CAIXINHA, OBRIGADO!

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O final do ano ainda nem chegou e começam os pedidos para a colocação de caixinhas ou livros em que os moradores são convidados a contribuir com um agrado para o Natal dos empregados. Há condomínios que já proibiram a prática, buscando evitar os constrangimentos causados aos condôminos, que se sentem pressionados a participar ou mesmo a dar um valor próximo ao concedido pelos vizinhos. Mas há também quem acredite que esta é uma forma de reconhecimento e estímulo à dedicação daqueles que trabalham no condomínio. E os que compartilham dessa opinião até fazem questão de serem os primeiros a pôr seus nomes no livro, colocando valores altos a fim de “puxar para cima” as ofertas dos demais. Geralmente, esses moradores são os mais queridos pelos empregados. A questão é polêmica e vai além das condições financeiras de cada um, de sua vontade ou não de participar e do merecimento dos empregados a este tipo de contribuição que, por definição é, ou deveria ser, espontânea.

Sensíveis à questão, síndicos vêm testando outras opções. O Condomínio Sidney Gasparini, da Tijuca, criou um mecanismo para evitar o problema do constrangimento. No início do mês de dezembro, os moradores recebem uma circular e um pequeno envelope. O texto deixa claro que todos os direitos dos empregados, como salários em dia, 13o. e cesta básica, vêm sendo cumpridos, mas que, pela proximidade do Natal, aqueles que quiserem podem dar alguma gratificação, de qualquer valor, aos funcionários. Uma urna é disponibilizada para receber os envelopes. No dia e na hora marcados, ela é aberta pelo síndico e pelos conselheiros. Na ocasião, somam-se os valores e faz-se a divisão do montante entre os funcionários. “Com a medida, ninguém precisa saber quem deu a contribuição e de quanto ela foi. Os moradores se sentem melhor assim e os empregados continuam a receber essa espécie de presente de fim de ano, que já se tornou tradicional”, afirma a síndica Sueli de Oliveira.

Outro condomínio a adotar uma medida para evitar o caixinha ou o livro de ouro foi o Port au Prince, de São Conrado. A iniciativa foi dos próprios moradores, que percebiam que aqueles que não contribuíam se ressentiam da situação, acreditando que os outros eram melhor tratados pelos empregados que eles. Assim, substituíram as contribuições por uma festa de Natal. O morador que quiser participa da organização, doa uma cesta de Natal ou algum artigo natalino. Também pode apadrinhar um dos filhos dos empregados, dando a eles brinquedos e guloseimas. “Pedimos que tragam toda a família e os servimos, assim como eles nos servem em todos os outros dias do ano”, conta Claudia Bittencourt. “Estas pessoas estão aqui todos os dias nos ajudando, são muito boas e, com a festa, estabelecemos com eles um vínculo de retribuição ao seu trabalho”, enfatiza.

Como se pode ver, alternativa é o que não falta. Está se tornando comum os condomínios substituírem a caixinha por uma gratificação ou uma cesta de Natal, concedida pelo condomínio. O síndico inclui a despesa na previsão orçamentária e passa a ter uma verba exclusiva para essa finalidade ou, quando é feito o rateio para o pagamento do 13o salário, inclui um valor que permita a concessão da contribuição de Natal dos empregados.

Ainda há tempo para pensar junto com os moradores em uma fórmula que melhor atenda à realidade de seu prédio. Ou então: caixinha, obrigado!


Um “presente” sempre bem-vindo:
Gratificação é esperada, também, por representar um reconhecimento

Para o porteiro-chefe Reginaldo Alves Siqueira, que desde de 1989 trabalha no Condomínio Moretto, na Barra da Tijuca, a gratificação é uma prática que o ajuda e com a qual já conta, seja para fazer um agrado à família, seja para ajudar nas despesas ou para acrescentar às economias para visitar os parentes no Norte. Mas assegura que nenhum dos 16 empregados do prédio pede nada aos moradores. “Quando comecei a trabalhar, já encontrei o livro e ele só deixou de ser utilizado uma vez, por sugestão minha, depois que um condômino disse que não daria nenhuma contribuição porque, quando fez obra no apartamento, os porteiros não ajudaram a descarregar o caminhão de cimento. Mas ele acabou voltando pelas mãos dos próprios moradores”, conta.

Segundo Reginaldo, o chamado livro de ouro do prédio é pequeno e, de tão discreto, os novos moradores sequer sabem de sua existência. “Tem gente que pergunta se não vamos colocar o livro ou uma caixinha, com o livro ali na mesa. Essa coisa de contribuir é da pessoa. São sempre os mesmos que participam todos os anos, e isso sem que ninguém peça nada a eles. Acho até que, se um dia não tiver nada, eles continuarão a contribuir”, afirma.

Raimundo Nonato Cavalcante, porteiro-chefe do condomínio do Edifício Simone, no Flamengo, desde 1978, concorda com o colega. “Aqui não temos livro nem caixinha. E também não existe uma gratificação de fim de ano dada pelo condomínio. Mas muitos moradores me dão presentes e até dinheiro no final do ano. Geralmente, são sempre as mesmas pessoas”, diz.

Para o porteiro, é gratificante receber uma contribuição, independente do que seja, pois isso é um reconhecimento pelo trabalho. “O dinheiro extra sempre contribui. Muitas vezes nos tira de um sufoco. Mas o melhor é ver que as pessoas têm carinho pela gente e que estão satisfeitas com o nosso trabalho”, conclui.

  
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