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Lowndes Report
- O que a levou a escolher
esse tema?
Roberta
de Mello Correa
- Minha pesquisa teve início
em 2000, quando ainda concluía
a graduação
em ciências sociais.
Na ocasião, eu já
trabalhava no Núcleo
Fluminense de Estudos e
Pesquisa da UFF e soube
através de uma parceria
com centros de estudos da
França que naquele
país estavam investigando
as conseqüências
da entrada de equipamentos
de segurança em residências
multifamiliares. Lá
estes estavam substituindo
os porteiros. Sempre morei
em casa e não conhecia
muito essa realidade, mas
começava a ver com
uma freqüência
cada vez maior notícias
sobre assaltos a prédios
que invariavelmente citavam
o porteiro, em muitos casos,
como os principais responsáveis,
visto que os edifícios
contavam com equipamentos
de segurança. Fiquei
curiosa.
Lowndes
Report -
O título remete ao
tema tratado por Foucault
em seu livro "Vigiar
e Punir", que estuda
os sistemas de controle
a partir de práticas
existentes em presídios
e hospícios. Que
relações você
estabeleceu entre estes
locais e os condomínios?
Roberta
de Mello Correa
- Não é que
haja uma semelhança
entre estes locais. É
a questão da normatização
das ações
dos indivíduos através
de uma vigilância
que é sabida. É
o princípio do panoptismo.
Um exemplo simples é
a utilização
das câmeras como inibidoras
de condutas ilícitas
e/ou reprováveis.
Em minhas observações
- toda a pesquisa foi realizada
com observação
participativa, em que eu
ia até os condomínios
e passava boa parte do dia
na portaria, conversando
com os porteiros e acompanhando
sua prática - vi
que estes equipamentos eram
utilizados para o controle
da vida no interior dos
prédios e não
para a vigilância
sobre a entrada ou não
de estranhos. Por um ano,
seis meses seguidos de um
afastamento de um ano e
o retorno do acompanhamento
por mais seis meses, nunca
fui barrada em prédio
nenhum. Mas conheci casos
interessantes, como o de
condôminos em que
os circuitos de TV foram
transformados em "big
brothers" particulares,
meios para se saber tudo
o que se passa nas dependências
dos edifícios.
Lowndes
Report -
E o que leva a essa distorção?
Isso é consciente?
Roberta
de Mello Correa
- Não, de modo algum.
Acompanhei alguns porteiros
durante sua participação
em cursos de segurança
predial e os via rir das
situações
mostradas como erradas.
Conversando com eles a respeito,
observei que estavam completamente
desconectados da questão
da segurança e que
aquelas cenas eram comuns
em sua prática diária,
tidas sempre como corretas.
Pode se entender o problema
com a resposta deles à
pergunta sobre os benefícios
das câmeras. Elas
se concentram na melhoria
do atendimento que podem
prestar aos moradores a
partir de sua utilização:
"Com elas posso ver
quando a senhora do 502
está descendo e abrir
mais rapidamente a porta
do elevador. Ela tem uma
deficiência e precisa
de ajuda", ou: "Sei
quem está chegando
ou saindo, quem está
no prédio, se há
crianças no play
e se são as que precisam
ser vigiadas para não
fazer besteira". Eles
não entendem a função
da segurança como
sendo deles. Se perguntados
sobre qual é o seu
papel, a resposta é
a mesma nos mais diferentes
condomínios: atender
bem aos moradores. Citam
como suas principais qualidades
o ser educado, gentil e
prestativo. Devem receber
bem: são recepcionistas,
representantes do prédio.
Um deles me disse uma frase
que é emblemática:
"O porteiro é
o cartão postal do
prédio", e o
que é um cartão
postal?
Lowndes
Report -
A percepção
dos porteiros é de
que eles devem receber bem
e não barrar. É
isso? E quanto à
vigilância sobre os
moradores?
Roberta
de Mello Correa
- Os porteiros têm
orgulho e se sentem prestigiados
quando reconhecidos e elogiados
pelos moradores. Os mais
antigos contam com satisfação
que viram nascer filhos
e netos e que todos gostam
muito dele. Assemelha-se
um pouco ao comportamento
das empregadas domésticas,
que de uma certa forma sentem-se
inseridas no mundo dos patrões,
tão diferentes de
suas realidades sócio-econômicas.
Eles não querem ficar
mal com os moradores, e
é assim que o aparato
de vigilância ganha
um outro caráter.
Saber sobre a vida dos moradores
os torna "chegados"
a eles, os insere naquele
mundo. É uma percepção
muito possível dentro
dessas observações
feitas.
Lowndes
Report -
E quanto aos moradores?
Roberta
de Mello Correa
- Os policiais que ministram
os cursos de segurança
afirmam que os moradores,
os mesmos que gritam por
medidas e regras em prol
da segurança, são
os primeiros a se recusar
a obedecê-las. E que,
por isso, eles também
deveriam acompanhar os cursos.
Os moradores, como os porteiros,
têm uma visão
que em muito difere deste
novo perfil que se pretende
dar a esses empregados.
Eles querem alguém
em quem possam confiar a
chave de casa, os filhos,
com quem possam contar em
um momento de emergência
ou para quebrar um galho.
Em condomínios que
adotaram o serviço
de segurança, com
pessoal terceirizado na
portaria, os moradores se
sentem desconfortáveis.
Falam sem entusiasmo que
é necessário
e se queixam da frieza e
da impessoalidade que este
tipo de situação
impõe.
Lowndes
Report -
Com base em seu estudo,
a segurança oferecida
pelas novas tecnologias
então é fictícia,
assim como os cursos de
segurança para os
empregados de condomínio
têm eficácia
questionável. Mas
já há um projeto
de lei para tornar os cursos
obrigatórios e não
há sinal de que os
porteiros deixarão
de ser responsabilizados
toda a vez que um prédio
for assaltado. Qual é
a sua opinião sobre
isso?
Roberta
de Mello Correa
- Toda tecnologia de segurança,
assim como muitas das iniciativas
públicas para a questão,
tem a clara função
de dar uma sensação
de segurança. A forma
como são assimilados
pelas pessoas é que,
de fato, garante sua eficácia.
Não pode ser algo
alheio à vida cotidiana,
artificial, senão
o resultado será
igualmente artificial. Sobre
os cursos, antes da obrigatoriedade,
penso que se deve pensar
no formato que aí
está: o de colocar
os porteiros sentados por
quatro horas para ver a
fita de vídeo e ouvir
uma lista infinita de regras,
sem considerar a força
da identidade profissional
desses indivíduos
e o quanto ela está
enraizada no imaginário
das pessoas. Falta trabalhar
a conscientização
de que o problema da segurança
é de todos, inclusive
dos porteiros e moradores.
Isso porque, na fala destes,
pode-se ver claramente que
a responsabilização,
imputada especialmente aos
porteiros, é algo
externo a eles. E a verdade
é que estão
certos. A responsabilidade
é de todo mundo.
Penso que é uma outra
relação com
a questão que precisa
ser estabelecida. |