LAZER IMPROVISADO
Atualmente, sabe-se que lazer é uma necessidade e, por isso, os novos empreendimentos são construídos com toda a infra-estrutura que permita a sua realização. Mas como fazem aqueles que moram em imóveis residenciais mais antigos onde não há sequer uma pequena área para um playground? O que é possível fazer sem um local apropriado para desenvolver atividades que promovam o bem-estar dos moradores e, conseqüentemente, uma convivência mais harmoniosa no condomínio?

Para começar a pensar a respeito, vamos ao dicionário Aurélio: "Lazer = tempo de que se pode livremente dispor, uma vez cumpridos os afazeres habituais; atividade praticada nesse tempo; divertimento, entretenimento, distração, recreio, ócio, descanso; conversa mole, conversa fiada, bate-papo".

Agora, sim. Ficou mais fácil pensar em opções de lazer para condomínios sem quadras esportivas, salão de festas, playgrounds...

Abrindo espaço nos corações
Opções simples que funcionam
  
Interferir nos humores dos condôminos pode parecer uma tarefa que não cabe aos síndicos, mas certamente àqueles que conseguem tal proeza têm muito a ganhar. Da posição contrária a tudo, passando por atitudes mais agressivas com os empregados e vizinhos - comportamentos geralmente relacionados ao medo, ao estresse e a um certo enrijecimento por conta do isolamento -, todas essas são atitudes que podem ser modificadas com o investimento em ações simples, mas que funcionam para relaxar, aproximar e descontrair os moradores.

Os bons resultados podem ser atestados por Alberto Amaral, síndico do edifício Acari, em Ipanema, que não tem muitas opções no prédio dos anos 60 em que mora e administra. Ele conseguiu driblar a restrição apostando no diálogo: "Para descontrair, tomo a iniciativa de conversar muito com os moradores e saber do que mais gostam. Assim, quando estou falando com um e outro passa, posso dirigir a conversa, chamando a atenção do outro e o convidando-o para o bate-papo", conta.

O síndico lembra que antes os moradores se limitavam a dirigir um ao outro um bom dia. "Hoje, se estamos conversando em um pequeno grupo e alguém passa, pergunta logo: 'É festa? Não iam me convidar não?' Este ambiente garante uma participação nas reuniões de condomínio de 80%, 100% e, ainda, contas aprovadas por unanimidade", ressalta.
  
A restrição de espaço também não foi problema para Julieta Fanelli, moradora do condomínio Estrela Formosa, na Tijuca. Comunicativa e com participação em diferentes ações sociais, ela consegue aproximar os vizinhos pela mobilização, garantindo um ambiente amistoso e até fraterno, nas palavras de Maria José, a síndica do prédio: "Julieta fez com que ficassem mais amigos e solidários não apenas com crianças e idosos pobres que eles nem conhecem, mas também entre si", afirma.

Moradores mais comunicativos como relações públicas
A síndica do Estrela Formosa sugere aos colegas, que como ela administram edifícios pequenos, que busquem dentre os moradores aqueles que são hábeis em abrir espaços no coração das pessoas. "Sempre tem um que é mais comunicativo e pode puxar os demais", diz. A idéia é convidá-lo para assumir uma área da administração para a qual nem sempre os síndicos dão a devida importância: a convivência. "Assim como a gente precisa de especialistas em contabilidade e manutenção, precisamos também contar com o apoio de quem sabe lidar com as pessoas, tocar-lhes o coração", defende.
  
Com um morador assumindo a parte social do condomínio, fica mais fácil propor uma agenda voltada para o lazer dos condôminos, com atividades internas como festas americanas na casa de um vizinho que se disponha, em que cada participante leva uma coisa e todos se confraternizam. Ou, ainda, eventos externos aos prédios, com os condôminos saindo em grupos para fazer passeios turísticos ou ir a shows ou ao teatro. "Unir as pessoas não é tão difícil; no fundo ninguém gosta da solidão", diz Julieta. O síndico do Acari concorda: "Não temos playgrounds, mas facilitamos o máximo possível a convivência porque sabemos o quanto isso é importante. As pessoas precisam de carinho; a vida está difícil, há muito medo e, se você se mostra solícito, elas se sentem melhor", afirma.

Opção pela terceirização
Marilice dos Santos Pereira, síndica do condomínio do Edifício Pasteur Palace, em Botafogo, buscou o apoio de uma instituição com experiência no desenvolvimento de atividades esportivas orientadas para crianças e jovens na faixa etária da bagunça (8 e 17 anos), que, sem muito espaço e opção de lazer, acabavam se divertindo depredando as áreas comuns do condomínio. A irmã de uma moradora conhecia os serviços da Associação Cristã de Moços (ACM) e nos indicou. Eles desenvolveram um programa específico que levado à assembléia foi aprovado como alternativa. Prepararíamos uma área de lazer como válvula de escape para a energia das crianças, conta.
  
Com a aprovação, o condomínio preparou a pequena área destinada ao playground, colocando balizas feitas com canos de PVC e formando um campo de futsal. A ACM levou professores, formou times e organiza aulas e competições. Todos os anos promove o Campeonato Intercondomínios, eventos realizados fora do condomínio e nos quais as crianças do Pasteur Palace estão sempre presentes. "Eles aprenderam a agir como uma equipe em que um depende do outro. Isso mudou o comportamento deles", afirma.
  
A síndica ressalta que todo o trabalho é feito pelos profissionais terceirizados, que, no início, ofereciam também aulas de ginástica e jazz. "A procura foi o que determinou a atividade principal. Tudo é feito por eles, até porque de futebol entendo tanto quanto de engenharia, ou seja, nada. São eles que preparam as brincadeiras mais indicadas para cada faixa etária e também realizam duas ótimas festas para moradores de todas as idades: uma no final do ano, com Papai Noel, e outra no meio do ano, uma festa junina típica. Elas garantem o entrosamento e o lazer dos condôminos", conclui.

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