PORTEIROS
O cartão de visitas de todo prédio é o porteiro. Ele é a ponte entre o lado de dentro e o mundo lá fora. Atenção é a ordem do dia. Aliás, de todos os dias e todas as horas. Controlar com precisão a entrada de pessoas estranhas é tarefa pesada para os porteiros cariocas que, como o resto da população, têm de enfrentar o fantasma da violência iminente. Como se não bastasse, controlar o acesso dos moradores também é um trabalho difícil, já que é preciso reconhecer dezenas e, às vezes, centenas de rostos. A função de porteiro é arriscada e, em alguns casos, pode ser até perigosa. Exemplos de violência não faltam. Recentemente, em Ipanema, Valter Rodrigues, 36 anos, conseguiu evitar um assalto investindo fisicamente contra um dos dois bandidos. Uma atitude corajosa que deu certo, mas que poderia ter custado a sua vida. Capa de matéria de jornal, Valter, assustado, preferiu pedir demissão, com medo de uma possível represália dos bandidos. Pior para a síndica, que perdeu um bom funcionário. "Ele era ótimo, mas ficou com medo e foi embora. Pediu que não informasse a ninguém o local onde está morando, nem desse o seu telefone", disse.
  
Reflexo do estado de tensão que paira sobre a Cidade Maravilhosa. Já que resolver o problema, a curto prazo, parece ser impossível, a atitude mais urgente a se tomar é investir em treinamento. Síndicos e administradores devem procurar cercar seus funcionários de portaria de conhecimentos que lhes permitam evitar tentativas de invasão. O presidente do Sindicato de Empregados de Edifício do Rio de Janeiro, José Leodegário da Cruz, que tem nas costas 35 anos de atividade em portaria, afirma que é fundamental passar conhecimentos de prevenção a assaltos aos porteiros da cidade. "Nem as autoridades estão encarando o problema da violência. Antigamente, a situação não era tão complicada, muitos prédios nem tinham grade. Hoje é importante fazer esses cursos", ratifica Leodegário, que nasceu na cidade de Bananeiras, na Paraíba, e veio para o Rio de Janeiro há mais de 30 anos.

A Lowndes, preocupada com a segurança dos edifícios, vem organizando cursos regularmente. Visando ao treinamento dos porteiros cariocas, a administradora formará mais uma turma do curso intitulado 'Qualidade nos serviços de portaria', de 08 a 10 de julho. Nas aulas, serão abordados temas como "higiene e apresentação pessoal" e "atuação em situações rotineiras e emergenciais". Além disso, está previsto para o segundo semestre o curso "Segurança - Orientação e Prática", com os seguintes tópicos na pauta: "Medidas preventivas de combate à violência", "Medidas de segurança", "Atitudes pró e contra a violência" e "Acidentes". Também incluirá um curso de Formação Básica para Chefes de Portaria, em que se lançarão os temas "Zelando pelo condomínio", "Segurança e atenção emocional", "Postura e ética profissional". Quem quiser obter informações pode entrar em contato com o setor de Recursos Humanos da Lowndes pelo telefone 2518-3636, ramal 238.

Assim como Leodegário, os síndicos devem estar atentos ao fato de que zelar pela segurança dos moradores não tem preço. Afastado da profissão por causa das atividades como presidente do Sindicato e à frente da entidade há muitos anos, procurou investir em treinamentos, disseminando dicas de segurança para milhares de porteiros de todas as regiões do Rio de Janeiro. Ele mesmo passou por uma situação complicada certa vez: "Entrou um homem suspeito junto com uma das moradoras. Notei que ela estava assustada, não falava uma palavra. Quando percebi que era um assaltante, peguei um pau, bati no cara e mandei ele sair", lembra o presidente do Sindicato. Assim como ele, todo porteiro viveu ou conhece alguém que já viveu algo similar. José Vicente da Silva, de 42 anos, começou como auxiliar de portaria em 1979, quando chegou da Paraíba, e hoje é porteiro-chefe de um edifício da Avenida Atlântica, em Copacabana, segundo ele uma das regiões mais perigosas da cidade.

"É área de risco. Tem prostituição, tráfico de drogas. A Atlântica tem o 'bom' e o 'ruim'", completa Vicente. Para ele, a dica mais importante que os cursos mensais do Sindicato procuram dar aos porteiros é que se deve desconfiar de tudo e de todos. Pessoas que chegam silenciosas, confusas ou hesitantes devem ser observadas com mais atenção. É importante estar atento para os carros suspeitos. Uma dica boa: a mesa deve ficar de frente para a portaria. "A visão tem de ser ampla. Quando a mesa está de lado, uma movimentação estranha na área externa pode não ser notada", orienta o diretor. Os moradores, muitas vezes, acabam atrapalhando quando percebem a presença de suspeitos. Eles pedem para abrir o portão, com pressa, o que pode acabar liberando o acesso do bandido. O melhor a fazer, segundo Vicente, é combinar com o porteiro um sinal manual para essas situações. Assim é possível evitar a entrada do estranho.

O comandante do 19º Batalhão de Polícia Militar (Copacabana), Dario Cony, admite que os assaltos a prédios são freqüentes. Ele orienta os porteiros a não deixar o posto de trabalho. Assim como Vicente, Cony acha que os moradores têm responsabilidade no controle do acesso de estranhos. "Muitos ficam lavando calçada com a portaria aberta, o que facilita a investida dos bandidos", alerta o comandante. Caso a entrada de um assaltante aconteça, é importante não reagir, principalmente se a pessoa estiver armada. Se houver assalto, o mais sensato a fazer é ligar para a polícia, no 190, ou para um dos batalhões da PM. O telefone de Copacabana é 3399-7458. Segundo Cony, há que se desconfiar sempre dos entregadores. Nunca se deve permitir o ingresso deles para só depois entrar em contato com o morador. Muitas outras dicas são dadas nos cursos para porteiros que acontecem regularmente nos batalhões da PM.

Os que trabalham no período noturno precisam ter atenção redobrada. Evitar dormir é fundamental mas, se o sono chegar, implacável, é importante não abrir a portaria no susto. "Tem que acordar com calma, dar um tempo, despertar e, só aí, observar quem deseja entrar. Mesmo que a pessoa reclame depois, deixe o interfone tocar", orienta o porteiro-chefe, que aponta como um dos motivos da violência em edifícios a alta rotatividade de funcionários. Segundo ele, um porteiro que está no mesmo prédio há bastante tempo conhece todos os carros, os moradores e os visitantes. Ele está mais apto a reconhecer as pessoas estranhas. Outro problema sério é o acúmulo de funções. "Se um porteiro faz tudo, desde a faxina geral até os consertos nos apartamentos, fatalmente ele vai se ausentar do posto de trabalho, deixando a portaria vulnerável", explica Vicente.

Aqueles que não têm portaria eletrônica devem se comunicar com os visitantes à distância, em local protegido. Na opinião de Vicente, o fato de o edifício ter câmeras e aparato de segurança informatizado não afasta os bandidos. "O porteiro vai ser sempre a figura mais importante no controle da entrada e saída de pessoas. As câmeras amedrontam, mas não impedem que os assaltos aconteçam". O porteiro Fernando Barbosa da Silva, de 42 anos, carioca e filho de paraibanos, mudou-se para a terra dos pais ainda criança e veio de volta ao Rio aos 17 anos de idade. Situações de risco fazem parte da profissão. Trabalhando em Copacabana, ele enfrentou momentos difíceis, como quando bandidos fugidos da polícia resolveram se esconder no prédio. "Eles estavam armados; eu não reagi. Graças a Deus, eles só queriam esperar a viatura passar", lembra o porteiro.

João Firmino dos Santos reside no edifício onde trabalha, em Ipanema. Aos 60 anos - 33 dos quais dedicados à portaria - nasceu em Caruaru, Pernambuco, e desembarcou no Rio de Janeiro em 1968. Para ele, o mais importante é evitar contratar empregados sem experiência. "Antigamente, a gente começava como ajudante, aprendia, observava. Hoje as pessoas são colocadas na função sem conhecimento nenhum", argumenta Firmino, que nunca passou por uma situação de violência. Ao contrário, o porteiro do prédio vizinho, amigo de Firmino, foi amarrado por bandidos que assaltaram quatro apartamentos e ainda levaram um carro da garagem. Os três homens entraram no edifício enquanto o porteiro entregava o jornal, de manhã, nos apartamentos. "Meu colega continua lá, mas está assombrado, assustado", comenta Firmino.

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