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Dos
80 anos de vida, Dulce Cardoso Melo já
doou quase 20 em favor do bem-estar dos
moradores do edifício onde mora,
o Casmor, na Tijuca. Ativa e falante,
ela tira de letra as dificuldades que
a função de síndica
impõe, direcionando com mãos
firmes os afazeres dos funcionários
do prédio de 33 apartamentos. A
profissão que escolheu, Engenharia
Eletrotécnica, lhe dá embasamento
para acompanhar as reformas necessárias.
"Fiscalizo tudo de perto", garante.
Segurança para os moradores, garantia
de serviço de qualidade. Carioca
do Méier, Dulce reside há
48 anos no edifício que comanda.
O cargo de síndica, como ela diz,
não foi planejado. "Estava
em uma assembléia e um grupo de
pessoas me indicou. Achei a idéia
boa porque gosto de trabalhar e quero
zelar pelo meu imóvel", afirma.
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As
agruras da atividade, entretanto, não
passaram pela cabeça da engenheira no
momento em que resolveu aceitar a idéia.
Uma das maiores dificuldades, segundo Dulce,
é lidar com opiniões diversas,
principalmente quando da necessidade de estipular
cotas extras para obras no prédio. "Existe
a dificuldade financeira, mas há obras
que não podem ser adiadas. Preciso começar
uma reforma na fachada, mas a maioria não
aceitou o preço orçado. Além
disso, as empenas e o sistema hidráulico
da coluna 04 precisam de reparos", esclarece
a síndica, preocupada com a iminência
de cota extra. Apesar dos pesares, Dulce tem
conseguido grandes feitos ao longo dos anos:
reforma integral da fachada, modernização
do hall de entrada, renovação
total do telhado e cara nova para o salão
de festas.
Os quatro empregados (um vigia, um porteiro
e dois serventes) são conduzidos com
regras rígidas. Para Dulce, a tarefa
mais difícil é justamente distribuir
as funções dos funcionários,
principalmente no que diz respeito à
limpeza e ao acesso de estranhos à portaria
do prédio. "Não é
fácil controlar a produção,
mas determino por escrito as tarefas de cada
um", reforça a síndica, que
resolveu criar uma 'pasta de atribuições'.
Trata-se de um caderno onde são especificadas
as atividades semanais. Além disso, a
pasta contém documentos, notas fiscais
e, o mais importante, as 14 normas de conduta
dos funcionários. Uma delas, a terceira,
diz: "Só se ausentar do serviço
para ir ao banheiro ou tomar café e almoço
nos horários estipulados no quadro de
horários". Sistematizar parece ser
a ordem do dia para Dulce, que se considera
detalhista e organizada.
Preocupada com o problema da segurança
que assola a cidade e aterroriza os cariocas,
a síndica criou a norma seis, que prevê
o seguinte: "As pessoas estranhas deverão
se identificar no portão de entrada,
dizendo o nome e o número do apartamento
aonde desejam ir". Dulce crê que
um bom síndico deve ter firmeza de caráter
e não pode se deixar influenciar por
convites desonestos. Ela mesma exemplifica:
"Existem firmas de engenharia que querem
ser escolhidas sem concorrência. Não
podemos nos deixar corromper". A habilidade
administrativa de Dulce é herança
da época em que exercia a profissão
de engenheira, quando teve a oportunidade de
fazer cursos técnicos de Administração
de Empresas e Relações Humanas.
"Trabalhei como chefe durante 38 anos",
arremata.
O fato de ser uma mulher idosa nunca a atrapalhou
no comando do edifício, garante a líder
do Casmor. "Tenho personalidade muito forte.
Não sou de discutir, mas procuro fazer
com que as pessoas aceitem as minhas opiniões
e decisões", diz. Segundo a engenheira
- que é viúva e não tem
filhos - a família desaprova a idéia
de ela trabalhar como síndica por causa
do desgaste que a atividade causa. O estresse,
entretanto, é amenizado pelo auxílio
que a administradora dá, cuidando do
pagamento das contas e das taxas condominiais,
bem como da admissão, demissão
e férias dos funcionários. Apesar
da disposição que Dulce tem para
o trabalho, o mandato, que termina em junho,
deve ser o último. "Estou cansada",
sintetiza. A maior recompensa que recebeu dos
moradores, conforme diz, foi o pedido de renovação
da sua proposta de candidatura. "Sinal
de que tenho alguma qualidade", completa
Dulce, emocionada.
| Os moradores
assinam embaixo. Vilma Coutinho, que vive
há 33 anos no prédio, é
só elogios. "Conheço
a Dulce desde que chegou aqui. Ela é
caprichosa, atenta e dinâmica. Tudo
funciona no prédio e as reformas
trouxeram benefícios a todos",
reforça a condômina de 74 anos.
Segundo Vilma, a síndica consegue
desempenhar suas funções com
eficiência por já possuir experiência
em comandar equipes. "Dulce é
engenheira, tem know how. Ela cuida do edifício
tão bem porque se preocupa com o
nosso patrimônio e estima o seu imóvel.
O prédio está novo",
alegra-se a moradora, que vive com o marido
e já foi conselheira. O esposo exerceu
a função de síndico
duas vezes. As reuniões de condomínio,
segundo ela, contam com a presença
de pessoas interessadas em colaborar com
a administração da síndica.
"Alguns reclamam das cotas extras porque
a situação financeira não
está boa. Mas Dulce é econômica
e consegue bons preços para as reformas.
Ela é o nosso braço direito",
resume Vilma. |
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