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A obrigatoriedade
da coleta seletiva tem sido muito bem aceita tanto pelos
moradores, quanto pelos síndicos. A crescente conscientização
para a questão ambiental e os muitos benefícios
da iniciativa, associada ao pouco investimento que exige,
segundo Liane Cantanhede, gerente de coleta seletiva da
Comlurb, pode explicar o fato. "Antes de começar,
as pessoas até têm alguma resistência,
pois pensam que vai dar muito trabalho, mas depois do
serviço implantado, vêem que não é
bem assim", afirma.
Por
enquanto, o serviço cobre 22 bairros, incluindo
a Zona Sul e Oeste, e deve alcançar toda a cidade
em dois anos. Para as localidades que já contam
com a coleta seletiva porta a porta, o procedimento determinado
pela lei Municipal de Limpeza Urbana, nº 3.273 é
o seguinte: o morador, em sua residência, separa
papel, latas, vidro e metais já limpos, do lixo
orgânico, que são os restos de alimentos.
Na lixeira dos prédios, os faxineiros acondicionam
o lixo reciclável em sacos transparentes, próprios
para isso, e coloca-os para a coleta no dia e horário
informado pela Comlurb quando do início do serviço
no bairro. O caminhão cinza grafite, com a marca
criada para a coleta seletiva, passa apenas uma vez por
semana (Ver dia e horário da passagem do caminhão
em sua localidade no site da Comlurb www.rio.rj.gov.br/comlurb
-> Servicos -> coleta seletiva -> no final da
página, colocar o nome da rua e clicar em ok).
Nada
mudou com relação ao lixo normal, que a
Companhia continua retirando três vezes por semana.
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Conscientização ou apenas
mais um meio de sobrevivência
A questão ambiental permeia o discurso de
quem só tem elogios à iniciativa:
"O programa de coleta seletiva é mais
inteligente e barato que a manutenção
de aterros sanitários que, além de
serem mais caros em termos de recursos financeiros,
ainda impõem um alto custo ambiental, acredita
Paula Pinheiro, diretoria comercial de uma empresa
que trabalha com contentores de lixo. |
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À
posição ecologicamente correta da
diretoria é acrescida uma pergunta, que demonstra
o outro lado da questão: "Mas como ficará
o trabalho da Comlurb no futuro, com o crescimento
das cooperativas de catadores, já que a perspectiva
é de que, por isso mesmo, venha a ter volumes
cada vez menores para coletar?", questiona
Paula. Para o engenheiro Pedro Wilson Faria Campos,
gestor ambiental de uma empresa que desenvolve projetos
de tratamento de resíduos para grandes indústrias,
"a população já despertou
para o fato de que lixo pode ser revertido em lucro":
"Quando vê a possibilidade de algum benefício,
as pessoas aderem; se não por necessidade,
no sentido de carência, pelo reconhecimento
da importância da iniciativa para a questão
ambiental, que já está bastante difundida",
acredita o engenheiro.
A
onda dos programas de reciclagem de latas de alumínio,
com a sua troca por dinheiro ou alimentos, foi o
ponto de partida para que muita gente descobrisse
que é possível ganhar alguma coisa
com o lixo. Dentre estes estão os faxineiros
de condomínios que, diariamente, recolhem,
separam e dispõem para coleta todo o lixo
de uma comunidade de poucas ou muitas unidades.
Um ganho extra, de conhecimento das administrações
e dos moradores, que, por vezes, até colaboram.
E quanto à pergunta da Paula? O que pensa
a Comlurb sobre esta prática? "Para
a Comlurb, não importa se as pessoas retiram
o que elas podem vender. Até porque, estes
recicláveis geralmente incluem apenas papel
e latas de alumínio, e sempre há muitos
outros por recolher", afirma Liane Cantanhede.
Porém,
preocupados, alguns condomínios chegaram
a parar para pensar na melhor forma de atender à
lei, sem retirar o ganho extra dos empregados. O
bloco 1 do Condomínio Bosque dos Mirantes,
em Copacabana, levou a questão para o Conselho
e no final priorizou oficialmente os faxineiros
na destinação dos recicláveis.
"Só colocamos para a Comlurb aquilo
que não pode gerar uma renda a mais para
os nossos empregados", conta Robson Santana,
Administrador do Condomínio Mirantes e Ipês.
Já
o bloco 2 do mesmo condomínio, tomou decisão
inversa. "A gente até sabe que os faxineiros
retiram jornais e latas de alumínio, mas
como sempre sobra alguma coisa, preferimos priorizar
a destinação do material para a coleta
da Comlurb", conta Neli do Espírito
Santo, administradora do Condomínio Mirante
dos Oitis. O prédio desde o início
da coleta seletiva entrega sacos de cores diferentes
para ajudar os moradores a separar o lixo (preto
para lixo orgânico e azul ou verde para os
recicláveis), auxiliando com isso o trabalho
dos empregados. |
São exemplos de "bons negócios"
que custaram sonhos e vidas e servem de alerta para os
síndicos, principalmente porque eles respondem
civil e criminalmente por eventuais danos que suas escolhas
causarem ao Condomínio. A intenção
de cortar gorduras no orçamento muitas vezes leva
os administradores a revolver a prestação
de serviços no condomínio. Trocar a conservadora
dos elevadores por outra de menor porte e, conseqüentemente,
mais barata, por exemplo, pode representar uma considerável
redução das despesas. No entanto, é
interessante considerar se tal empresa tem estrutura suficiente
para prestar a assessoria em termos de material e de pessoal
qualificado. Além disso, é importante conhecer
sua trajetória e assegurar que ela tenha estabilidade
financeira para arcar com um eventual acidente, como num
condomínio na Lagoa, onde a indenização
deverá passar de R$100 mil.
Na realidade, muitos consumidores desconhecem que iniciativas
sustentadas pela estratégia do preço baixo
podem ocultar instabilidade financeira. Para Cesar Thomé
Jr., presidente da ABADI, se a empresa precisa esconder
de onde vem o seu lucro, alguma coisa está errada.
"Jamais faço negócio quando não
consigo enxergar de onde vem o lucro", confessa.
Algumas empresas que ofereceram condições
de serviços fantásticas por valores mínimos
simplesmente "quebraram". O Condomínio
Jardim dos Arcos viveu uma experiência assim quando
a administradora com a qual trabalhava faliu, em 2001.
"Ficamos em uma corda bamba. Fomos pegos de surpresa
e não nos recuperamos ainda", relata a síndica,
Valéria Hallak. Uma empresa que não tem
solidez suficiente para garantir a própria estabilidade
não merece cuidar do patrimônio de toda uma
coletividade, como é um condomínio.
Para justificar o "preço camarada", determinadas
empresas fazem propaganda da quantidade de clientes. Mas
números nem sempre dizem tudo. Basta lembrar o
caso da Enron, empresa norte-americana tradicionalmente
ligada à geração e transmissão
de energia, que declarou falência no final de 2001
e admitiu que tinha exagerado nos lucros, além
de ocultar prejuízos, para atrair e manter os investidores.
A falência da Enron e a revelação
de suas manipulações contábeis trouxeram
prejuízos para milhões de acionistas, além
de acabar com os planos de aposentadoria de milhares de
funcionários da gigante da energia elétrica.
Condomínio
implantado junto com o serviço encara com tranqüilidade
a questão
Quem
não se preocupou nem um pouco com a seleção
e a destinação do lixo foi a administração
do Heron Laykers: "Os outros tiveram o trabalho de
reeducar os moradores, mas como começamos já
com o programa da Comlurb implantado, não tivemos
problemas", conta Claudia Dutra, administradora do
condomínio. Com a orientação de uma
empresa especializada em contentores de lixo, o prédio
adquiriu utilitários nas cores e identificações
padrão para recicláveis, distribuídos
pelas áreas comuns, e os sacos apropriados para
a coleta seletiva. Quanto à venda de alguns materiais
pelos empregados, a administradora diz que é mais
uma garantia de tranqüilidade. "O dinheiro que
conseguem é utilizado para incrementar o café
da manhã deles e como é de interesse, eles
próprios se encarreguem de controlar se a seleção
está sendo bem realizada, nos liberando para outras
questões", afirma.
Lixo
gera emprego e renda
Para
dar início ao Programa de Coleta Seletiva, a Comlurb
preparou caminhões compactadores com compartimentos
exclusivos para recicláveis e mais uma Central
de Separação de Recicláveis - CSR,
em Jacarepaguá, além da que já dispunha
em Botafogo. Estas centrais, operadas por cooperativas,
podem contar com até 100 classificadores, pessoas
que antes atuavam como catadores de rua.
Como
empregados das CSRs, os ex-catadores recebem uniformes,
equipamentos de proteção individual e cursos
de cidadania, alfabetização e reciclagem.
Além de ter outros benefícios como a cobertura
de um seguro de acidente de trabalho, um seguro funeral,
um plano de saúde, a contribuição
para o INSS e cesta básica. A receita da venda
dos recicláveis é distribuída proporcionalmente
ao tempo de trabalho de cada classificador, o que garante
um rendimento médio de R$ 450,00.
O
trabalho dos classificadores consiste em separar e embalar
o lixo em fardos de 200 e 300 quilos para posterior venda
em leilão. |
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Tudo pode ser transformado
Os
lixos são classificados conforme o padrão
da ABNT - Associação Brasileira de Normas
Técnicas, em classe 1, que são os perigosos
(restos de tinta, óleos, lâmpadas florescentes,
pilhas e baterias), classe 2, os recicláveis (metal,
plástico, vidro e papel) e Classe 3, os orgânicos.
Apesar desta divisão, todos podem ser reciclados,
segundo explica o engenheiro e gestor ambiental Pedro
Wilson. "Mesmo os mais tóxicos, como os solventes
contaminados, podem ser vendidos, por exemplo, para indústrias
que produzem o zarcão, um anti-corrosivo muito
utilizado. E é assim com tudo, quando não
tem mais serventia para um determinado segmento industrial,
passa a servir a outro que depende deste como matéria-prima",
esclarece.
O
engenheiro cita ainda o caso das lâmpadas florescentes
que, depois de retirado o gás, têm as extremidades
utilizadas pelas indústrias que trabalham com alumínio
e o vidro, pelas cerâmicas que produzem piso vitrificado
ou, ainda, pelas empresas que fazem os "olhos de
gatos" utilizados como sinalizadores nas vias públicas,
estradas e rodovias. "E isso já acontece no
Brasil", comemora Pedro Wilson, que tem alguns exemplos
de materiais transformados bastante interessantes em seu
escritório: "Tenho peças como jeans
confeccionados com fios de pet, as garrafas plásticas
que entopem rios e esgotos por todo o país e são
produtos dos mais versáteis em termos de reciclagem",
conclui.
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