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Condomínios empenham-se em combater mosquitos Aedes aegypti

Com o aumento dos casos de dengue, os condomínios estão se mobilizando para combater os focos de Aedes aegypti. Contratam empresas particulares ou compram equipamentos de fumacê e produtos químicos. A prevenção é feita individualmente ou de forma associada, como acontece nos prédios da rua Mario Covas Junior, na Barra da Tijuca, um dos lugares mais atingidos este ano pelo mosquito da dengue, assim como os demais bairros da Zona Oeste.

     

O síndico Manuel Bulhosa, e seus colegas dos demais cinco prédios da rua, que fica próxima ao Canal de Marapendi, investiram em equipamentos e organizaram uma rotina para a sua utilização. “Nós temos muito mosquito e nenhum respaldo do Município; por isso, tivemos de nos organizar para a prevenção”, conta.

O fumacê funciona diariamente há mais de um ano, com um intervalo de quatro a cinco horas entre eles. “Passar todos ao mesmo tempo provocaria uma poluição enorme”, explica.

Os cinco prédios ficam em uma rua sem saída e têm, em média, 200 apartamentos cada um. Os moradores, segundo o síndico, participam dos esforços para o combate ao mosquito reclamando. “Eles sofrem com o problema e acham que somos obrigados a resolve-lo. Vêm para o síndico reclamar e nós só podemos fazer o que está a nosso alcance. Compramos o equipamento, o produto considerado o mais adequado e aplicamos o fumacê. Mas e quanto ao que está fora de nosso alcance? Quem cuida dos terrenos abandonados da região, com lixo, mato alto e muito mosquito?”, pergunta.

  
Fumacê não é tudo

A população investe grandes esperanças na utilização do fumacê, mas, segundo especialistas, como o biólogo Márcio Mello, o fumacê sozinho não resolve. “O maior problema com o fumacê é que ele cria uma falsa ilusão de que o problema está resolvido e controlado, quando não está”, alerta. Mello explica que ele elimina um percentual dos mosquitos adultos (muito poucos entre aqueles que ainda estão em fase de desenvolvimento) que estiverem voando no momento da aplicação e algumas horas depois disso. Mas defende que o controle do mosquito, seja do Aedes, seja do pernilongo comum, tem de ser acompanhado de um trabalho de eliminação dos criadouros, o que pode ser feito através de medidas corretivas e medidas preventivas. “É essencial adotar essas duas ações em paralelo”, afirma.

Tecnicamente, o que chamamos de fumacê é uma aplicação espacial a ultra baixo volume, cujo equipamento de aplicação “quebra” o inseticida em milhões de gotas microscópicas, leves o suficiente para ficar flutuando no ar e serem levadas pelo vento. “A tecnologia se fundamenta na utilização de um volume baixo de inseticida, em alta concentração, em milhões de gotas que, por serem pequenas, flutuam no ar e são levadas a distâncias relativamente grandes, a fim de que nesta flutuação esbarrem com os mosquitos em vôo e os elimine. O tamanho médio das gotas, que é de aproximadamente 20 m (micra), é a base para se aferir se o equipamento está funcionando a contento ou não. Isto porque, se a gota for grande, ao invés de ficar flutuando, alguns segundos depois de expelida pelo equipamento ela estará no chão, sendo capaz de eliminar baratas, mas não mosquitos”, explica.

Mello ressalta, ainda, que o fumacê trabalha com um produto químico tóxico que tem baixa toxidade para mamíferos, mas elimina vários tipos de insetos. Elimina mosquitos, mas também abelhas, borboletas, besouros e outros que são importantes para a polinização da flora e para a cadeia alimentar. Por isso, o biólogo acredita que, quanto menos fumacê, melhor e, por isso, aconselha os síndicos a, no lugar de investirem em um equipamento próprio, buscarem uma empresa que ofereça um programa de controle de mosquito que englobe também um tratamento focal e uma inspeção regular da área, bem como forneça orientação aos moradores sobre medidas preventivas.
  

  
Problema tornou-se endêmico

Em 2004, 101 mil brasileiros contraíram a dengue e oito morreram por causa dela. Em 2005, esse número subiu para 184 mil, com 43 óbitos. O número de mortes só não foi maior do que os 150 verificados em 2002, mas supera o total de 38 mortes em todo o ano de 2003, até então o segundo maior desde 1986.

  

  
  
Solução somente com atuação conjunta

Os especialistas garantem que a melhor solução é a educação sanitária. Fazer com que as pessoas entendam que sem a participação delas o problema vai ser eterno e grave. Partindo deste princípio, o Ministério da Saúde adotou algumas estratégias. Está distribuindo um biolarvicida, o Bactivec, que deve ser aplicado pela própria população. Também está empreendendo ações educativas, com peças de teatro, exibição de vídeos e distribuição de folhetos, em locais de grande movimento, como a Rodoviária Novo Rio.

Informações para a prevenção também estão sendo passadas diretamente aos domicílios localizados nas áreas onde a infestação do mosquito é maior, através de telefone. A mensagem eletrônica lembra a população de medidas simples para evitar a proliferação do mosquito. O domicílio só é retirado do cadastro depois que a ligação é atendida.

O larvicida pode ser obtido gratuitamente por associações de moradores e síndicos de prédios e condomínios, bastando, para isso, fazer uma solicitação pelo telefone 2299-9754 ao setor de Controle de Vetores do estado. O produto deve ser aplicado em gotas – 20 gotas para cada 50 litros de água – e deve ser mantido em local fresco, longe de crianças e ao abrigo do sol.

 

   
Características do mosquito dificultam seu combate

A maior dificuldade no combate ao mosquito transmissor da dengue são os seus hábitos intradomiciliares. “Em uma comparação com os pernilongos, observamos que este é encontrado em água parada suja, em ralos de galerias pluviais, em valas de esgotos em nos vários rios poluídos. O Aedes aegypti não se comporta assim: praticamente 100% de seus criadouros são depósitos artificiais. Ele se adaptou de tal forma ao convívio com o homem que praticamente não coloca os ovos em depósitos naturais”, afirma o biólogo Márcio Mello.

O Aedes aegypti não é originário do Brasil e já foi erradicado no passado. Mas esta erradicação aconteceu em circunstâncias completamente diferentes das de hoje. “Naquela ocasião, o Rio contava com dez mil agentes em uma cidade com uma população de 200 mil habitantes. O número de pessoas combatendo a doença representava 5% da população. Hoje, contando 6 milhões de habitantes, o número de agentes é muito menor. Ora, temos uma carga tributária de primeiro mundo e já não agüentamos mais pagar impostos. Então, se queremos ter o controle desse mosquito, ou nos dispomos a pagar um exército para entrar dentro de nossas próprias casas e evitar atitudes que favoreçam o surgimento de criadouros, ou cada um de nós assume que tem que fazer sua parte. Só acho que esta segunda alternativa é mais barata”, defende.

Outra característica importante deste inseto é que seus ovos podem permanecer por mais de um ano à espera das melhores condições de eclodir. “Diferentemente de outras espécies, o Aedes não coloca seus ovos diretamente na água, mas na superfície do depósito, acima da linha d’água. Então, quando chove e a água atinge o nível onde estão os ovos, eles eclodem. E o pior: eles podem viver até 450 dias em condições secas. Ou seja: peguemos um pneu, que reúne condições favoráveis de sombreamento e umidade para a colocação dos ovos do Aedes. Se ele estiver em um lugar seco e, daqui a um ano pegar uma chuva e encher de água, os ovos irão eclodir e se transformarão em larva. A larva passará por todos processos dela, ao todo quatro estágios, se transformará em pupa. Da pupa emergirá o mosquito adulto. Isso mais de um ano depois de os ovos terem sido postos”, conclui.
  


  
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