FERRAMENTAS DA COMUNICAÇÃO A SERVIÇO DA BOA ADMINISTRAÇÃO

Aqueles que imaginam que administrar um condomínio é uma tarefa muito complexa precisam conhecer a história do Condomínio do Edifício Patrícia, localizado no Méier, e de seu síndico, o Sr. José Trindade Brito. Ele, que nunca havia pensado em encarar um “desafio” como esse, decidiu se candidatar ao cargo ao perceber que o prédio, com 80 apartamentos e cerca de 450 moradores, estava bastante desgastado pela falta de manutenção. Mas como um jornalista aposentado e sem experiência na área condominial poderia assumir a responsabilidade de dirigir um condomínio? A missão ficou bem fácil quando ele resolveu utilizar a principal ferramenta de sua profissão: a informação.

  
A primeira inovação introduzida pelo Sr. José Brito foi a distribuição de um informativo mensal aos condôminos. No “Informe Patrícia”, elaborado por ele, o espaço da primeira página serve para conscientizar os moradores da importância de assumir uma nova postura diante do prédio. E, para isso, ele faz uso até de fábulas e parábolas, como a do “sapo fervido”, que circulou numa das primeiras edições. Conta a parábola que, se um sapo for colocado num recipiente cuja água é gradativamente aquecida, não reagirá ao aumento gradual da temperatura e fatalmente morrerá quando a água ferver. Mas, se for colocado numa panela com água já fervente, saltará imediatamente para fora. Aplicando a história à realidade do condomínio, o Síndico descobriu que os moradores devem estar constantemente informados de tudo o que acontece no prédio, ou seja, precisam ser “colocados em água quente” para que não “adormeçam” para os problemas e deixem que eles se tornem irreversíveis. Devido ao “Informe Patrícia”, ele já recebeu alguns telefonemas de proprietários que moram fora do condomínio, em agradecimento ao envio de informações sobre o prédio, que nunca haviam recebido até então.
  

Com o informativo, circula a principal característica que uma administração deve possuir, na opinião do Síndico: a transparência. Para o Sr. José Brito, em tempos de incerteza e de desconfiança, em que pouco se confia nos governantes e no próximo, torna-se imperioso ser o mais transparente possível, sob pena de ser colocado no rol dos suspeitos. Periodicamente ele faz reuniões com o Conselho Fiscal, abertas a todos os moradores. As mesmas satisfações dadas aos Conselheiros são repassadas aos condôminos, e o Síndico incentiva todos a consultar os documentos do prédio. “Em muitos casos, a pessoa não vem olhar os documentos porque o síndico pode pensar que ela está desconfiando dele. Mas os documentos do prédio são informações que todo condômino tem de analisar porque se trata de seu dinheiro. Informação pra mim é a base”. Esta preocupação se reflete na rigorosa prestação de contas, feita antes de cada assembléia e também distribuída aos condôminos, em conformidade com o que manda a convenção do condomínio.

  
Assim que foi eleito, o Síndico fez um relatório do estado físico do prédio e divulgou aos moradores. “Foi um impacto porque muitas pessoas não conheciam os problemas, e a falta de manutenção é grave”. As infiltrações na garagem, que danificavam os veículos e já causavam contendas judiciais, indicavam alguns dos reparos necessários. Mas como ele poderia contratar os serviços se nunca havia feito obras nem em sua própria residência? Mais uma vez recorreu à informação, desta vez buscando-a na Internet, nas revistas especializadas, nos relatos dos encontros de síndicos e até nas seções de cartas dos jornais, cujos recortes ele guarda para eventuais consultas. Com as dicas obtidas, solicitou vários orçamentos, muitos dos quais absurdos, o que o levou a resumir as principais sugestões dos engenheiros e pedir novas cotações segundo a necessidade do prédio. Obras aprovadas em assembléia, infiltrações sanadas. Resolvido também o problema do desprendimento das pastilhas, que chegou a causar a interdição da piscina em pleno verão, à que o Síndico chama de uma medida “antipática” de sua parte, mas justifica: “As pastilhas estavam se desprendendo e trazendo risco; então, resolvi trazer para mim a responsabilidade”.

E como a comunicação é uma via de mão dupla, não basta só informar os condôminos; é fundamental ouvi-los. Por isso, mais uma ferramenta de comunicação entrou em cena: a pesquisa de opinião. “Aqui, eu faço a pesquisa e dou o retorno ao morador”, ele conta, explicando que utilizou essa metodologia para decidir sobre a instalação de sensores de presença. Com os estudos sobre a economia de energia elétrica em mãos, partiu para a coleta das opiniões dos condôminos por entender que a pesquisa respalda o síndico ao apontar qual é o desejo da maioria, pois é em favor da coletividade que o administrador deve atuar.

Além da atenção dada aos problemas que ofereciam risco para os moradores, os funcionários também foram beneficiados por uma nova orientação dada à política de pessoal. A atual gestão foi a primeira a oferecer cursos de treinamento aos empregados, como os de formação de porteiros, de combate a incêndios e de primeiros socorros. Este último, realizado há aproximadamente três meses, já se revelou útil em, pelo menos, cinco ocasiões em que os empregados puseram em prática o que aprenderam. “Eu senti que houve uma valorização, um aumento da auto-estima deles. Todos nós temos necessidades básicas de dinheiro e segurança, mas também de realização”.

E para os empregados, não apenas os cursos foram a novidade. Consciente das irregularidades trabalhistas em que o Condomínio poderia incorrer, José Brito promoveu a reformulação das suas funções, que estavam desorganizadas, definindo objetivamente quais eram as atribuições de cada um deles e eliminando situações em que o porteiro-chefe executava parte da limpeza, por exemplo. Também contratou um encarregado de manutenção, que cuida de pequenos reparos no prédio e nos apartamentos, quando o problema tem origem nas áreas comuns. Com isso, reduziu os custos das contratações isoladas destes serviços, pois os profissionais sempre cobravam levando em conta o tamanho do edifício e não o serviço a ser executado.

Hoje o Síndico José Brito chega ao terceiro mandato, para o qual foi eleito por unanimidade, garantindo que a postura dos moradores em relação ao prédio é outra, mais tendente à valorização do patrimônio, que é de todos. Quem achava que tinha assumido um desafio, agora costuma brincar dizendo “síndico: um dia você vai ser um”, com a modéstia de afirmar que nenhuma das idéias aplicadas no edifício é original, já que todas foram frutos de pesquisas e troca de informações. Informações que contribuem para afastar a realidade do “sapo fervido” e para manter sempre vivas as questões imprescindíveis à qualidade de vida no condomínio.
  

   
DICAS PARA QUEM JÁ É OU UM DIA SERÁ SÍNDICO, SEGUNDO O SR. JOSÉ BRITO:


- Comunicação e diálogo com os condôminos devem permear todos os momentos da administração.
- Manter uma política constante de conscientização dos moradores.
- Manter ações voltadas à valorização dos funcionários.
- Ser imparcial e agir coletivamente, tendo a consciência de que não é possível agradar a todos e que nem todas as medidas serão compreendidas pelos condôminos.
- Cuidar das finanças do condomínio como se cuidasse do próprio orçamento familiar, mantendo o equilíbrio entre receitas e despesas.
- Servir de exemplo e manter coerência entre palavras e atitudes, agindo da forma mais correta possível e não indo de encontro às normas do condomínio.

 
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