DEU CERTO
RECICLAGEM
Projeto conscientiza empregadas domésticas para a questão do lixo
 


O condomínio Wonderful Ocean Suítes, na Barra da Tijuca, está dando um exemplo de como uma iniciativa positiva pode estender-se e ampliar seus benefícios. Em 2005, depois de um alerta do morador Luiz Cláudio Malaquias, síndico de um dos blocos, o síndico geral Nelson Moreira Lourenço deu início a um projeto de coleta seletiva de lixo com um diferencial. Todo trabalho é centrado nos empregados do condomínio e, especialmente, nas empregadas domésticas das unidades. “Eu pratico a política do meio metro, que tem um efeito multiplicador; nela você faz por quem está perto e estes, por sua vez, divulgam a ação”, diz Malaquias, que acompanha trabalhos comunitários voltados para a educação sócio-ambiental na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Para Lourenço, essa é uma política que merece ser seguida. O síndico geral afirma que, além da satisfação de serem foco de atenção, os profissionais que atuam no condomínio estão mais conscientes e comprometidos. “E os ganhos não param por aí. De imediato, não tivemos mais problemas de reparo nas caixas coletoras e nos compactadores, eliminamos mau cheiro e, ainda, economizamos na despesa com uma empresa coletora de lixo, na compra de sacos de lixo e na manutenção. E, é claro, há a nossa pequena contribuição para poupar o meio ambiente. O volume de lixo diminuiu muito”, comemora.

O condomínio tem 490 unidades e, antes do projeto, a retirada do lixo exigia a contratação de um outro serviço de coleta, além dos 30 contêineres do serviço da Comlurb, em dias alternados.  

Domésticas como agentes multiplicadoras.

“O agente multiplicador da ação é a empregada doméstica. O morador acaba entrando naturalmente, mas eu espero muito menos dele porque quase todo mundo aqui tem uma empregada e são elas que mexem com o lixo”, explica Lourenço.

De quatro em quatro meses o condomínio realiza um sorteio, com distribuição de prêmios comprados com o dinheiro arrecadado com a venda do material reciclável. Nestas ocasiões, o síndico implementa ações de reforço, com palestras e apresentação de vídeos. “É sempre um dia muito alegre. As meninas ficam felizes”, afirma Lourenço, que faz questão de dizer que a administração não fica com um único centavo da renda. “Ao contrário, muitas vezes até completamos para poder comprar mais brindes. Nosso objetivo é a conscientização das pessoas para a questão da preservação do meio ambiente. A economia que alcançamos com isso veio de lambuja”, orgulha-se.

A renda alcançada com a venda do reciclável é, em média, de 600 reais por mês. Dinheiro que o síndico deixa juntar por três, quatro meses, a fim de ter um volume que permita realizar sempre uma premiação e uma festa maiores em agradecimento e estímulo às empregadas. “A reciclagem tem isso de bom; todos são beneficiados. Ganha a natureza, pois diminuímos um milionésimo de lixo que não está mais indo para um lixão; ganhamos no social, porque estamos ajudando as pessoas a ter essa mobilização, que acabam levando para as comunidades onde residem; e ainda fazemos uma economia, algo sempre difícil nos condomínios”, afirma Lourenço.

Entre os prêmios distribuídos estão itens como ferro de passar roupa, aparelhos de som, jogos de cama e mesa e ventiladores, além de cestas básicas.

Apoio total ao projeto.

Com um ano e meio de existência, o projeto já conta com uma adesão de algo em torno de 60% das unidades, número que só faz crescer. Para realizá-lo, o síndico conta com o apoio da ONG Reviverde, que tem algumas experiências bem-sucedidas em condomínios vizinhos. “Isso, com um diferencial. Aqui a adesão foi total, não houve sequer uma reação negativa entre os moradores”, afirma. O condomínio entrou de cabeça no projeto, colocou avisos em todas as portas de lixeiras e faixas com campanhas de valorização da coleta seletiva na entrada do condomínio e criou os eventos para as empregadas.

O morador Norberto Correia da Silva Júnior é um entusiasta do projeto e lamenta que nem todos participem: “Ele só trouxe coisas boas e a gente percebe que poderia ser muito melhor, até porque é uma iniciativa sem a qual, talvez, estas pessoas jamais parassem para pensar na questão do lixo”, considera o condômino.

“Como em qualquer condomínio temos aquelas pessoas que não colaboram com nada. Mas a conscientização para a preservação ambiental é uma questão de educação. Considero que estamos em fase de implantação. Ainda chegaremos lá”, prevê.

Para o processo de conscientização, tem pesado o fato de a ONG fazer palestras e participar de eventos sociais do condomínio. O síndico conta que a Reviverde chama a atenção para o desperdício de toneladas de papelão, de quilos e quilos de latas de alumínio, entre outros materiais recicláveis, que poderiam ser transformados e, no entanto, estão contribuindo para aumentar ainda mais os aterros já sobrecarregados. “A gente está a toda hora ouvindo sobre o problema dos lixões e sabemos que Gramacho não agüenta mais e que é cada dia mais difícil encontrar áreas para abrigar depósitos. Se podemos dar outro destino a estes materiais, porque não fazê-lo?”, reforça Lourenço.

Com inúmeras atividades sociais – Festa junina, Dia das Crianças, Natal e até Oktoberfest – os moradores já demonstram o quanto este movimento está dando certo. Na última confraternização, a Oktoberfest de 2006, foram consumidos 1.100 litros de chopp, mas ao final do evento não havia sequer um copo plástico no chão


DICAS QUE DÃO CERTO

O Wonderful tem sete anos e há quatro tem em Nelson Lourenço, morador desde a entrega do empreendimento, um síndico dedicado. “Os corretores afirmam que os imóveis aqui têm uma liquidez muito boa. É um condomínio grande, mas com cara de pequeno porque não tem bagunça e não é desorganizado. Além disso, o valor da taxa condominial é baixo, mesmo com diversos serviços”, orgulha-se.

Para tanto, o síndico diz ter investido sempre em duas frentes principais: a aceitação de suas idéias pelos moradores e o apoio dos funcionários. Ele conta com 38 empregados diretos, fora os terceirizados que fazem a limpeza e cuidam da piscina, e diz que deixar o cargo de síndico só o preocupa pela possibilidade de perda destes profissionais. “Comprometimento é tudo e hoje o condomínio tem um grupo muito envolvido, que é caprichoso no que faz. Temo perdê-los, pois uma administração começa a cair quando perde a equipe”.

Lourenço recomenda que os síndicos façam uma gestão “corpo a corpo”, especialmente junto às crianças. “Ao longo destes anos, nunca tivemos uma pichação, um elevador riscado, e tenho uma população de 3300 pessoas cadastradas. Não se trata de serem mais ou menos educadas; é uma questão de administração realmente ligada nas pessoas. Existem regras. Elas são para todo mundo e, então, chego junto. Se tiver que multar, multo, se tiver que orientar, oriento. Não é ser carrasco, mas não pode fazer o tipo "deixa quieto". Tem que ter iniciativa”, sugere. O condomínio tem um site na internet e as regras de funcionamento das áreas comuns estão lá para todo mundo ver.

  
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