ENTREVISTA
DR. MAURO MARZOCHI
Sub-Secretário de Saúde do Município do Rio de Janeiro


Mais uma vez, o Rio enfrenta o risco de uma epidemia de dengue. Para evitar o problema, o médico sanitarista e Sub-Secretário de Saúde do Município do Rio de Janeiro, Dr. Mauro Marzochi, propõe priorizar a dobradinha informação e ação. Isso porque, segundo ele, não basta informar a população; é preciso deixar claro que está nas mãos dela impedir a procriação do mosquito Aedes aegypti. Nesta entrevista, ele defende a medida, reconhece que faltou experiência em lidar com epidemias em anos passados e pede o apoio dos síndicos para a empreitada deste verão.

LR - Que medidas estão sendo tomadas para evitar uma nova epidemia de dengue na cidade?

MM - As principais ações estão sendo no sentido de uma mudança de cultura, de filosofia no combate à dengue.

LR - Por quê? Como isso poderá ajudar?

MM - A descentralização do controle é um processo recente, iniciado em 1999, e os municípios não tinham experiência em lidar com epidemias, antes nas mãos do Governo Federal. Na nossa gestão, adquirimos muita experiência. Aplicamos as medidas exigidas pelo governo federal colocando os guardas sanitários visitando o campo e as residências, seguimos as orientações formuladas pelo Ministério da Saúde, mas tomamos algumas iniciativas próprias. A divulgação de informação está entre as ações propostas pelo Governo, mas não é prioridade. Queremos que esta seja a ação número um.

LR - A informação por si só pode impedir uma nova epidemia? A população reclama ações, como mais fumacê. Isso não é importante?

MM - Há 18 anos convivemos com a dengue. Na cidade já ocorreram oito epidemias e, no entanto, a expectativa da população ainda é a de que somente o Governo pode combatê-lo. Mas ao longo desse tempo demonstrou-se que, neste caso, é diferente. A dengue não é como a malária ou a leishmaniose, os mosquitos que transmitem essas doenças se criam longe das casas. O Aedes se cria predominantemente dentro de nossas residências e do local de trabalho. Os seus hábitos são diurnos e não noturnos, como os dos demais mosquitos. A fêmea precisa de sangue humano para completar o processo de reprodução. Portanto, só existe Aedes onde há humanos e água limpa, parada, ao abrigo do sol e próxima de pessoas. Essa é a combinação que propicia a proliferação do Aedes. É por conta de outras doenças transmissíveis por mosquitos que criou-se essa imagem da necessidade do fumacê. No caso da dengue, o fumacê só funciona se passar ao longo do dia, se as portas e janelas das casas estiverem abertas e se os mosquitos adultos estiverem voando. O inseticida não mata a larva, por exemplo. A ação do fumacê é limitada. O melhor procedimento contra o Aedes é informação e ação. A população tem um papel muito importante e todos os gerentes - as famílias, os gestores de locais públicos, as escolas, os teatros -, têm que ter essa noção de responsabilidade.

LR - E o que a Prefeitura está fazendo?

MM - Estamos orientando as pessoas a identificar os criadouros e combatê-los. Não é preciso inseticidas; basta retirar a água dos recipientes, ou cobri-los e colocar creolina nos ralos das garagens dos prédios, por exemplo, em decks de piscina, ou água sanitária, qualquer coisa que suje a água, até sal de cozinha e vinagre servem. É preciso a participação da sociedade como um todo. Nossa estratégia está sendo organizar fóruns por setores, como o de lazer e turismo, porque pode-se pegar dengue no Teatro Municipal. Já realizamos outros fóruns com órgãos da construção civil e demais segmentos da sociedade. A nossa melhor ferramenta é a informação e a educação. Não há milagres. Essa máquina que estão vendendo por aí, recentemente inventada, e que funciona com botijão de cozinha (ela solta gás carbônico imitando a respiração humana e, por isso, atrai os mosquitos para dentro dos aparelhos) pode ser útil para pernilongos mas para o Aedes não funciona. No caso dos pernilongos, os inseticidas também funcionam melhor. É diferente.

LR - E quanto aos condomínios: há alguma ação específica para o atendimento a este público?

MM - Os síndicos estão inseridos neste processo ainda mais, pois são gestores de uma área em que há várias unidades e uma população aberta à sua orientação. Convocamos os síndicos para um fórum e nos comprometemos a dar treinamentos para porteiros, zeladores e demais profissionais. A Secretaria Municipal dispõe de um órgão, o IEC (Informação, Educação e Comunicação em Saúde), telefone 2589-4019, em que os síndicos podem agendar cursos e visitas de orientação. Nossa a intenção de estreitar o relacionamento com os condomínios e ainda vamos conseguir!

LR - Como está a estrutura de ação para este ano e o que faltou no ano passado?

MM - O que aconteceu na última epidemia foi o surgimento do vírus 3, que é o pior de todos, inclusive do que o 4. A população estava suscetível. Para este ano, o vírus 3 continua a preocupar: 30% da população foi infectada, se tornando imune, mas ainda há os 70% que pode vir a ser infectados. No ano passado, foram registrados 200 mil casos, mas nem todas as pessoas infectadas foram aos Postos de Saúde, assim como nem todos apresentaram sintomas. Por isso, não podemos relaxar. Temos 10 gerências na cidade para cuidar somente do controle da dengue. Cada uma com 500, 600 habitantes para atender. São necessários 3.700 agentes, mas temos 2.700, e os mil restantes estamos cobrindo com agentes comunitários. E dependemos da colaboração das pessoas. São 2,75 milhões de prédios na cidade, e o índice de recusa de entrada, o que chamamos de pendência, é alto. Já há uma lei que permite a entrada em áreas abandonadas ou quando o morador impede a entrada dos agentes, mas só a utilizamos em último caso.

LR - Que outras ações a Secretaria tem em andamento para o atendimento à população?

MM - A Secretaria desenvolve vários programas dedicados a pacientes com doença crônicas, ao atendimento materno-infantil, alimentação, atividades físicas, prevenção de drogas e muitos outros, todos voltados para a qualidade de vida da população. Muitos são definidos pelo Governo Federal, mas outros são únicos, como o remédio em casa via Sedex, que começou com os pacientes com diabetes e hipertensão. Eles se inscrevem em Postos de Saúde e, a cada mês, a pessoa recebe o remédio em casa, voltando ao Posto somente de quatro em quatro meses para avaliação. A população está envelhecendo e precisamos atender através dos Postos para evitar que lotem os hospitais. A maioria dos hipertensos vai para a fila dos hospitais com o problema agravado por falta de um acompanhamento médico regular. A previsão é de que até o final do ano o programa contemple 200 mil pacientes. Ele é realizado em parceria com os Correios e será ampliado para outras doenças. Hoje o Município conta com 111 Postos, mas este número será aumentado, especialmente pela construção de unidades na Zona Oeste.

LR - Que investimentos estão previstos para este ano?

MM - A Prefeitura vai investir R$ 300 milhões na construção e reforma de unidades de saúde. Passarão por reformas os hospitais Salgado Filho, Lourenço Jorge, Souza Aguiar e Júlio Sanderson de Queiroz e a maternidade Leila Diniz. Ao todo serão erguidos dois hospitais, seis maternidades e quatro postos de saúde, sem falar nas 15 grandes reformas em curso. A Zona Oeste será a maior beneficiada, passando a contar com seis maternidades, em Realengo, Santa Cruz, Barra, Bangu, Vargem Pequena e Campo Grande.

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