GESTÃO DE SEGURANÇA
É preciso ter uma visão integrada dos riscos e planejar ações.
Veja também:
Jardins - Antecipando a primavera
Banda Larga - Várias Opções para o Condomínio
SuperVia - Trens para Todos
 



Um braço do grupo do ex-piloto Nelson Piquet, que já inclui a maior empresa do segmento de comunicação móvel de dados para monitoramento e rastreamento de frotas do país e uma fábrica de blindagem de automóveis, está mudando conceitos em segurança para condomínios. No lugar de respostas reativas, propõe uma cultura de prevenção que coloque informação e inteligência a serviço de uma proteção eficaz. Nesta entrevista, o gerente de operações da ISC do Brasil, Leonardo De Faria, com experiência internacional em gestão de segurança, fala da necessidade – e das vantagens – de se pensar estrategicamente em segurança.

 

Lowndes Report - A base do trabalho de vocês é o uso estratégico da informação e da inteligência para ações de segurança. No segmento de condomínios, utilizam, inclusive, a demarcação de perímetros, como fazem as áreas militares que têm na arquitetura de barreiras uma forma de inibir ou atrasar tentativas de acesso indevido, para dar tempo a outras ações de defesa. Como os condomínios residenciais tornaram-se foco da atenção da empresa?

ISC do Brasil - Vivemos nas grandes metrópoles – e não apenas no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde atuamos há mais tempo – um problema social grave sem que tenhamos a principal solução para ele, que é uma cultura de prevenção para a segurança. Com isso, facilitamos a ação dos bandidos, muitas vezes, nos colocando no papel de alvo preferencial, verdadeiros chamarizes.

Perigosamente, nos agarramos a qualquer aparato como se ele, por si só, pudesse garantir a segurança que necessitamos, enquanto seguimos com rotinas e atitudes imprudentes. Mas sabe-se que os bandidos roubam bancos, carros fortes e o Banco Central. Quer setor que invista mais em aparato de segurança do que este?

O que tem levado à audácia crescente da ação criminosa é este conhecimento de que os aparatos são falhos, que os ambientes não estão protegidos e que as pessoas estão paralisadas pelo medo. É uma guerra. Mais no nível de crenças do que no de fato, mas que se torna cada vez mais real porque funciona da seguinte forma: eles não encontram barreiras e avançam; nós recuamos, e quanto mais recuamos, mais eles avançam.

É por isso que trabalhamos com a idéia de perímetro, com a arquitetura de barreiras, buscando vulnerabilidades e detectando áreas de risco para planejar ações específicas. Este modo estratégico de pensar, articulando ações e soluções adequadas a cada ponto vulnerável, forma um sistema eficiente de segurança. E é um processo. Este movimento de busca leva a mudanças de comportamento, tanto no âmbito individual quanto no coletivo, tanto daqueles que hoje estão no lugar de reféns quanto daqueles que se acreditam impunes e imunes. Os bandidos têm no crime um ofício, passam os dias estudando como agir. E nós, quanto tempo de nosso dia utilizamos para pensar em como nos proteger? É por isso que é necessária uma cultura de prevenção para a segurança.

Os condomínios são os nossos lares, nossos endereços de trabalho, e tornaram-se alvos. Isso exige uma resposta. Ou agimos ou nos tornamos mais um dado para as estatísticas de violência urbana. E esta ação precisa ser planejada

LR - Na sua opinião, o que são, ou quais são, os aparatos ineficientes e as atitudes imprudentes?

ISC - Um exemplo: as portas giratórias dos bancos são abertas por controle remoto pelo segurança que está na área interna, pois o detector de metais trabalha por gramatura e há armas de fogo com pesos diferentes das que o sistema pode detectar. E estes seguranças não recebem um treinamento regular e adequado, isso quando são treinados. Estes são aparatos ineficientes.

Outro: uma das vítimas de assalto seguido de morte em um sinal de trânsito da Zona Sul era mulher, estava ao volante de um carro importado de alto valor agregado, parada em um sinal com a janela aberta, à noite, distraidamente falando ao celular, mostrando na mão e no braço jóias caras. Ela também não soube responder à abordagem. A ação criminosa não é normal e o bandido está nervoso nessa hora. Se a pessoa não sabe reagir, ele pode entender um movimento de retirada de um relógio ou do cinto de segurança como uma reação e, instintivamente, atirar. E foi o que aconteceu. O pânico é o principal responsável por estes desfechos. Estas são atitudes de extrema imprudência

LR - E nos condomínios?

ISC - No âmbito dos prédios e condomínios, a questão é complexa, pois se conjugam diferentes fatores. Há falhas estruturais: você encontra portarias que ficam atrás de duas pilastras e não dão visão externa, então faz um puxadinho para o lado de fora e coloca-se ali o porteiro com um interfone, só que ele fica vulnerável. Você encontra problemas de manutenção: é uma lâmpada queimada no jardim ou na garagem, uma porta que não fecha direito, um espaço ocioso onde pode ser guardado o produto de um furto. Tudo isso gera oportunidades, o que é uma imprudência.

Hoje em dia, a maioria implanta produtos e tem a segurança como o uso de um equipamento. O circuito interno de TV é um exemplo: você vê o que ocorre e não tem nenhuma ação planejada, a fim de saber o que fazer em caso de uma ocorrência. É o mesmo com a guarda patrimonial: você tem um homem armado, parado, observando o dia inteiro. Não adianta ter um produto e não ter a resposta disso, assim como não adianta ter um guarda armado e não dizer para ele o que tem que fazer, qual a ação de revide que terá de tomar em caso de uma tentativa de roubo. Existe um procedimento, normas definidas para a ação? Sem isso, estes aparatos são como as portas giratórias dos bancos.

É preciso entender que, assim como os criminosos sabem diferenciar o ouro folheado do verdadeiro, eles conseguem avaliar se de fato existe um sistema de segurança que represente um obstáculo, algo que os faça preferir seguir para um outro condomínio onde sua ação será mais fácil

LR - O que dificultaria a ação deles?

ISC - Qual é o procedimento do ladrão? Ele analisa o alvo: aquele é menos vulnerável, tem muita estrutura de segurança, eu vejo o comportamento dos funcionários, eu vejo uma filtragem de quem entra e quem sai, eu vejo uma avaliação da área externa; este para mim não serve, vou para o que só tem um porteiro eletrônico e sei que posso dizer que sou o entregador de pizza e o porteiro abrirá a porta para mim.

Se na porta de acesso tiver um sistema efetivo de segurança, o bandido vai pensar duas vezes: aquilo ali não é só uma porta, é uma barreira de segurança que tem um controle de acesso, que tem um cadastro, que tem gente atenta e que sabe das coisas olhando; é melhor não arriscar.

A implementação de dificuldades efetivas envolve estratégia. Você tem uma grade alta? Ótimo, todo mundo pula uma grade alta subindo em cima de um carro. O que eu posso ter em cima dessa grade? Sensor de movimento com umas buzinas. Isso também é válido, mas depende de um estudo do prédio, depende da ação que o funcionário vai ter quando aquela buzina tocar. E é aí que entra o treinamento, que é fundamental para a eficácia da segurança. Por que perguntar se tem um apartamento para alugar é senha capaz de abrir qualquer portaria? Já é um crime comum o corretor ser assaltado enquanto espera interessados na compra ou aluguel de um imóvel dentro dos condomínios. Os porteiros não sabem que, ainda que alguém diga que é um oficial da justiça, ele tem o direito e o dever de pedir uma identificação, cadastrar e demonstrar que naquele condomínio há controle eficiente de acesso.

Um estudo de vulnerabilidades determina as estratégias e, entre elas, a elaboração de normas e procedimentos de segurança e de um treinamento permitirá que o pessoal saiba agir a partir de tudo isso.

O mais importante é saber que não se deve pensar reativamente em segurança; é preciso prever problemas e agir antes. E a única maneira de alcançar este objetivo é pensar na questão inteira, global, saber sobre ela do início ao fim. Pois, não adianta querer implementar uma solução se não se sabe a causa do problema.

LR - Quais são os maiores desafios para a implementação deste novo conceito?

ISC - O principal desafio é ter uma visão integrada dos riscos. A segurança se faz em pedaços, porém com todos eles integrados, como os elos de uma corrente. Se você fortalece um elo (os sistemas) e deixa outro (as pessoas) de lado, a coisa não funciona. Por isso, o primeiro desafio é conseguir enxergar a segurança em todos os seus aspectos – físicos, tecnológicos e humanos –, a partir das vulnerabilidades existentes em cada um deles, e tratá-los de forma igualitária, pois todos são igualmente importantes.

As questões de segurança não podem mais ser atribuídas simplesmente à ação de um, ou dos órgãos públicos. Dependem também, e acima de tudo, do comportamento de cada indivíduo em seu agir cotidiano. Estabelecer uma política de segurança contribui para criar uma cultura de segurança – física, das instalações, do entorno, do seu bairro, da sua cidade e da coletividade. Fazer com que as pessoas se conscientizem disso, talvez, seja o maior desafio.

LR - Neste sentido, que medidas poderiam ser recomendadas aos síndicos?

ISC - Deve-se avaliar o real nível de segurança necessário em sua comunidade porque cada condomínio tem suas características próprias, tem um entorno próprio. Depois, deve-se adotar uma política de segurança em que empregados e moradores sejam co-responsáveis. É preciso, ainda, treinar todo mundo para evitar reações inesperadas, pois o ser humano é imprevisível. Isto, é claro, a partir de normas e procedimentos estabelecidos com base em seu plano de segurança.

Assim, ele estará investindo na formação de uma cultura de segurança, que começa a acontecer quando os procedimentos são adotados. E quais são eles: levantamento de informações sobre funcionários, fornecedores e o entorno de seu condomínio; conhecimento de todos os riscos e vulnerabilidades ali existentes; um domínio do uso, e de serviços, dos aparatos de segurança; um correto sistema de recrutamento e uma constante avaliação de pessoal; treinamentos eficientes e permanentes tanto para segurança quanto para relacionamento interpessoal; e o estabelecimento de normas e padrões de comportamento voltados para a segurança, acompanhado de uma boa divulgação interna. Isto porque é preciso todo um trabalho de convencimento, de aculturação mesmo, pois muitas vezes a segurança vai contra o conforto. Por isso, os moradores e os empregados têm que entender a razão de cada procedimento e o quanto ele contribui para sua segurança particular e a do condomínio onde mora ou trabalha.

LR - Para os condomínios, o item segurança já é uma despesa considerável. Um sistema para ser eficaz deve ser caro?

ISC - Gasta-se muito porque não há um dimensionamento adequado dos investimentos: compra-se gato por lebre. Um exemplo é quando você encontra 20 câmeras espalhadas por um condomínio, quando você poderia utilizar de modo muito eficiente meia dúzia ou menos. É preciso fazer o investimento correto, adequado – o que não precisa ser caro. Às vezes, bastam medidas simples, sem investimento nenhum, como a mudança no posicionamento de uma câmera, que deve ser feita a partir de uma avaliação do local, de um planejamento e das especificidades da rotina de movimentação de pessoas e de veículos.

O consultor de segurança serve exatamente para isso: ajustar as soluções às suas necessidades. Este é um item muito complexo e não pode ser gerido sem planejamento. Não dá para ir a uma loja, comprar uma câmera e achar que todo o problema está resolvido. É preciso toda uma infra-estrutura voltada para isso. A resposta da segurança é diferente se ela é considerada de forma inteligente.

Design by Claudia Fischer • Powered by 3RStudio
Copyright © 2006 - Lowndes & Sons S.A. - Todos os direitos preservados