ZONA SUL LEGAL
ENTREVISTA - ELIZABETH CAYRES
Coordenadora do Programa Zona Sul Legal

Os três anos à frente da Delegacia de Atendimento ao Turista credenciaram a delegada Elizabeth Cayres para a missão de coordenar o programa Zona Sul Legal, da Secretaria Estadual de Segurança Pública, que tem por objetivo dar mais segurança à população e instaurar mais ordem nos bairros. Implantado em junho deste ano com foco principal em Copacabana, o programa enfrenta agora o desafio da falta de estrutura de órgãos parceiros do projeto, como as entidades de recolhimento da população de rua.

REVISTA LOWNDES: O que é o programa Zona Sul Legal?
ELIZABETH CAYRES: É um programa de caráter permanente, mas dinâmico, que incorpora novas atividades a cada dia com o objetivo de reduzir o desrespeito às posturas municipais e minimizar os comportamentos anti-sociais. Dessa forma, queremos diminuir a insegurança efetiva, fruto de roubos, por exemplo, e a sensação de insegurança, causada pela presença de mendigos nas ruas. O objetivo final é melhorar a qualidade de vida.

REVISTA LOWNDES: Que tipo de atividades fazem parte do programa?
ELIZABETH CAYRES: Deram muito destaque para o acolhimento da população de rua, mas as nossas atividades vão muito além disso. Reprimimos táxis piratas, estacionamento irregular e uso indevido do espaço público. Também recolhemos menores em atividade de prostituição, entre outras coisas. E, em conjunto com a Polícia Federal, ainda fazemos inspeções periódicas de estrangeiros em situação irregular.

REVISTA LOWNDES: Qual a relação entre o Zona Sul Legal e o programa Tolerância Zero implementado em Nova York?
ELIZABETH CAYRES: Embora eu não possa negar que há algumas semelhanças entre eles, a princípio não eles não têm nada a ver um com o outro, apesar das comparações feitas na imprensa.

REVISTA LOWNDES: Quais seriam as semelhanças e diferenças do programa carioca e do nova-iorquino?
ELIZABETH CAYRES: Ambos têm áreas específicas de atuação. O Tolerância Zero visa a maior ordem urbana. Com a teoria das janelas quebradas, o programa nova-iorquino reprime pequenos delitos que acabariam por favorecer outros mais graves. Mas ainda estamos muito longe de um programa como o Tolerância Zero, até porque o espírito carioca é muito mais tolerante: ele quer melhorar a qualidade de vida, mas deixar também os outros viverem. O Zona Sul Legal nasceu de experiências coletadas na própria cidade do Rio de Janeiro.

REVISTA LOWNDES: Por que o programa começou por Copacabana?
ELIZABETH CAYRES: Como em todas as cidades turísticas do mundo, começamos o programa pela Zona Sul, que é o nosso diferencial, o cartão de visita. E não se pode negar que os turistas são as maiores vítimas, principalmente dos marginais que se misturam à população de rua. Mas as ações não se restringem à Copacabana, e executamos atividades em bairros como Barra da Tijuca, Ipanema, Botafogo. Entre as ações, podemos citar blitz para desencorajar o consumo de álcool, dar flagrantes de embriaguez ao volante e reduzir a incidência de pegas. E, no verão, essas operações serão acirradas. O interessante é que as pesquisas mostram que o que mais incomoda o turista é a desordem urbana, a população de rua, muito mais até do que a insegurança propriamente dita.

REVISTA LOWNDES: Existia uma programação de estender o projeto a outros bairros. O que falta para isso?
ELIZZABETH CAYRES: Os órgãos não têm estrutura para ações suficientes, principalmente, as entidades de ação social. Hoje, um dos nossos principais problemas é a falta de estrutura para recebimento da população recolhida. Atualmente, o limite é de cerca de 40 vagas por operação, o que não dá para nada. Além disso, precisamos de regras claras de inserção dessas pessoas na sociedade, o que ainda não está disponível. Nesse trabalho, descobrimos que, diferentemente do que se prega, 68% dos menores de rua recolhidos são do próprio município. Outro dado levantado pelo programa é que de 20% a 30% dos recolhidos voltam para a rua e a melhor solução para eles é dar-lhes mais condições de subsistência para que possam mudar de vida.

REVISTA LOWNDES: O que vem pela frente?
ELIZABETH CAYRES: Estamos negociando um convênio com a Firjan que prevê o nivelamento de ensino, alfabetização e cursos profissionalizantes para a população de rua. Também acreditamos que a criminalização do uso de cola como droga vai ser importante. Hoje, o policial fica impotente diante dessas situações.

REVISTA LOWNDES: E, para o verão, o que estão programando?
ELIZABETH CAYRES: Queremos controlar os táxis em locais como Corcovado, Cosme Velho e Centro da cidade, onde vira bagunça. Isso, é claro, independentemente da parte social que continuará a ser realizada. Além disso, temos trabalhado na identificação de depósitos de mercadorias irregulares.

REVISTA LOWNDES: Quem são os parceiros do programa?
ELIZABETH CAYRES: Nós funcionamos como um coordenador trabalhando com órgãos estaduais, municipais e federais. As polícias civis e militares também são nossos parceiros.

REVISTA LOWNDES: Já dá para medir os resultados do programa?
ELIZABETH CAYRES: Ainda não temos levantamento numérico sobre a redução de roubos e assaltos. Mas, conversando com moradores do bairro, o que se percebe é que a sensação de segurança aumentou.

REVISTA LOWNDES: Como a sociedade civil pode participar do programa?
ELIZABETH CAYRES: Estamos mesmo precisando de novos parceiros para poder bancar atividades como o café da manhã das pessoas recolhidas durante a madrugada. Criamos até um diploma para quem quiser participar do programa. Além disso, estamos registrando um site onde a população poderá acompanhar on-line os resultados das operações e interagir com o programa. Mas, quem quiser enviar sugestões e críticas, pode ligar para o telefone 3399-1169 ou enviar e-mail para bethcayres@ssp.rj.gov.br.

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