro, tendo em vista resultados para o bem-estar da coletividade.
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