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Lowndes Report -Qual o papel do ISP na
política de segurança do estado
do Rio de Janeiro?
Ana
Paula Miranda - O Instituto de Segurança
Pública - RIOSEGURANÇA (ISP), autarquia
vinculada à Secretaria de Segurança
Pública, planeja a política de Segurança
Pública do Estado, promove o aprimoramento
profissional dos policiais, elabora o planejamento
da Força Policial, concilia as doutrinas
e promove a integração das ações
das Polícias Civil e Militar, avalia o
desempenho das corporações e dos
seus integrantes, compatibiliza os currículos
das escolas e academias das polícias e
desenvolve e coordena estudos e pesquisas sobre
segurança pública.
Ele também articula-se com a comunidade
acadêmica e a sociedade civil, assim como
com as esferas governamentais, buscando parcerias
em programas comunitários de interesse
da segurança pública. Isso é
feito a partir das Áreas Integradas de
Segurança Pública (AISPs), que são
de responsabilidade conjunta das duas polícias,
e dos Conselhos Comunitários, que permitem
articulações com associações
de moradores, associações comerciais,
bem como com entidades e instituições
as mais diversas, inclusive, com o Ministério
Público.
Outra função importante do ISP é
a análise dos dados estatísticos
oficiais, que é realizada a partir dos
registros de ocorrência policial que orientam
as decisões para a área de Segurança
Pública.
Para isso, o ISP conta com pesquisadores das mais
variadas formações, cientistas sociais,
historiadores, estatísticos, geógrafos
para trabalhar com geoprocessamento, mestres e
doutores. Conta também com profissionais
do mais alto gabarito, inclusive com experiência
internacional e capacitados para trabalhar com
análise criminal, um conceito de planejamento
que, embora seja novo no Brasil, vem sendo amplamente
aplicado em outros países.
Lowndes
Report
-
Como todo esse conhecimento pode ajudar a diminuir
os índices de criminalidade?
Ana
Paula Miranda
- Incentivamos o registro de ocorrência
policial porque eles são a nossa base de
dados, informação essencial para
tornar mais eficiente as estratégias de
segurança. As pessoas muitas vezes reclamam
que o estado não intervem em determinadas
coisas, mas, se não há registro,
não há como planejar intervenções.
São os registros que permitem uma melhor
noção do que acontece. Por exemplo,
roubo de veículos é uma estatística
muito confiável porque, sem o registro,
não se pode utilizar o seguro do automóvel.
Então a gente tem quase que a totalidade
do universo de casos, o que permite programar
melhor as ações policiais para essa
finalidade.
Lowndes
Report
- Essa programação é feita
pelo ISP?
Ana
Paula Miranda
- Não, isso é de responsabilidade
da polícia militar e da civil, mas eles
tomam por base as nossas estatísticas.
O policiamento é priorizado onde há
um número maior de registros.
Lowndes
Report
- E quanto ao roubo a residências? As estatísticas
que comparam dados dos últimos seis meses
com igual período do ano passado demonstram
uma queda de 4,4%, mas todos os dias vemos novos
casos nos jornais.
Ana
Paula Miranda
- O roubo a residências é um ótimo
exemplo do quanto é difícil trabalhar
sem dados, pois é muito comum as pessoas
se recusarem a registrar a ocorrência. Para
piorar, ele não é como o roubo ao
transeunte que tem uma visibilidade maior. Então,
é preciso que haja o registro porque, com
ele, é possível mapear quais são
as áreas que estão sendo escolhidas
pelos criminosos e, assim, traçar ações
preventivas para esses locais. Os dados também
podem ajudar as polícias a investigar as
quadrilhas que atuam nesse tipo de roubo.
Lowndes
Report
- Não é um trabalho lento demais
para a situação que enfrentamos?
Ana
Paula Miranda
- A gente quer que o novo funcione rápido.
A gestão autoritária é muito
rápida porque alguém decide e acabou,
mas em regimes democráticos a coisa é
diferente. A democracia dá trabalho: você
tem que ouvir o outro e convencê-lo da importância
de sua participação na reflexão
sobre os problemas e também na busca e
na implantação de solução
para o conjunto da sociedade e não para
um grupo ou para outro. Os moradores da Zona Sul,
por exemplo, são os que mais reclamam,
mas são os menos dispostos a participar.
O cidadão quer reclamar. “Ah, eu
quero policiamento”. Em nenhum lugar do
mundo você tem policia em toda porta. O
ideal de segurança é quando você
pode deixar a porta aberta e ninguém tem
medo de nada. Esse seria o lugar mais seguro do
mundo, e aquele em que existe grades por todas
as partes. Mas a preocupação com
a segurança tem crescido no mundo inteiro
e a gente não pode desqualificar o medo
das pessoas, até porque o medo é
real, a possibilidade existe. O importante é
que a população participe.
Lowndes
Report
- E que tipo de participação se
espera da população, além
de registrar os crimes ocorridos?
Ana
Paula Miranda-
Uma coisa que auxilia muito e que muitas vezes
não é providenciada por varias razões
é a questão da iluminação,
tanto a pública como a dos próprios
condomínios, assim como a busca por orientações
de segurança para os empregados dos prédios
e, também, para os moradores. Por exemplo,
se o condomínio resolve instalar câmeras
de segurança, onde instalam? No elevador.
Para quê? Para controlar os moradores porque
tem muitas crianças e adolescentes no prédio
e eles estragam os equipamentos. Com orientação,
elas seriam colocadas na entrada para prevenir
o perigo que vem de fora.
Lowndes
Report
- Há um projeto de lei em tramitação
que visa obrigar os porteiros a fazer cursos de
segurança. Isso ajuda?
Ana
Paula Miranda
- Os cursos para síndicos e porteiros podem
ser muito bons se a gente pensar em como aplicá-los;
caso contrário, podem acabar representando
apenas mais um custo. É necessário
que tais cursos sejam bem feitos e que a participação
seja voluntária. Não dá para
ser obrigatório, ir como um castigo, como
muitas vezes acontece. Isso não dá
resultado. Tem que ser uma coisa planejada. Em
muitos casos, basta orientar bem os empregados.
O Instituto, na gestão passada, desenvolveu
um curso em parceria com o Secovi-RJ e está
disposto a sentar com os condomínios e
ver quais são as suas demandas, a exemplo
do que já fizemos com outros segmentos.
Recentemente, montamos um seminário sobre
roubo de veículo de carga que teve resultados
positivos.
Há outras iniciativas que fazem a diferença.
Em São Francisco (Niterói), por
exemplo, onde se tem uma atuação
comunitária forte junto aos batalhões,
foi feita uma parceria para criar comunicações
instantâneas direto com a polícia.
Isso está acontecendo também no
Leblon. São muitas formas de participar
e os Conselhos Comunitários estão
aí para receber e ouvir os representantes
das comunidades.
Lowndes
Report-
As ações do ISP objetivam soluções
efetivas, mas elas não estariam em um nível
que talvez não atinja as expectativas da
população que clama por mais segurança
com urgência?
Ana
Paula Miranda
- Novamente, não. Os investimentos estão
sendo feitos e há um desejo de direcionar
bem esses recursos. Há uma preocupação
de verificar, controlar. Por exemplo, as áreas
que mais receberam viaturas foram as que estavam
mais críticas e já estão
sendo feitos relatórios para ver se melhoraram
ou não.
É claro que as respostas não são
muito rápidas. As pessoas, às vezes,
esperam respostas rápidas para questões
que são muito complexas. Com a maior taxa
de desemprego dos últimos anos, não
se pode achar que a gente vai resolver os problemas
da noite para o dia. Mas é verdade também
que, se a gente acabar com o problema do desemprego,
a gente não acaba com a criminalidade.
Porque o crime não acaba, nem matando o
criminoso. Há um discurso na sociedade
de que, se você matar o criminoso, acaba-se
com o crime. Isso não é verdade.
Temos tem que lidar com os fatos, cruzar dados,
observar quais são as áreas mais
criticas, as que não eram e se tornaram,
as que eram e deixaram de ser, que tipo de policiamento
implementado está funcionando.
Por exemplo, como resultado a um programa que
a polícia militar aplicou em ônibus
urbanos, reduziu-se o número de assaltos
em ônibus, e a gente começou a notar
um aumento de casos nas rodovias. Então
entramos em contato com a Secretaria e esta com
a polícia rodoviária federal.
LR
- Como as polícias estão reagindo
ao trabalho do ISP e dos Conselhos Comunitários?
Ana
Paula Miranda
- Isso é extremamente inovador. Não
sou policial, mas pesquiso essa área há
muitos anos e quem está nela sabe que delegados
e comandantes não se falavam. Há
aí dois movimentos: um de resistência
explícita, em que as pessoas se negam a
cooperar. Essa cooperação tem sido
negociada internamente, muitas vezes na base da
pressão, mostrando-se que é um projeto
de governo. A gente não pode negar isso,
tanto é que há áreas em que
os conselhos comunitários não funcionam
e há outras em que esse projeto foi totalmente
incorporado pelos delegados e comandantes. Nessas,
eles já perceberam os benefícios
de poder sentar junto para planejar. Pensam: "já
que os seus recursos são poucos e os meus
também e nossos problemas são os
mesmos; vamos unir forças para facilitar
a nossa vida".
E, depois, com as reuniões dos Conselhos,
tanto a população como a polícia
estão tendo a oportunidade de ver a questão
com outros olhos. Isso porque o que temos de resultado
quanto aos temas que mais afligem as pessoas na
área de segurança não se
refere às atribuições da
polícia. Embora estejam relacionados ao
medo, não estão ligados à
ação direta dos policiais. As queixas
e solicitações para a solução
da violência nas comunidades geralmente
se referem à má iluminação,
a mato alto, engarrafamentos. A iluminação
pública é o fator mais citado pela
população para o aumento da insegurança
nas pessoas.
É por isso que segurança não
pode se restringir à ação
policial. Nunca uma política de segurança
pública poderá dar certo sem a participação
da sociedade. Estou otimista com relação
à segurança no estado do Rio porque
hoje vivemos uma situação difícil,
mas em dez anos estaremos muito melhor que os
demais estados, pois estamos fazendo o dever de
casa e eles, com essa história de que só
o Rio é violento, não estão.
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