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EDUCAÇÃO PARA TODOS
Esse é o sonho do síndico Flávio Pilz, do condomínio Porto
das Acácias, na Lagoa. Um sonho que vem sendo realizado ao alfabetizar os empregados do
prédio.
Flávio considera-se um síndico de sorte. É bem verdade que ele não enfrenta problemas
com inadimplência e a convivência entre os condôminos é boa. Mas sorte mesmo tem os
empregados do condomínio que ele administra: o porteiro-chefe, o substituto, o folguista,
os dois faxineiros e os dois vigias, todos oriundos do Ceará, estão tendo a oportunidade
de voltar aos livros, numa iniciativa do patrão. As aulas são ministradas no próprio
prédio onde trabalham, por uma professora qualificada, que preparou um curso exclusivo
com material didático da região natal dos empregados.
A paixão do síndico pela educação começou na época em que cursava Engenharia e ao
lado de colegas de faculdade, preparou um curso de alfabetização, comprou material e
ensinou a empregados domésticos e seus filhos da região de Pacaembu, em São Paulo.
"Acredito que nosso país é o melhor de todos, mas falta educação", diz
Flávio, que antes mesmo de ser síndico já pensava em alfabetizar o pessoal do Porto das
Acácias: "Eles têm boa índole, só não tiveram oportunidade. Alguns aprenderam
quando crianças, mas como não praticaram, acabaram esquecendo", justifica.
Depois que assumiu a sindicância, há um ano e meio, e passados os primeiros meses de
contato com a administração de um condomínio, conversou com os empregados para saber se
eles se comprometeriam a assistir as aulas. Comprou quadro-negro, cadernos, contratou a
professora e fez cópias do livro didático adotado. Para o síndico, vale a pena
investir: "É um prazer saber que estamos alfabetizando sete pessoas", diz. E
esse número pode crescer. O paisagista do condomínio já procurou saber se um de seus
jardineiros pode fazer o curso. A síndica do prédio vizinho também quer seus empregados
assistindo as aulas.
O síndico do Porto das Acácias tem habilidade com as pessoas, é
simpático e muito humano. E essas são características que fazem com que se preocupe com
o bem-estar de sua equipe. Já contratou um alpinista para cuidar da fachada do edifício
só para não pôr seus empregados em risco. No momento, está planejando a ampliação da
área em que eles dormem para que tenham mais conforto.
Mas não são apenas os trabalhadores do condomínio que contam com sua atenção. Os
condôminos adolescentes, provocados por animosidades com antigos empregados, pichavam o
prédio. Com um novo porteiro, um bom bate-papo e mais espaço e oportunidade de lazer,
eles mudaram: "Conversei com a garotada, dizendo que queria fazer alguma coisa por
eles. Pedi que dessem sugestões, que eu faria o que fosse possível". Com isso, o
síndico conquistou a turma. Eles ganharam uma mesa de ping-pong e a possibilidade de usar
o salão de festas para jogos e brincadeiras. E o condomínio ganhou defensores. Se antes
pichavam, agora evitam que outros façam o mesmo: "Um visitante foi pego pichando.
Foi recriminado por eles, que depois tomaram a iniciativa de limpar as paredes",
conta orgulhoso.
Os problemas que mais têm requisitado sua atenção são os vazamentos. "As pessoas
não sabem o que um prédio tem de tubulação. Já trocamos colunas inteiras",
conta. Mas o síndico é engenheiro nato e diante de um problema procura saber a sua
origem e a melhor maneira de solucioná-lo. "Com o apoio da administradora, posso
gerenciar o prédio. No mais, são as coisas que acontecem todos os dias. E sinto prazer
em acompanhar e resolver questões", garante. Os cuidados com o condomínio são
constantes, o que provoca queixas na família. Flávio já ouviu muitas reclamações da
filha, que diz que ele agora só pensa no prédio que lhe "roubou" o pai.
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