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Recentemente, um
jornal de grande circulação
publicou uma matéria de
página inteira destacando
o que chamou de “arquitetura
antimendigo” e “soluções
criativas” para afastar
moradores de rua. Ela se referia
mais especificamente à
instalação de chuveirinhos
ou tubos com furinhos ligados
a uma mangueira sob marquises
de prédios da Zona Sul,
um dispositivo que mantém
a calçada molhada e, assim,
evita que o local seja ocupado
pela população de
rua. A adoção deste
tipo de artifícios não
é novidade, assim como
a polêmica que causa.
Quem
tem experiência com a população
em situação de rua
chama a atenção
para a ineficiência destas
ações. “No
final da década de 90,
a prefeitura resolveu tornar a
rua um lugar insuportável
para viver: praças foram
cercadas, vários equipamentos
foram instalados e isso não
resolveu o problema. Ainda hoje
se trava este tipo de batalha.
Isso mudou o quê?”,
pergunta Tainá, coordenadora
do Centro de Formação
do Instituto Brasileiros de Inovações
em Saúde Social (IBISS). |
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“A questão da arquitetura
da exclusão ou antimendigo é
antiga e traz na sua concepção
um forte ingrediente discriminatório.
A questão é que a sociedade,
ao se perguntar como pode resolver ou
minimizar a realidade destas pessoas
que estão próximas, sempre
dão como resposta a expulsão
e o distanciamento do problema e nunca
uma tentativa de resolvê-lo. Daí
vem as favelas, os morros, as invasões.
Enfim, é uma violência
que gera mais violência”,
afirma Alderon Costa, jornalista, membro
da diretoria da Organização
Civil de Ação Social (Ocas).
Na
outra ponta, um dos primeiros a utilizar
as mangueiras pinga-pinga em Copacabana
diz que conseguiu manter os indigentes
longe de sua calçada, mas conta
que passou por uma verdadeira via-crucis
por isto. “No início, houve
reação com xingamentos,
gritaria, pedras jogadas na portaria.
Uma emissora de TV esteve aqui e na
matéria editada disse que tínhamos
água no lugar de sangue correndo
em nossas veias”, recorda o síndico,
que prefere ser identificado apenas
pelo primeiro nome, Bernardo, pois considera
que já se expôs demais.
Foram seis meses insistindo até
que ninguém mais ocupou a calçada
para dormir ou fazer algazarra. “A
idéia do pinga-pinga surgiu como
uma opção menos terrível
do que a de jogar bombas, espalhar creolina,
dar tiros ou outros meios que nos foram
sugeridos para resolver o problema,
já que o poder público
nada fez. Chegamos a contar em um único
dia mais de 40 pessoas dormindo em nossa
portaria”, argumenta.
Quando
a realidade bate à porta
Mas
a experiência fez com que Bernardo
passasse a ver a situação
com outros olhos. “Ao abordar
um senhor de aparência distinta
para avisar que não deveria se
deitar na frente do prédio porque
iria se molhar, perguntei porque estava
ali e ele me contou uma história
tão violenta que mudou a minha
compreensão dos fatos. Há
um drama social muito profundo que precisa
ser tratado de uma maneira mais pró-ativa.
As autoridades, juntamente com a população,
precisam tentar dar uma solução
para as pessoas que estão em
desgraça”, afirma.
José
Marcos Monteiro dos Santos está
nesta situação. Hoje morador
de um abrigo da prefeitura em Benfica,
foi parar nas ruas depois de ter saído
de Belém do Pará para
vir morar com a mãe no Rio, mas
encontrou-a morta. “Não
nos víamos há muitos anos
e ela estava casada com um desconhecido.
Fiquei sem ter onde morar aqui e sem
recursos para voltar para minha terra”,
conta. Ele afirma que estar no abrigo
é como estar na rua, pois é
quase impossível manter-se em
um espaço exíguo, cheio
de gente de todo tipo, sem nenhuma privacidade.
O
abrigo de Benfica mantém 400
pessoas em quatro quartos com 100 beliches
cada. Hoje José está começando
a se estruturar, depois de procurar
a Ocas, que desenvolve um projeto destinado
a gerar renda para a população
em situação de rua. “Já
consegui ganhar em um único dia
60 reais com o trabalho, mas ainda não
é suficiente para pagar um aluguel”,
diz.
Busca
por soluções mais efetivas
Atualmente,
o síndico Bernardo participa
ativamente da Sociedade Amigos de Copacabana
e é um cidadão engajado
na busca de soluções para
o bairro. “Copacabana está
virando um lixo: paredes viram banheiros
públicos abertos, há prostituição
e tráfico em demasia. Na calçada
da Djalma Urich está se formando
uma favela e ninguém vê
isso. Na Sociedade Amigos de Copacabana,
estamos conversando, nos reunindo com
representantes do poder público
e tentando encontrar soluções
que mudem esta realidade”, diz.
O
presidente da Sociedade Amigos de Copacabana,
Horácio Magalhães, organiza
encontros para discutir ações
mais amplas vindas do conjunto da sociedade,
mas entende o surgimento de alternativas
do tipo “arquitetura antimendigo”:
“A população de
rua é um problema crônico
e a mendicância aumenta a sensação
de insegurança. Aliado a isto,
os cidadãos não conseguem
ver o que o poder público e a
sociedade civil organizada estão
fazendo para minimizar o problema”,
analisa. Para Magalhães, falta
comunicação, articulação
entre os diversos órgãos.
“Isto faz com que as ações
não sejam percebidas, ao contrário
da população de rua, que,
pelo fato de ser flutuante, parece ser
maior do que é na realidade”,
afirma. “Sequer podemos dizer
que a prefeitura não atue. É
que, por ser um problema social, ele
não se resolve por decreto. E
sem integração é
cada um enxugando o seu gelo. É
preciso uma ação multidisciplinar,
multigovernamental, que envolva toda
a sociedade”, continua.
Pode
não parecer, mas muito está
sendo feito para a reinserção
daqueles que vivem em situação
de rua, como afirma Magalhães.
Entre os diferentes setores da sociedade
que vêm trabalhando em prol dessa
reinserção estão
o Fundo Municipal de Assistência
Social (Fundo Rio), a Organização
Civil de Ação Social (Ocas),
o Instituto Brasileiro de Inovações
em Saúde Social (IBISS), associações
de moradores (como a Sociedade Amigos
de Copacabana e a Federação
das Industrias) e uma pequena legião
de cidadãos comuns, cada qual
com seu foco de atuação
e concentrando esforços em determinados
pontos da questão. Em comum,
eles têm a campanha "Não
dê esmolas" e a negação
de alternativas imediatistas, como o
recolhimento ou a simples transferência
desta população de um
lugar para o outro.
Não
dar esmolas
A
Prefeitura do Rio, através da
Secretaria Municipal de Assistência
Social, aconselha a população
a não dar esmolas. “O cidadão
que tiver interesse em fazer qualquer
tipo de doação deve ligar
para a Ouvidoria da SMAS, no telefone
3973-3800”.
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Não
dar esmolas é também
o tema de uma campanha da Sociedade
Amigos de Copacabana. “A população
fica com pena, pensa que está
ajudando, mas não vê
que, além de contribuir para
que estes indivíduos não
saiam das ruas, está atrapalhando
as ações do poder
público”, afirma Horácio
Magalhães. |
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A
Firjan propõe que as esmolas
sejam substituídas por doações
feitas a organizações
que desenvolvem projetos sérios
destinados a crianças e jovens
em situação de risco,
através do FIA. A Federação
mantém o número de telefone
para ligações gratuitas
0800-231231 e o site do www.firjan.org.br
para que os interessados possam obter
mais informações sobre
como proceder para contribuir com o
FIA.
“Pessoalmente, não dou
esmolas nem compro nada que é
vendido por crianças nas ruas.
Aconselho o mesmo a todos. Se quiser
realmente contribuir, procure uma organização
que trabalhe com este grupo-alvo”,
afirma Tiana, coordenadora do Centro
de Formação do IBISS.
Os
beneficiários da Ocas vendem
as revistas em diversos pontos da cidade
e da Zona Sul, como na porta dos cines
Estação Botafogo, Odeon
e Paissandu e na Casa de Cultura Lauro
Alvim. José Marcos trabalha em
frente ao Centro Cultural Banco do Brasil
e no Largo do Teles, ambos no centro.
“Trabalho e renda representam
auto-estima, dignidade e uma oportunidade
de iniciar sua conquista da cidadania.
Pensar que aquelas pessoas que estão
dormindo na sua calçada ainda
têm jeito é um bom começo.
Depois é só encaminhá-las
para projetos com propostas inclusivas
dentro de um método que incentive
a autonomia”, aconselha Alderon,
da Ocas.
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